O objetivo desta investigação é demostrar que a conquista do Estado sofreu a interferência dos golpes de classe no Brasil, aliado as imposições dos jogos imperiais comandados por ações políticas das oligarquias financeiras locais e anglo-americanas através da formação de cartéis transnacionais e coadjuvada por agentes locais em 1954 e 1964.
Isso resultou num golpe civil-militar em 1964 que depôs o Presidente João Goulart, e num momento anterior, outro golpe político se fez contra o Presidente Getúlio Vargas, o qual, inclusive, custou-lhe a própria vida, em agosto de 1954.
A perspectiva histórico-estrutural demonstra que a história do subdesenvolvimento do Brasil é produto das relações político-econômicas com o capital monopolista internacional e associado. Assim, demonstra-se também que os governos civis que se negaram a colaborar com o imperialismo dos países centrais, preocuparam-se com um reformismo social amplo e transformador da realidade para estabelecer um projeto de desenvolvimento nacional autônomo com distribuição de renda, foram desestabilizados do poder, e que a burguesia brasileira, a qual não se comporta como um empresariado renovador e nem mesmo competitivo por si só, foi sendo gradualmente seduzida pelas vantagens aparentes que lhe ofereciam os monopólios internacionais e associou-se facilmente com tais agentes, mesmo na condição de sócia menor. Isto é, aceitou, sem constrangimento, integrar uma classe totalmente subalterna, desnacionalizada e colonizada. Assim, o peso do fator estrangeiro intensifica a influência imperialista no controle da economia e das decisões políticas brasileiras.
Neste processo de investigação analisou-se o golpe de Estado de 1964 através dos agentes das empresas transnacionais anglo-americanas. Estes, articulados com as elites orgânicas dos governos dos países por eles apoiados, pelo conjunto de forças organicamente vinculadas com a retirada abrupta de Vargas do poder em conluio com as frações da burguesia nacional, políticos, jornalistas e militares. Coordenaram outro golpe de Estado através de uma série de atividades que lhes permitiram se apropriar do controle do poder político e econômico local, a fim de retirar do governo o Presidente João Goulart.
O golpe civil-militar de 1964 foi impreterível, pois as tentativas de impedir a posse de João Goulart, inclusive com a instalação do parlamentarismo, foram malsucedidas. O seu programa de governo, um projeto desenvolvimentista de perspectiva nacionalista e reformista que buscava, entre outras coisas, incorporar os setores populares, caracterizava-se como uma ameaça aos interesses conservadores. Pela primeira vez, no Brasil, a pressão dos trabalhadores alcançava protagonismo e influenciava as decisões políticas do Governo Federal, esse é um ponto fundamental que aguçou a crise de dominação de classe, à medida que a burguesia abandonou qualquer apoio a Goulart e também qualquer projeto de nação para seguir as determinações do imperialismo estadunidense.
No plano internacional, ainda que já houvesse forte movimentação do Presidente John Kennedy contra Goulart, foi em 1963, após o seu assassinato e da posse de Lyndon Johnson, que o governo estadunidense abandonou a “Aliança para o Progresso” – que pretendia estabelecer modificações nas estruturas sociais dos Estados “atrasados” da América e, desse modo, impedir o aparecimento de movimentos revolucionários – para priorizar de vez a adoção de regimes ditatoriais locais sob o lema “desenvolvimento e segurança” (MUNTEAL; VENTAPANE, 2006, p. 9). Somada a esses pontos, havia inclusive a razão imperialista de fazer do Brasil uma submetrópole latino-americana e de impedir que Leonel Brizola assumisse a Presidência da República no ano seguinte (1965), pois certamente ele intensificaria as políticas de diretrizes trabalhistas e antiimperialistas (VASCONCELLOS, 2008, p. 7). O golpe de Estado em 1964 foi um claro episódio de luta de classes. Estabeleceu-se um estado de exceção escorado pelos monopólios internacionais que, mediante um processo de contrarrevolução permanente, impuseram sua hegemonia econômica e política à sociedade brasileira (BANDEIRA, 1978, p. 186).
Ao articular a investigação, pode-se também afirmar a impossibilidade de o proletariado latino-americano fazer qualquer tipo de aliança com as respectivas burguesias nacionais. Como a história comprova, embora em algumas circunstâncias a burguesia local atrite-se com a burguesia internacional ou com as oligarquias agroexportadoras, no limite, ocorre uma pura unidade das classes dominantes. Ou seja, as classes sociais são eminentemente antagônicas e a alteração dessa ordem estratificada somente poderá ser promovida pelas classes dominadas, ao passo que a união contra o imperialismo seja uma união com luta de classe.
Ressalta-se, por fim, além do caráter opressor do imperialismo e, não menos nefasto, das classes dominantes brasileiras, que é infactível pelas vias espontâneas do mercado superar o atraso econômico-social. A luta revolucionária e antiimperialista das classes subalternas é, por assim dizer, o único meio para romper com a dependência e com o subdesenvolvimento dos países periféricos (VASCONCELLOS, 2015, p. 107).
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BANDEIRA, Moniz. O governo João Goulart: as lutas sociais no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978.
MUNTEAL, O.; VENTAPANE, J.; FREIXO, A. D. O Brasil de João Goulart: um projeto de nação. Rio de Janeiro: Contraponto, 2006.
VASCONCELLOS, Gilberto Felisberto. Darcy Ribeiro: a razão iracunda. Florianópolis: UFSC, 2015.
_______. Depois de Leonel Brizola. São Paulo: Caros Amigos, 2008.