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Resumen de ponencia
Imagens da Reforma Psiquiátrica na obra de Natália Leite

*Erica Franceschini



Este trabalho parte dos estudos realizados pelo grupo de pesquisa Corpo, Arte, Clínica, coordenado pela professora Dra. Tania Mara Galli Fonseca da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Brasil), no qual busca-se compor testemunhos acerca dos arquivos produzidos na Oficina de Criatividade do Hospital Psiquiátrico São Pedro (HPSP) de Porto Alegre (RS), dando vazão à produção da loucura no tempo presente. A Oficina, proposta e montada pela psicóloga Bárbara Neubarth, conjuntamente com a terapeuta ocupacional Luciana Moro Machado, a enfermeira Rosita Ana Bauer e a artista plástica Luiza Gutierres, tem o intuito de fazer operar um outro dispositivo mental dentro do velho manicômio, constituindo-se como uma estratégia de desinstitucionalização que se avoluma às experiências decorrentes da Reforma Psiquiátrica no Brasil, embasadas nos trabalhos pioneiros de Nise da Silveira no Centro Psiquiátrico Nacional do Rio de Janeiro.
A Oficina insurge, assim, como uma pequena e tímida luzinha que, aos poucos, começa a colorir as cinzas paredes do hospital, lançando tintas nas brancuras higienistas. Esta mudança, como sabemos, funciona como resposta ao movimento político e social instaurado no início da década de 1990 no Brasil, que propunha a Reforma Psiquiátrica como uma forma de retirar a população dos manicômios para a promoção de um retorno à sociedade, fora dos muros. Porém, tal proposta deparou-se com um grande número de pacientes internos sem referentes familiares, nem uma rede de apoio que tornasse viável sua transição a este fora. Pacientes tais quais Natália Leite que vive no HPSP há mais de 50 anos, até os dias atuais, fazendo do velho manicômio sua casa.
Natália, assim como a maioria dos pacientes internados no HPSP, teve sua história de vida contada pelo diagnóstico da loucura e por páginas padronizadas de um prontuário que repetiam a inscrição “sem intercorrência”, denotando que em seu cotidiano perdurou o corpo humano reprimido em comparação ao que se considerava selvagem – à medida que, na arqueologia da loucura e das relações de poder que Michel Foucault realiza na obra intitulada História da Loucura na Idade Clássica (1961), o lugar do louco na Idade Clássica (séc. XVII e XVIII), delineava-se pelo empirismo da desrazão ou a perda da razão, que associada à animalidade era tida como negativa, pois ameaçava a ordem natural do universo. Além disso, o louco seria aquele possuído pelo espírito animal e por isso, aquele que sofreu uma perda total de sua racionalidade humana, o que na esteira do cartesianismo, correspondia ao não-ser, ou seja, aquele que por não pensar, não existia (atrelado ao cogito de Descartes, penso, logo existo). Logo, essa categoria – o louco – passaria a ser alvo do governo da população que propunha sua retirada da civilização, afastando-o da cidade e do território urbano para as internações nos grandes manicômios, geralmente construídos às vizinhanças das matas fechadas, ou seja, em espaços onde era permitido a circulação de animais selvagens.
Assim, voltamo-nos, nesta pesquisa à presença de Natália Leite na Oficina de Criatividade do HPSP, para que, através de sua expressão artística, possamos acompanhar os efeitos da arte na composição de estratégias ao campo da saúde mental no Brasil. Mas, quem era Natália, afinal? Qual era a sua história? O que ela testemunhou? O que ela deseja agora? Pouco ou quase nada se sabia sobre Natália e, talvez, nunca se saberia se a oportunidade não lhe fosse dada, essa de expressar-se. Da linguagem muda da loucura na Idade Clássica, o que vem à tona neste novo paradigma é o uso da arte como modo de dizer, modo possível que Natália encontrou para falar sobre si. Desde o ano de sua inauguração, Natália Leite ingressou na Oficina de Criatividade onde passou a pintar e a bordar, tendo produzido (e continua produzindo) milhares de obras que encontram-se catalogadas no Acervo da Oficina de Criatividade do HPSP.
Percebe-se na composição artística de Natália, uma marca consistente, um estilo que imprime no papel, operando sua poiética criadora de experimentação no mundo das artes. A poiética, enquanto “o pensamento possível de criação” (PASSERON, 2004, p. 10) apoia-se na escolha de procedimentos empregados na obra e seu processo – a obra não-finalizada – considerando que o estilo do artista faz coexistir em sua obra tanto a regularidade quanto a diferença. Isto posto, veremos que Natália faz de sua arte um ritornelo (DELEUZE; GUATTARI, 1997), quando tanto na produção dos bordados quanto na constituição das pinturas, arrisca-se ao traço largo, bem demarcado do pincel, com a presença constante e repetida de elementos como as casinhas, os humanos e os animais, coexistindo e habitando o mesmo campo. Por esse viés, Natália improvisa sua dança de imagens no papel, repetindo a melodia que abre sobre si mesma, tornando-se sempre outra.
Assim, os longos anos de internação psiquiátrica são coloridos com tons cor de laranja distribuídos em casinhas, animais e figuras humanas que, ao olhar de Natália, constituem sua via de expressão. Das milhares de obras produzidas, ainda em processo de catalogação, Natália deixou poucas sem pintar, uma em especial que trazemos neste estudo, destoa por sua feitura em desenho, onde encontramos, numa mesma paisagem, uma figura humana ao lado de uma figura animal. A partir desta imagem e buscando elementos no estudo da fotografia de Roland Barthes, passamos a problematizar a relação humano-animal articulada à percepção da loucura como animalidade. Por fim, apontamos o que se constituiu o punctum da imagem, colocando em evidência o conceito de devir-animal como uma zona híbrida e indiscernível, na qual a imagem se abre para outros sentidos que aguardam como um fundo de potências, sempre latentes. Assim, nesta pesquisa, buscamos e queremos apresentar, como uma pincelada, ou melhor, como outros modos de ler as imagens, a expressão de Natália Leite como um retrato possível à própria Reforma Psiquiátrica, denunciando a necessidade de fazer perdurar no tempo presente, outras lutas, na busca por um cuidado mais humano, mas que também saiba acolher o selvagem e a diferença no/do mundo.




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* Franceschini
Universidade Federal do Rio Grande do Sul UFRGS. Porto Alegre, Brasil