A presente investigação, desenvolvida no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas e Formação Humana (PPFH) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), objetiva identificar possibilidades de formação dos docentes da Educação Básica, Técnica e Tecnológica que atuam no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro (IFRJ), sob o ponto de vista da análise de sua própria atividade. A criação dos Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia (IFs), em dezembro de 2008, trouxe novas propostas para a condução da Educação Profissional e Tecnológica do país, inclusive no que diz respeito à atividade docente. Ao ofertar cursos de diferentes níveis e modalidades em um mesmo campus, propondo a verticalização do ensino, ou seja, a integração da educação básica à educação profissional e educação superior, foi criado um novo plano de carreira: do magistério do ensino básico, técnico e tecnológico (EBTT).
Embora tenha-se intencionado, com essa ação, diferenciar estes docentes daqueles que atuam em universidades federais, os que pertencem à carreira EBTT, além de lecionar em diferentes níveis e modalidade de ensino, em diferentes turnos, também desenvolvem projetos de pesquisa, extensão, atividades de gestão acadêmica e produção técnica-científica, atendendo inclusive aos mesmos parâmetros estipulados por agências de fomento às universidades, uma vez que os IFs são equiparados às demais instituições federais de Ensino Superior.
Essa pluralidade de espaços de atuação aponta para algumas questões e, neste trabalho, focaremos na questão da formação destes docentes; em geral, os licenciados são preparados para atuarem no ensino médio de caráter propedêutico, ou seja, uma formação sem identificação direta com a relação trabalho-educação intrínseca à educação profissional. Além disso, a natureza dos Institutos Federais, diante da especificidade de determinadas disciplinas técnicas, exige a contração de docentes não licenciados ou sem formação pedagógica, condição esta que os desabilita a atuarem na educação básica, conforme está posto na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei Nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996).
Tal contexto se alinha uma discussão corrente sobre a inexistência de diretrizes curriculares nacionais específicas para a formação docente na educação profissional, suscitando questionamentos em torno de como estes docentes articulam o conhecimento teórico-prático ao conhecimento pedagógico necessário à docência na educação profissional técnica e tecnológica. Desta forma, minha preocupação avança um pouco mais nesta questão: como os docentes que atuam em um Instituto Federal “aprendem a agir” como professores da educação profissional, técnica e tecnológica?
Metodologicamente, buscaremos adotar uma postura dialógica, inspirada nos dispositivos desenvolvidos pelas clínicas do trabalho, onde o modelo de pesquisa-ação bem se ajusta pelo fato das mesmas não se prenderem a questões simbólicas ou imaginárias ao buscarem compreender a relação entre trabalho e subjetividade (BENDASSOLLI; SOBOLL, 2011). As clínicas do trabalho apostam na potência do trabalho, à medida que se convoca os trabalhadores a debruçar-se sobre sua própria prática, ao mesmo tempo em que leva o pesquisador a não se prender somente a procedimentos técnicos, mas atuar como um mediador que busca “a conscientização e o ‘empoderamento’ dos sujeitos nas situações de trabalho.
Neste sentido, trabalho é concebido como trabalho-atividade, um espaço permeado por uma atenção a si mesmo, ao coletivo e à dimensão histórica que envolvem a atividade em si, em uma situação de trabalho. E é diante desta abordagem que discutiremos a questão da formação docente, apoiados nos estudos do pesquisador português António Nóvoa (2009) que afirma existir, como parte da formação, espaços e tempos para um trabalho de autoconhecimento e autorreflexão, estando aí presentes sua história pessoal e profissional, a construção de uma vida inteira. Nestes espaços e tempos, é construído o conhecimento sobre si mesmo, sobre os outros e sobre as coisas, e o professor vai elaborando modos próprios de “ser” professor, diante do que é confortável, prazeroso.
No entanto, nem sempre o conhecimento necessário estará disponível, e nestas lacunas se encontram os saberes oriundos da experiência, afirmação esta que nos leva para o campo da ação, onde a docência acontece, onde o “ser” docente se mostra. Desta forma, um dos objetivos desta pesquisa é buscar alternativas frente a um quadro onde “a formação de professores está muito afastada da profissão docente, das suas rotinas e culturas profissionais” (NÓVOA, 2009, p.203).
Apoiados em pressupostos teóricos que levam em consideração a historicidade da ação humana, esperamos que os diálogos estabelecidos junto aos docentes acerca de sua própria práxis contribuam para a construção de saberes sobre o trabalho docente nos Institutos Federais e, especialmente, para a transformação da realidade com a qual dialogamos.
REFERÊNCIAS
BRASIL. LEI Nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Diário Oficial da União. Brasília, DF, 1996.
BENDASSOLLI, P. F.; SOBOLL, L. A. P. Introdução às clínicas do trabalho: aportes teóricos, pressupostos e aplicações. In: BENDASSOLLI, P. F.; SOBOLL, L. A. P. (orgs). Clínicas do Trabalho. São Paulo, Atlas, 2011, p.3-21.
NÓVOA, A. Para uma formação de professores construída dentro da profissão. Revista de Educación, 350. Septiembre-diciembre 2009, pp. 203-218