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Resumen de ponencia
Por uma Docência Feminista - Análise do Ranking Mundial de Desigualdade de Gênero e da Entidade ONU Mulheres

*Beatriz Brasil Kort-Kamp



Este trabalho apresenta a proposta de pesquisa sobre as interferências históricas dos movimentos feministas na educação, assim como a possibilidade de uma mediação da práxis docente voltada para uma libertação dos corpos, desconstruidora dos estereótipos e essencial para uma formação social crítica e consciente dos lugares de gênero, raça e classe. O intuito é analisar os programas e campanhas internacionais no que tange as políticas voltadas para a igualdade de gênero, a forma que sua materialização assume na educação formal tendo como desdobramento a reflexão sobre a prática docente e a possibilidade de elaboração de uma práxis feminista. Penso que a questão central deste trabalho é: qual a concepção de prática educativa presente nas políticas de gênero da ONU? Como se materializa como política pública no âmbito da educação formal? Quais as mediações/estratégias utilizadas por países que reduziram esta desigualdade e o quanto aderiram ou não a estas propostas dos organismos internacionais?
A prática docente que vemos hoje ainda é extremamente sexista, a qual caracteriza cores, brinquedos, tarefas e atitudes enquanto “de menino” e “de menina”, tornando o ambiente escolar um lugar de julgamento das condutas, pré-determinando e categorizando as crianças diante da discriminação desses diferentes modos de ser. É inegável que a Instituição Escolar é uma instituição disciplinadora e reproduz os padrões culturais da sociedade em que está inserida, implicando em ser também a responsável por transferir, reproduzir as desigualdades. Evidencia-se a necessidade de tal discussão dentro do contexto escolar, já que esses sujeitos estão a todo instante sobre uma constante formatação, como por exemplo, de acordo com as concepções preconceituosas estereotipadas de gênero ainda encontradas na contemporaneidade.
Cumpre destacar uma das mediações possíveis no processo de desconstrução destas intervenções conservadoras, e que apresento como possibilidade de elaboração a partir deste trabalho de pesquisa que é o ativismo feminista como prática pedagógica.
Proponho o exercício de pensar a mulher docente enquanto sujeito consciente de seus atos, responsável pela construção de uma prática pedagógica que contribua para desenvolver um conhecimento crítico de sua realidade. A referida prática sintetizada com intencionalidades, que não está dissociada das lutas e transformações propostas e trabalhadas no âmbito dos movimentos sociais, se destaca enquanto militância do movimento feminista.
É através da educação que se manifesta a oportunidade de agir na realidade direcionando para a transformação da sociedade. A prática pedagógica reflete a vivência histórica, o que foi construído enquanto conhecimento acadêmico sistematizado e o que se carrega enquanto visão de mundo reconstruída nesse processo dialético. Nessa perspectiva é possível considerar o próprio exercício da docência enquanto um ato de militância.
A relevância da pesquisa se destaca diante dos índices de violência contra a mulher e o avanço de perspectivas conservadoras no âmbito social e na educação formal no Brasil, por isso torna-se importante o esforço coletivo de pensar as estratégias de superação que estão postas e fazer avançar nossa compreensão sobre estes fenômenos sociais.
Pensar e propor ações para uma educação mais feminista, ou seja, desconstruidora de padrões e intolerâncias é garantir que uma geração seja menos violenta, seja mais compreensível às diferenças e principalmente menos possessiva com as mulheres, que aprendam que as mulheres não são propriedades dos homens, uma educação que desconstrua a concepção que há implícita no pensamento machista de deter o direito de humilhar, espancar e matar uma mulher apenas por ser uma mulher.
Corrobora nossa percepção e é importante apresentar alguns elementos desta realidade adversa para a mulher e que se expressa pelos números alarmantes de violência contra a mulher no Brasil. De acordo com pesquisas divulgadas é possível constatar que no período 2009-2011, no Brasil a taxa corrigida de feminicídios foi 5,82 óbitos por 100.000 mulheres, estima-se que ocorreram, em média, 5.664 mortes de mulheres por causas violentas a cada ano, 472 a cada mês, 15,52 a cada dia, ou uma a cada hora e meia . O Mapa da Violência de 2015 aponta que em 2014 foram atendidas 223.796 vítimas de diversos tipos de violência. Duas em cada três dessas vítimas de violência (147.691) foram mulheres que precisaram de atenção médica por violências domésticas, sexuais e/ou outras. Isto é: a cada dia de 2014, 405 mulheres demandaram atendimento em uma unidade de saúde, por alguma violência sofrida.
Esses dados demonstram que a sociedade contemporânea possui a violência expressa nos moldes discriminatórios machistas, indica ainda a necessidade de trabalhar na educação, desde a educação básica, as relações de gênero e sexualidade a fim de desconstruir as opressões e discursos de ódio que são reproduzidos. Evidencia-se a inescusável discussão sobre essa temática na escola e a integrante prática pedagógica diferenciada – apontada diante dos dados alarmantes de feminicídios – enquanto uma tarefa de vida ou morte. Assim, esta problemática se legitima fundamental para contribuição analítica da realidade como também uma direção por meio da educação para uma intervenção e proposta de mudança.
O propósito da pesquisa estende-se desde a compreender a questão da mulher na sociedade capitalista e suas organizações de luta para transformação de sua realidade, tanto no Brasil quanto na Islândia, país apresentado em primeiro lugar no ranking sobre desigualdade de gênero do Global Gender Gap Index (GGI) de 2015 divulgado pelo Fórum Econômico Mundial, ressaltando e contrapondo os programas da ONU Mulheres, verificando-os e analisando em conjunto também as propostas voltadas para a educação.
Ao expor a Islândia e equipará-la ao Brasil, a pesquisa caminha para identificar se existe a relação entre a política mais ampla proposta pela ONU, as políticas nacionais do país em foco e a forma que esta política assume no âmbito da educação. Igualmente objetiva-se identificar a existência perceptível de uma prática docente com características feminista, dessa forma revelando por uma investigação direcionada, a prática dos movimentos sociais, nomeadamente o movimento feminista e especificamente no âmbito educacional as nuances da prática educacional e do sistema estabelecido.




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* Brasil Kort-Kamp
Fundação Oswaldo Cruz FIOCRUZ. Rio de Janeiro, Brasil