Campo Temático 16:Feminismo y políticas de género
Este trabalho é parte de uma pesquisa de tese de doutorado ainda em andamento, onde pensa-se acerca do conceito de gordofobia a partir de vivências de mulheres. Sabe-se que os corpos femininos estão constantemente a mercê de pressões estéticas. A constante vigilância acerca das medidas destes corpos e as opressões sofridas por mulheres gordas chama-se gordofobia. Tal opressão, segundo Natália Rangel (2017) aparece na forma de conceito nos Estados Unidos a partir da militância de pessoas acima do peso que percebiam a importância da luta política organizada contra tais formas de violência.
Para pensarmos uma perspectiva feminista acerca da gordofobia, concordamos com Natália Rangel (2017) no sentido de as pautas de corpos obesos aparece, de maneira geral, enquanto uma pauta secundária das lutas deliberadamente feministas. A autora afirma que, apesar da recente utilização do termo gordofobia, os estudos acerca da gordura corporal já possuem uma história longa, a partir dos estudos sobre a gordura corporal intitulada fat studies (CAHNMAN, 1968; ALLON, 1981). Atualmente, de acordo com Lupton (2013), pode-se pensar os campos que se detém acerca dos temas relacionados à gordura corporal em campos distintos, que podem ser divididos principalmente entre: 1) Um primeiro intitulado Anti-obesidade, no qual pensa-se níveis de gordura corporal a partir do Índice de Massa Corporal (IMC), que trata os níveis acima de tais marcas como uma questão de saúde pública; 2) Um outro campo intitulado Biomédico-crítico que vai contra a idéia disseminada de uma “epidemia da obesidade”, questionando a colocação de corpos acima do peso como necessariamente doentes; 3) Ainda existem estudos intitulados como Libertários céticos, que acreditam na valorização da autonomia individual quanto a manutenção de hábitos compreendidos como saudáveis; 4) Há ainda os Estudos críticos do peso/estudos gordos (fat studies), que leva em consideração o contexto histórico que age para a produção de verdades e saberes acerca dos temas relacionados a gordura corporal; 5) Por fim, a autora nos coloca como um campo de estudos acerca de tais temas o Ativismo gordo, que se apresenta como um movimento que questiona padrões estéticos que deliberadamente excluem toda uma população por estes possuírem corpos obesos, o que dificulta não só a relação interpessoal a partir de preconceitos que excluem e violentam pessoas no seu cotidiano, como também acabam por limitar os espaços de convivência e a liberdade individual, na medida em que toda a cidade é construída a partir de um tamanho considerado como norma – tais como catracas em transportes coletivos, banheiros pequenos, dentre outros.
Tais estudos apontados por Rangel (2017) e Lupton (2013) demonstram a vasta produção intelectual e militante acerca das lutas contra opressões relacionadas à corpos obesos. Aqui, pensa-se a aproximação de tais discussões à perspectiva de Annemarie Mol (1999; 2002; 2008) na abordagem das múltiplas maneiras pelas quais a gordofobia é vivenciada por mulheres em suas vivências. A partir dessa percepção, confirma-se a aproximação com uma perspectiva teórico-metodológica na qual autoras engajadas na discussão feminista da ciência percebem os objetos como manipulados dentro das práticas. Nesse sentido, pensa-se não buscar uma de uma verdade acerca da gordofobia vivenciada por inúmeros sujeitos, mas perceber como ela é pensada, materializada, em práticas e realidades múltiplas. Pretende-se, ao longo do percurso do doutorado, perceber como tais violências são reafirmadas e combatidas no cotidiano de mulheres diversas, levando em consideração suas interseccionalidades (CRENSHAW, 1991), como raça, classe, orientação sexual, dentre outros marcadores sociais da diferença.
Para tal, baseando-se em Annemarie Mol (1999, 2002, 2008, 2010) e no seu caminho teórico-metodológico para a apreensão das materialidades, no qual ressalta a importância da mudança de uma percepção da realidade como dada; para uma pesquisa praxiográfica. De acordo com a autora, é apenas nas práticas que os objetos são produzidos e passam a existir como realidade para o mundo. Em suas principais obras, destaca-se seu empreendimento na direção de uma marcante descrição das práticas através das quais doenças como a arteriosclerose e a diabetes são feitas, ou performadas. É, portanto, nas práticas que elas são produzidas a partir de arranjos múltiplos e heterogêneos. O principal objetivo do investigador, segundo a autora, é o de averiguar as conexões que são sempre locais e parciais entre as realidades e os objetos. Como afirma Márcia Morais (2013), sobre a praxiografia de Mol (2008), tais realidades são performadas por atores diversos. Por exemplo, as práticas cotidianas da vida com diabetes são cercadas de seringas, insulina, médicos, alimentação, histórias diversas. Ou seja, viver é um exercício sempre local e direcionado por determinadas práticas reorganizadas diariamente. A doença, segundo a autora, é parte da rotina, do exercício contínuo de viver.
Dessa maneira, pretende-se perceber como diversas mulheres vivenciam os efeitos da gordofobia em suas vidas cotidianas, a partir de um contato próximo e uma descrição detalhada de tais práticas e discursos. Concorda-se com Mol (2008) a partir da defesa de uma política de intervenção que não compreende a realidade como fixa, mas sim como construída no momento em que interagimos com ela. Ao considerar os termos “política” e “ontologia” juntos, a autora chama atenção para o fato de que realidade é efeito e é performada, e que aquilo que se encontra estabilizado (e conta como verdade) é sempre fruto de negociações, trabalho e práticas.
Leva-se em consideração também os debates trazidos por Peter Conrad (2007) acerca da medicalização da vida, onde problemas não médicos em doenças que poderiam ser tratados através de medicamentos. Tais problemas, antes considerados desvios morais ou consequências dos efeitos do ciclo vital (como disfunções sexuais, envelhecimento, etc) foram, a partir de então, tratadas como patologias. Conrad (2007) destaca ainda como nesses processos é produzida uma transformação de pacientes em consumidores ativos de fármacos e biotecnologias diversas.
Nesse sentido, segundo o autor, os sujeitos têm aprimorado seus corpos e demandado tratamentos médicos e tecnologias diversas com fins tanto estéticos, quanto movidos pelo desejo de se manterem saudáveis. Assim, demonstra que existem diferentes aspectos envolvidos nesse fenômeno da disseminação de técnicas de aperfeiçoamento corporal. Um primeiro fato identificado por ele é o da normalização, ou seja, o modo como a utilização de diversas tecnologias e tratamentos se inscreve na perspectiva de “correção” dos corpos com o objetivo de atingir modelos considerados como normais. Um segundo ponto ressaltado por Conrad (2007) pode ser caracterizado pelo ideal de reparação e reajuste de corpos, como aparece nos tratamentos com fins de rejuvenescimento, por exemplo. O terceiro ponto destacado pelo autor é sobre o foco nos melhoramentos e aprimoramentos corporais com fins de incrementar as performances, sustentado por um horizonte de competitividade.
A obesidade pode ser pensada como inserida nesse processo de medicalização da vida apontados pelo autor, na medida em que corpos obesos são, na atualidade, automaticamente percebidos como corpos doentes e que precisam ser tratados para que possam se enquadrar em uma norma estabelecida pelo IMC. Para além de questionar a validade de tais postulações, pensa-se neste percurso, apreender como mulheres vivenciam tais opressões e destacar a multiplicidade de vivências de pessoas obesas a partir da descrição de suas vivências, com o intuito de demonstrar a pluralidade que extrapola um conceito ou uma medida pré-estabelecida de corpos.
REFERÊNCIAS:
CONRAD, P. Medicalization of society: on the transformation of human conditions into
treatable disorders. Baltimore: The Johns Hopkins University Press, 2007.
LUPTON, Deborah. Fat. [Shortcuts Series]. 1. ed. London: Routledge, 2013.
MOL, Annemarie. Ontological Politics: a Word and Some Questions in John Law and
John Hassard, Actor Network Theory and After, Oxford and Keele: Blackwell and the
Sociological Review, 1999.
___________. The body multiple: Ontology in medical practice. Duke University Press,
2002.
___________. The Logic of Care: Health and the Problem of Patient Choice, London:
Routledge, 2008.
MOL, Annemarie; MOSER, Ingunn & POLS, Jeannette. Care in Practice: On Tinkering
in Clinics, Homes and Farms, Bielefeld: transcript Verlag, 2010.
MORAIS, Marcia. Contribuições Das Investigações De Annemarie Mol Para A Psicologia Social. Psicologia em Estudo, Maringá, v. 18, n. 2, abr./jun. 2013.
RANGEL, Natália Fonseca de Abreu. A Emergência Do Ativismo Gordo No Brasil. Seminário Internacional Fazendo Gênero 11 & 13 th Women’s Worlds Congress (Anais Eletrônicos), Florianópolis, 2017.