De fato, a criação de museus e o poder político e econômico, sempre andaram de mãos dadas. Se os museus são a representação da sociedade humana, no tempo e no espaço, caberia-nos questionar, não seriam estes museus historicamente a representação apenas dos ideais das elites sociais e políticas? Os museus tradicionais são peças fundamentais para entendimento de períodos históricos, do ponto de vista de classes dominantes, ou da forma como representam a si mesmas, na relação com o Estado, ou ainda em relação a bens culturais e artísticos de seu tempo. Em contraponto, a este caráter restrito e elitista dos museus tradicionais surge nos anos 1960-70 um movimento internacional que defende uma nova Museologia baseada em problematizar o papel social dos museus na sociedade em que estão inseridos. A reboque surge a chamada Museologia Social que toma como base a capacidade e a importância da ação dos indivíduos ou comunidades na construção das instituições. Nessa perspectiva, deixa-se de estudar os museus como um sistema de ideias em si mesmos e passa-se a considerá-los nas suas relações com a ação social. Outra nova noção construída neste contexto é a de Museu Integral, que incorpora as demandas do papel social dos museus, de um lado, e de outro, as mudanças da noção de patrimônio cultural, que resultam na concepção de patrimônio ambiental cultural, incluindo a cidade em seu sentido histórico e cultural e não apenas monumentos isolados que excluía inclusive o aspecto cultural, e passa-se a valorizar o projeto urbano de conjunto a partir da inter-relação com os outros elementos sociais e culturais do espaço urbano (CASTRIOTA, 2009).
Um museu tradicional seria composto de um edifício, uma coleção própria armazenada (de valor histórico, artístico, científico, técnico ou de qualquer outra natureza cultural) e, por fim, um público. Já um Museu Comunitário ou Ecomuseu, que a rigor são a mesma coisa, dispõe de um território de atuação, um patrimônio cultural compartilhado e uma comunidade envolvida. Desta maneira, um museu comunitário não precisa necessariamente dispor de uma sede física, um acervo ou mesmo de um público. O público principal do Museu Comunitário ou Ecomuseu seria antes de tudo a própria comunidade (VARINE, 1987). São oficialmente adotados pelo Instituto Brasileiro de Museus – IBRAM, os conceitos de museu integral, de museu de território/ecomuseu e museu comunitário, relativizando o poder do especialista museólogo pelo compartilhamento das decisões com as lideranças comunitárias (SCHEINER, 2012). No entanto, não há um consenso entre museólogos de que haja uma tipologia específica para museus comunitários, partindo do ponto de vista que todo museu que se propõe a ter uma gestão participativa e inserida na comunidade local pode ser um museu comunitário. Um conceito central na constituição da museologia social e no processo de trabalho dos Museus comunitários é a noção de Memória Social. Como afirma, Jô Gondar (2016), a memória social nos diz o que alguma coisa é no presente, no passado e no futuro, a despeito de qualquer mudança, e não se reduz a identidade e a representação. É simultaneamente, acúmulo e perda, arquivo e restos, lembrança e esquecimento (GONDAR, 2016). Da mesma maneira que o conceito de Museu Comunitário, Memória Social é ainda um termo ou conceito em definição entre diferentes campos de pensamento. A definição de Museus Comunitários adotada pela Associação Brasileira de Museus Comunitários – ABREMC, provém da experiência de constituição de museus comunitários no sul do México, cunhado por duas antropólogas mexicanas. Teresa Morales e Cuauhtémoc Ocampo (2008) veem o museu comunitário como uma ferramenta para a construção de sujeitos coletivos, desenvolver a consciência da própria história, propiciar a reflexão e a crítica e organizar-se para a ação coletiva transformadora (MORALES e OCAMPO, 2004). Talvez não seja possível estabelecer um conceito suficientemente abrangente de Museu Comunitário, mas uma diversidade de pontos de vista entre profissionais da museologia, militantes da museologia social, acadêmicos, gestores culturais e comunidades, entre processos museais e práticas de museologia comunitária. A partir deste segundo momento, pretende-se desenhar preliminarmente os caminhos e problemáticas metodológicas no desenvolvimento de um estudo de caso inserido no universo de tipologias possíveis de museus comunitários, inseridos em grupos sociais e contextos culturais muito diferentes, e, claro, com motivações museológicas também diferentes. De fato, há uma grande diversidade de museus comunitários no Brasil: indígenas, quilombolas, de favela, rurais, urbanos, ribeirinhos, etc. Tomo como exemplo de estudo de caso o processo social de implantação e desenvolvimento do Ecomuseu da Serra de Ouro Preto, que abrange 04 bairros do município de Ouro Preto, Minas Gerais, Brasil, localizados nos arredores da cidade tombada. O Ecomuseu é a parte correspondente à museologia social do projeto de criação do Parque Arqueológico do Morro da Queimada, projeto gestado desde 2005 com a participação da Prefeitura de Ouro Preto, a comunidade dos bairros envolvidos, a Universidade Federal de Ouro Preto - UFOP e o IPHAN. Em todos os bairros do Parque Arqueológico existem resquícios da ocupação urbanística de um próspero arraial minerador do início do século XVIII, Arraial do Pascoal, nome do comerciante português Pascoal da Silva Guimarães, que possuía um grande número de escravos para trabalhar nas minas. O Arraial cresceu no auge da exploração do ouro chegando a quase três mil moradores (MATTOS, 2012). Após o declínio da produção, o local ficou em ruínas e abandonado por quase duzentos anos, somado ainda ao esvaziamento populacional de Ouro Preto, com a mudança da capital do Estado de Minas Gerais em 1897. A necessidade de criação do Parque Arqueológico do Morro da Queimada surgiu sob a perspectiva de proteção de um patrimônio material aos poucos dilapidado, tanto pelo poder público local, quanto por parte da população (MATTOS, 2009). Procurava-se a proteção da moldura paisagística do conjunto de Ouro Preto, além de criar uma opção diferenciada de turismo fora do circuito tradicional tombado, com a melhoria da qualidade de vida e inclusão social das comunidades locais. Desta maneira, toma-se o Ecomuseu da Serra de Ouro Preto na função de mediador entre a população local do Morro da Queimada e o patrimônio arqueológico, assim como na relação com toda a cidade monumento de Ouro Preto, tendo o desenvolvimento da memória social daquela população como ferramenta de trabalho. Com esta finalidade, o Ecomuseu desenvolve desde 2007, projetos específicos, oficinas, encontros e ações de capacitação e mobilização comunitária nos bairros abrangidos pelo Parque, e, como museu de território, não possui sede física, um acervo armazenado ou exposto em determinado espaço, mas trabalha com acervos que são identificados e guardados pela própria população local. O primeiro desafio metodológico ao desenvolvimento da pesquisa corresponde em situar adequadamente o Museu Comunitário em seu contexto social mais amplo. Tendo em vista, que o Morro da Queimada está situado nos arredores de uma cidade monumento, patrimônio mundial da humanidade pela UNESCO em 1980, com características turísticas e universitárias, além de uma vida urbana típica de uma cidade média nos arredores de uma região metropolitana (RMBH), há uma complexidade de fatores e dinâmicas urbanas a serem consideradas. Todos estes aspectos da dinâmica urbana atual são elementos a serem levados em conta para entendermos os costumes, as práticas e a inserção na cidade dos bairros do Morro da Queimada. Estamos falando, obviamente, do cotidiano, das vivências e demandas de uma população urbana, com memórias rurais, que vive os meios do modo vida urbano, nos arredores de uma cidade média, patrimônio cultural anterior a estruturas típicas da modernidade. Um segundo desafio metodológico é distinguir o enfoque da pesquisa de outros possíveis enquadramentos disciplinares como, por exemplo, a história colonial de Ouro Preto, o estudo do acervo arqueológico existente ou do histórico do Parque em si. Desta maneira, tomo como foco central do objeto de pesquisa a relação simbólica, os usos e apropriações sociais e urbanos da comunidade local através da mediação do Museu Comunitário com métodos, linguagens e instrumentos sociais para sensibilizar, envolver e empoderar a comunidade local a desenvolver sua própria memória social na relação com a história da cidade de Ouro Preto. Um terceiro desafio metodológico é a aplicação do conceito de comunidade enquanto um sentido ou significado comum acionado e correspondente a própria população estudada. Isto, considerando que comunidade, é também usado muitas vezes como mero equivalente ao conceito de aglomeração urbana ou mesmo de região em uma cidade. Assim, o conceito precisa corresponder ao sentido dado na afirmação de um ponto de vista social, político e cultural de uma sociedade, e não exterior a ela, de maneira a permitir a representação de sua cultura, identidade e memória social próprias. Por fim, um último desafio metodológico é como colocar-se em campo, uma posição a ser construída tanto na relação com a população local quanto nas relações institucionais estabelecidas, construindo uma posição de independência com cooperação, combinada ao distanciamento e estranhamento necessários no desenvolvimento da pesquisa. Desta maneira, pretende-se com métodos e recursos qualitativos de pesquisa da sociologia e antropologia urbanas, associados a instrumentos de representação da Museologia social e Patrimônio Urbano problematizar os desafios para a preparação e planejamento de uma experiência de campo. Um trabalho de campo que busca vivenciar e representar a ação e os sentidos sociais articulados pelos Museus comunitários ou do Ecomuseu estudado na relação com a comunidade dos bairros do Morro da Queimada, e destes na relação com Ouro Preto.