Embora sejam abundantes os trabalhos sobre a forma de atuação de organizações supranacionais como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional no sistema internacional, são reduzidos os trabalhos que tratam da atuação da OCDE. Assim como as instituições financeiras internacionais citadas, a OCDE é fundamental para a compreensão do processo de integração global dos mercados financeiros e de suas instituições, assim como do estabelecimento de assimetrias entre os países do centro e periferia. Diversamente das primeiras, a OCDE não fornece crédito, o que a impede de impor condicionalidades e de contar com um sistema de sanções para a adesão aos padrões de elabora. A OCDE é um agente central para a definição de padrões em diversas áreas, atuando como um think tank global com enorme capacidade de legitimação das práticas que prescreve. Em termos geopolíticos, a criação de consensos pela OCDE desmerece os jogos de poder e influência entre países membros e não membros no direcionamento e agenda da organização. O trabalho tem como foco analítico a atuação da OCDE para a regulação das relações entre os mercados financeiros e as empresas de capital aberto, por meio da elaboração e difusão de padrões de governança corporativa. De forma breve, é possível definir a governança das corporações como o conjunto de leis, normas e processos de gestão que estabelecem quem controla as corporações, com quais objetivos o controle é exercido e como são distribuídos os benefícios de sua atividade. No contexto de forte desenvolvimento das finanças norte-americanas e globais da década de 1990, houve uma transformação radical nas concepções de controle das corporações. A atividade das corporações adquiriu novo centro, dado pelo interesses dos acionistas e pelo aumento do valor das ações das empresas nas bolsas de valores. O debate sobre qual a finalidade de uma empresa originou duas linhas concorrentes que procuram definir a governança corporativa. Em um extremo, a corporação é apenas conjunto de papéis a serem livremente negociados, que garantem aos seus proprietários o direito aos lucros. Conforme tal perspectiva, a empresa tem como objetivo a maximização do patrimônio dos acionistas, concepção que tem sua origem nas economias anglo-saxãs. No outro, a empresa é um complexo nexo de relações sociais, que retira seus recursos do conjunto da sociedade, e cujos acionistas são uma das partes a que deve responsabilidade, devendo atuar no interesse de todas as partes envolvidas. O modelo tem referência nipo-alemã e oferece maior resistência aos comandos das finanças. Diferentes modelos de empresa resultam em perspectivas de desenvolvimento social opostas. A pesquisa procura entender não apenas como tem origem as novas formas de governança corporativa, mas principalmente por que o modelo anglo-saxão se tornou globalmente dominante e quem são os beneficiados deste processo. Para tal investiga a atuação da OCDE como catalisadora de um amplo processo de reforma da governança corporativa, parte da Nova Arquitetura Financeira Internacional. A governança, assim como o próprio fortalecimento dos mercados financeiros e de suas instituições, é vista pela OCDE como uma solução para muitos dos problemas que afetam o desenvolvimento econômico e social global. No fim da década de 1990, com o lançamento dos Princípios de Governança Corporativa, a OCDE legitimou como universal o modelo anglo-saxão de governança, que melhor responde as demandas do capital financeiro internacional, colocando em dúvida tal assertiva. O processo de elaboração dos Princípios foi desproporcionalmente influenciado por agentes das finanças, a exemplo dos grandes bancos, fundos mútuos de investimento e fundos de pensão em relação a outras forças sociais, conforme demonstrado pelos debates envolvidos na produção do documento que lhe dá origem, chamado de Relatório Millstein. A OCDE, organização de marcada orientação econômica liberal, significativamente influenciada pelos governos dos EUA e da Inglaterra, ratificou as práticas dominantes nos mercados acionários, divulgando-as como de interesse geral. A iniciativa teve caráter político, pois o modelo determina que as corporações atuem para a maximização do patrimônio dos acionistas, privilegiando seus interesses em detrimento de outros grupos envolvidos com sua atividade. Apesar da instabilidade do modelo predicado, confirmada pela crise financeira de 2008, a OCDE continua a defender sua eficiência econômica e potencialidade social. A investigação tem base bibliográfica e documental, e dedica-se especialmente à análise da numerosa produção de padrões de governança corporativa pela OCDE e dos documentos que lhes são complementares, como entrevistas, surveys e materiais institucionais. Paralelamente, analisa documentos de um conjunto de organizações atuantes na esfera internacional cujo objetivo é a promoção da governança corporativa.