RESUMO
“Resistir” e “lutar” são verbos que fazem parte do cotidiano do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, todavia, o quadro falacioso que os meios de comunicação de massa desenham e exteriorizam, bem como o posicionamento estatal, resultam por fomentar uma visão deturpada de um movimento que, na prática, faz-se símbolo da luta e resistência popular que é disseminada por todo o país, buscando incessantemente o direito à terra e aos demais direitos sociais tutelados constitucionalmente. Um ensejo que, infelizmente, se depara, frequentemente, com ações e reações violentas, nas quais seus ativistas são vítimas da truculência e da estigmatização dos setores econômicos dominantes da sociedade, dos grandes meios de comunicação e do próprio Estado.
PALAVRAS-CHAVE: Resistência. Movimento dos Trabalhadores Sem Terra. Mídia.
ABSTRACT
"Resist" and "fight" are verbs that are part of the daily life of the Landless Workers' Movement. However, the fallacious framework the mass media portrays and exteriorizes, as well as the state positioning, result in fomenting a distorted view of a movement that, in practice, becomes a symbol of the struggle and popular resistance that is widespread throughout the country, incessantly seeking the right to land and other social rights constitutionally protected. This is an opportunity that, unfortunately, is often faced with violent actions and reactions, in which its activists are victims of the truculence and stigmatization of the dominant economic sectors of society, the mass media and the State itself.
KEYWORDS: Resistance. Landless Workers' Movement. Media
INTRODUÇÃO
O que leva a luta popular caminhar na direção de um grande sonho é a certeza absoluta nesse sonho, certeza de uma realidade que ainda não se enxerga (Peloso, 2014).
A mídia, calcificada pelo sistema capitalista, através do seu falso discurso de imparcialidade, torna-se um importante instrumento de formação (persuasão) da opinião pública, corrompendo a visão da sociedade quanto à atuação dos movimentos sociais no Brasil.
Indo de encontro à imagem preconizada pelos meios de comunicação de massa, observa-se que a essência do engajamento social do MST se manifesta de forma participativa na defesa dos direitos, da rediscussão do papel da propriedade de terra, da produção em comunhão com a proteção do meio ambiente, dentre outros aspectos de eixos transversais que permeiam a sua organização, que refletem e se relacionam diretamente com a comunidade nacional.
O Estado, por sua vez, contrapondo as prerrogativas da nossa Carta Magna, posiciona-se frente às reivindicações dos militantes de maneira exígua para a resolução da problemática da disputa pela terra, quando não, fomentando de modo indireto os confrontos desencadeados no território brasileiro.
Almejando impulsionar a discussão acerca da temática abordada, faz-se um paralelo entre a vivência dos Sem Terra em seu engajamento na esperança pela conquista de seus objetivos, mesmo tendo de enfrentar os obstáculos impostos, principalmente à violência, e a visão caricata, equivocada e tendenciosa difundida pela mídia.
METODOLOGIA
O projeto tem seu desenvolvimento através de estudo bibliográfico, buscando fundamentar as experiências analisadas no estudo de campo realizado no assentamento do Movimento Sem Terra Josinei Hipólito, situado no município de Ituberá, região do Baixo Sul da Bahia, assim identificando as causas, a importância e a incidência da luta de tal grupo.
Formado por em média 350 pessoas, constituindo 60 famílias, sua ocupação se deu nos anos 90, no mandato de Fernando Henrique Cardoso, período de grande efervescência de embates do movimento com o governo. Por esse viés, torna-se uma mostra que nos permite vincular com as semelhantes realidades de outras regiões do país.
Por meio de entrevista e um contato próximo com a comunidade, foi possível perceber a insatisfação da mesma no que se refere à imagem que é transmitida pelos meios midiáticos acerca da realidade vigente, considerando o papel de vilão que é atribuído ao movimento.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
O confronto entre a mídia e o Movimento Sem Terra não é um acontecimento recente, quiçá desconhecido, pelo contrário, se faz presente na história do Brasil desde períodos remotos concomitante ao ativismo dos militantes e a força da luta que carregam consigo, como é captado por pesquisadores que analisaram reportagens divulgadas desde de muitos anos atrás.
“Em maio de 2000, outra ofensiva da grande imprensa contra o MST. A revista Veja, em seu número 1.648, deu como manchete de capa “A tática da baderna”, referindo-se às ações do MST no início do mês. Na matéria intitulada “Sem terra e sem lei”, ataca: “Na prática, quem observa a trajetória do MST verifica que, pouco a pouco, modifica sua visão a respeito desses objetivos [a reforma agrária]. Numa palavra, o MST não quer mais terra. Ele quer toda a terra, quer tomar o poder no país por meio da revolução; feito isso, implantar aqui um socialismo tardio [...]” (MORISSAWA, 2001, p.218).
Desafiando o que lhes é imposto, e estimulando o ímpeto de buscar o que lhes pertence por direito, observa-se que o MST em suas propostas e métodos de atuação desagrada em grande escala o Poder Econômico e Estatal. Dessa forma, denota-se como os meios de comunicação de massa representam significantes instrumentos de propagação de ideias contrárias a tal militância, em conluio com governos e setores economicamente dominantes da sociedade, a fim de distorcer os verdadeiros propósitos do Movimento, bem como, camuflá-los semeando projetos como o do Agronegócio, que resultam por vender um ideal de sustentabilidade, mas que em sua essência atinge diretamente as condições de trabalho e de vida dos Sem Terra e dos pequenos trabalhadores rurais, e ainda dificulta a concretização da Reforma Agrária, finalidade basilar da luta do MST.
Quanto à sensação de que o MST é criminalizado pela mídia, os números comprovam que o Movimento é mostrado de maneira negativa. Mesmo que nem sempre se refira a crimes de forma direta, a maioria das matérias utiliza termos pejorativos ou cita atos considerados violentos cometidos por integrantes do MST. As bandeiras de luta do MST, em geral, não são mencionadas; quando isso acontece, normalmente são menosprezadas, em afirmações de que a Reforma Agrária já teria sido feita e que o MST não teria mais o que reivindicar (Relatório Vozes Silenciadas, 2011, p.157).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Constatou-se pela pesquisa realizada o embate entre o domínio da mídia e a necessidade de visibilidade social que possui o MST, visto que este meio delimita e alimenta um olhar preconceituoso da sociedade no que tange aos assentados e sua luta, criminalizando o movimento em um momento no qual o mesmo precisa apresentar a importância das pautas que defendem para todo âmbito político e econômico, a fim de reduzir as desigualdades do país, e assim, agregar mais apoiadores e seguidores da causa.
REFERÊNCIAS
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