O trabalho feminino tem sido amplamente estudado nas últimas décadas, mas ainda há carência de estudos no que se refere às especificidades da construção de estratégias das mulheres para lidar com as dificuldades de ser mulher e trabalhar, bem como também há pouca distinção do sofrimento feminino no trabalho. As questões associadas às relações sociais de sexo atravessam os campos disciplinares relativos tanto ao trabalho assalariado quanto ao trabalho doméstico. Desde os primórdios do sistema capitalista, a divisão sexual do trabalho confinou as mulheres ao trabalho reprodutivo, sem valor monetário, e os homens ao trabalho produtivo, que possui um forte valor agregado. Christophe Dejours nos apresenta como a Psicodinâmica do Trabalho contribui para uma análise das relações construídas continuamente entre trabalho e subjetividade. A partir do encontro com o real, caracterizado pelo hiato existente entre o prescrito e o efetivo, o sujeito confronta-se com o sofrimento, que pode ou não levá-lo a lançar mão da criatividade expandindo sua subjetividade. Para o autor, sujeito experencia o real sempre na esfera afetiva, sentindo-se frustrado perante as dificuldades do trabalho. A partir desta teoria, Pascale Molinier introduziu às suas pesquisas sobre trabalho o elemento “gênero”. No desenvolvimento de seus estudos, a autora evidenciou que, através do trabalho do cuidar, mulheres e homens reproduzem os papeis sociais de gênero de maneira bastante evidentes na esfera do trabalho. O objetivo deste projeto é identificar as especificidades das vivências de prazer e sofrimento no trabalho feminino, bem como delinear as principais estratégias de mediação adotadas pelas mulheres para lidar com a realidade de trabalho consubstanciada com questões de gênero. Justificativa: As mulheres necessitam de um espaço de fala que seja qualificado e contextualizado e que considere as questões clínicas que envolvem o trabalho e gênero. As questões relacionadas à falta de espaço de fala e a gênero podem potencializar os sofrimentos no trabalho. Objetivo geral: Caracterizar as especificidades das vivências de prazer e sofrimento no trabalho feminino, bem como delinear as principais estratégias de mediação adotadas pelas mulheres para lidar com a realidade de trabalho consubstanciada com questões de gênero. Materiais e métodos: Esta pesquisa será realizada com método qualitativo para coleta e análise de dados. As participantes serão selecionadas a partir de demanda para atendimento no Centro de Atendimento e estudos Psicológicos - CAEP. Especificamente, o método utilizado será o da clínica do trabalho, como proposta por Mendes e Araújo. A clínica do trabalho é o método da psicodinâmica do trabalho que, na abordagem de Mendes e Araújo (2012), está adaptada para o contexto brasileiro e pretende viabilizar o acesso às vivências de prazer e sofrimento e às estratégias de mediação dos trabalhadores. Conta com cinco dispositivos: demanda, elaboração e perlaboração, construção de laços, interpretação e formação do clínico. Hipotetiza-se que o sofrimento da mulher no trabalho é permeada por questões de gênero. Existe dificuldade de formação de coletivo de trabalho entre as mulheres decorrentes de ambientes de trabalho machistas; existe alto custo afetivo das mulheres em função do sexismo para executar atividades rotineiras de trabalho; e há dificuldades especificas de ascensão a cargos gerenciais. Como procedimentos de análise de dados, adotar-se-ão: Análise de estudos de caso, que se trata de uma análise de cada aspecto ou uma análise holística dos casos. São feitas descrições detalhadas do caso, tais como: história, cronologia de eventos, realização rotineira de atividades para posterior realização da fase interpretativa; Análise fenomenológica, que pressupõe o estudo narrativo de experiências do grupo de trabalhadoras atendidas a partir dos relatos das experiências vividas no trabalho e/ou da clínica do trabalho. A presente pesquisa apresenta riscos decorrentes da vivência da clínica do trabalho, o que resultam da elaboração e da perlaboração dos processos experimentados no processo terapêutico e do trabalho. Os benefícios desta pesquisa derivam da própria realização da clínica do trabalho e da possibilidade de entrar em contato com as questões do trabalho, geralmente silenciadas, banalizadas ou invisibilizadas. Além disso, tem-se como perspectiva um benefício a longo prazo no que se refere a saúde dos ambientes de trabalho nos quais as participantes estejam inseridas, posto que a clínica do trabalho tem potencial político de transformação, por meio da formação e consolidação de coletivos de trabalho. As participantes não terão benefício pessoal advindo da pesquisa, e serão informados disso, uma vez que sua participação nos estudos serve para validar o instrumento e embasar teorias. Também serão informados que caso haja interesse em receber devolutiva dos resultados grupais da pesquisa, será necessário disponibilizar um e-mail para contato futuro. Contudo, a participação gerará benefícios científicos e sociais, uma vez que o produto da pesquisa poderá fomentar debates acerca da temática e embasamento teórico futuro, até então escasso na área, além de oferecer a validação de um instrumento para as questões supracitadas. Resultados esperados: criação de um espaço especializado de escuta e acolhimento para mulheres que estejam em sofrimento no trabalho; desenvolvimento de uma rede de suporte e de troca de experiências entre mulheres em sofrimento do trabalho. Espera-se que esta rede se sustente de maneira independente, com o desenvolvimento de habilidades de manterem vínculos de apoio; desenvolvimento de atividades de pesquisa e ensino com o intuito de gerar conhecimento que embasam intervenções psicossociais.