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Resumen de ponencia
Cidade, Imagem e Intervenções Gráficas Urbanas: cartografias do projeto Narrativas Possíveis na cidade de Fortaleza (Ceará, Brasil).

*Alice Dote
*Alysson Lemos



A cidade é o espaço da linguagem, de imagens de variadas escrituras, a imagem de um mundo e também o mundo de uma imagem que lenta e coletivamente vai sendo construída e reconstruída incessantemente (SILVA, 2011). As imagens dizem da cidade, falam dos jogos de força e relações de poder do urbano, expressam tensões, negociações e disputas e, além do que nelas ou por elas fala, a cidade existe no que cala ou no que não é imediatamente visível, nos seus aparentemente insignificantes acenos (BRISSAC, 2004).

Partindo de Foucault (1988), entendemos a cidade como o espaço privilegiado do poder que investe, administra e coloniza a vida, como elemento político fundamental, penetrando em todas as suas esferas e em seus mais ínfimos aspectos. Podemos dizer que o exercício do biopoder reflete-se na produção do espaço urbano e dos regimes de visibilidade dominantes, determinando também as modulações do sensível. Promovidas por um regime neoliberal e amparadas por uma estrutura institucional, as imagens e narrativas visuais hegemônicas, dominantes e oficiais de uma cidade normatizada pelo biopoder instituem enquadramentos, sanções e fronteiras (visíveis ou invisíveis) às possibilidades da cidade e da própria vida. No entanto, nesses cenários de, cada vez mais e mais fortemente, proliferação das imagens do biopoder na cidade, sempre há furos, potencial de desordem, invenção de possíveis, onde a vida revela-se em sua potência indomesticável. Apesar das estruturas que a contêm e dos discursos e imagens que a orientam, a cidade se inscreve como um texto vivo e humano, camada sobre camada, nas práticas microbianas, singulares e plurais dos praticantes ordinários da cidade (CERTEAU, 1998). É nesse nível que podemos entender a cidade como o símbolo do possível.

O projeto Narrativas Possíveis (Fortaleza, Ceará, Brasil) é uma tentativa de perscrutar tais possibilidades da cidade. Entre percursos e atravessamentos, inquietando o exercício do olhar, buscamos as falas dos muros da metrópole. Essas são narrativas urbanas que não têm lugar nos cartões postais, guias turísticos, mapas oficiais, mídia institucionalizada, galerias e museus, mas povoam as ruas. Surgem como possíveis na, da e para a cidade.

No caminhar cotidiano, fotografamos expressões da arte urbana, especialmente o que denominamos intervenções gráficas urbanas, que são compartilhadas em páginas do projeto em redes sociais. Essas são intervenções gráficas no contexto urbano, em muros e demais suportes da cidade, em diversos suportes: pichações (intervenções escritas), estênceis (moldes vazados), cartazes lambe-lambe, dentre outros. São gritos políticos, recados de amor, desabafos íntimos e tantos outros escritos, quase nunca assinados e não necessariamente repetidos pelo território (o que as diferencia das “tags”, por exemplo), mas, geralmente, também informais, não autorizados, ilegais, de natureza transgressiva e efêmera.

Em atividade desde maio de 2017, o projeto Narrativas Possíveis registrou cerca de 300 fotografias de intervenções gráficas urbanas, a maioria na cidade de Fortaleza, que, aos poucos, constituem uma cartografia outra dessa cidade a partir de uma cartografia dos nossos próprios percursos e afetos. Na esteira da antropologia urbana de Caiafa (2007), acreditamos que o sentido do nosso método-pensamento dá-se nos nossos percursos, o que significa constituir esse próprio caminho com as intervenções gráficas urbanas que nos atravessam e nos deixarmos afetar pelos acontecimentos no caminho. Nesse escrito, nos debruçamos sobre essas imagens e as questões que delas emergem: como as intervenções gráficas urbanas podem constituir narrativas outras na e da cidade? Em prol de que novos espaços, novas cidades e novas existências elas testemunham? Como elas podem criar e recriar a cidade?

Entre percursos e imagens, percebemos que as diversas expressões das artes urbanas misturam-se nos muros e demais suportes gráficos da cidade, tornando a metrópole uma obra intersubjetiva sempre aberta, em movimento e em mutação – o que corrobora no próprio caráter da arte urbana: híbrida, caótica, fragmentada, efêmera. Apesar disso, essas diferentes expressões (como uma “tag”, uma palavra de ordem de um movimento político ou uma declaração de amor, por exemplo) possuem funções, objetivos e lógicas comunicacionais diferentes, ressalta Campos (2010).

Diante da profusão de expressões da arte urbana que se situam entre o legível e o indiscernível, o autorizado e o ilegal, o legitimado como arte e o condenado como vandalismo, percebemos a contradição entre os discursos que justificam, capturam e institucionalizam a arte urbana como algo a embelezar e promover a habitabilidade da cidade, e aqueles que promovem uma guerra ao que é tido como sujeira, vandalismo e ataque à propriedade. A efemeridade, uma das marcas da arte urbana, marca mais fortemente aquilo que, nos discursos hegemônicos e oficiais, não é considerado arte, mas vandalismo. Essas inquietações remetem a discussões em curso no tocante às relações entre as configurações do poder na contemporaneidade, os modos de subjetivação capitalística e a arte, bem como a discussões relativas às tensões, contradições e negociações legal-ilegal na arte urbana. Não existe uma fronteira clara e impermeável entre o que seria arte urbana e o que seria vandalismo, pelo contrário, esses entendimentos são altamente porosos, e os sujeitos pixadores e os sujeitos artistas urbanos constantemente passeiam entre tais práticas. No entanto, não podemos deixar de atentar para a criminalização de algumas práticas e a institucionalização de outras, em que nisso pese ainda o poder das imagens e discursos oficiais e hegemônicos (como a mídia institucionalizada). Não nos interessa discutir o que é ou não arte, mas, talvez, o que podem as intervenções gráficas no espaço urbano.

A efemeridade das intervenções gráficas urbanas, sobretudo aquelas que, em geral, não estão resguardadas pelo estatuto de arte, nos fala sobre a própria transitoriedade e imprevisibilidade do que é urbano. Por outro lado, evidencia-se o incômodo e a perturbação que essas falas anônimas dos muros, simultaneamente “de ninguém” e “da cidade”, confrontando a lógica capitalista de privatização e comercialização de todo e qualquer espaço urbano enquanto também erguem-se apesar e contra as opressões, podem suscitar. Essa é uma das grandes potências das intervenções gráficas urbanas.

A potência política das intervenções gráficas urbanas emerge na combinação entre mensagem, transgressão e o espaço onde elas impõem sua presença e reverberam: a rua. Nesse vetor molecular, micropolítico, podem surgir novos agenciamentos a redesenhar o espaço e acionar outras formas de existir na cidade. As intervenções gráficas urbanas funcionam como um “convite à participação ao passante, ao morador, ao citadino, mesmo que seja exercido apenas por via do exercício do olhar, entre as múltiplas visualidades” (DIÓGENES, CAMPOS e ECKERT, 2016, p.14). As paredes-textos, de algum modo, provocam e convocam os olhares e corpos deambulatórios, que flanam pelas paisagens urbanas.

Tanto para quem as produz quanto para quem as acessa (que, nesse caso, não raro confundem-se), as intervenções gráficas urbanas envolvem uma experiência específica de cidade que privilegia o transeunte. Pelo e para o praticante ordinário da cidade, essas imagens, em alguma medida, contradizem e subvertem as prescrições normativas e disciplinadoras do espaço, contornam os dispositivos de vigilância, desmancham enquadramentos e reorganizam deslocamentos (ROCHA e ECKERT, 2016). Na esteira de Certeau (1998), entendemos que as relações entre as práticas do habitante ordinário da cidade, o caminhar e as intervenções gráficas urbanas, moldam espaços e tecem lugares.

As intervenções gráficas urbanas, como narrativas na, da e sobre a cidade e os citadinos, podem consistir, portanto, em um tipo de apropriação dos espaços da cidade que a desenha e redesenha continuamente, de forma que, “mais do que um modo de interação de expressão de ‘sentimentos de cidade’, constituem-se como maneiras de produzir cidade” (DIÓGENES, 2015, p.689). Como imagens de existência e resistência na cidade, as intervenções gráficas urbanas imprimem-se na materialidade urbana camada por camada, dando voz e visibilidade aos desejos de liberdade, de vida, de criação, de potência. Em suas aparentemente mínimas desestabilizações da ordem dominante, não somente operam cortes no cotidiano, transgridem e subvertem as práticas e sentidos do espaço público urbano e escancaram opressões, utilizando-se da visualidade enquanto recurso político, como, ao escapar e fazer frente às opressões de nossos tempos, também assumem a potência de invenção de modos de existência, de territórios existenciais sensíveis, de sensibilidades estéticas livres. Em suma, de invenção de narrativas, cidades e existências possíveis.

Referências Bibliográficas

BRISSAC, N. Paisagens Urbanas. São Paulo: Senac, 2004.
CAIAFA, J. Aventura das Cidades: ensaios e etnografias. Rio de Janeiro: FGV, 2007.
CAMPOS, R. Por que pintamos a cidade? Uma abordagem etnográfica do graffiti urbano. Lisboa: Fim de Século, 2010.
CERTEAU, M. A invenção do cotidiano: artes de fazer. vol.1. Petrópolis: Editora Vozes, 1998.
DIÓGENES, G. Artes e intervenções urbanas entre esferas materiais e digitais: tensões legal-ilegal. Análise Social, Lisboa, 217, 2015.
DIÓGENES, G.; CAMPOS, R.; ECKERT, C. As cidades e as artes de rua (apresentação). Revista de Ciências Sociais, Fortaleza, v.47, n.1, jan/jun, 2016.
FOUCAULT, M. História da Sexualidade I: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1988.
ROCHA, A. L. C.; ECKERT, C. Arte de rua, estética urbana: relato de uma experiência sensível em metrópole contemporânea. Revista de Ciências Sociais, Fortaleza, v.47, n.1, jan/jun, 2016.
SILVA, A. Imaginários Urbanos. São Paulo: Perspectiva, 2011.




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* Dote
Instituto de Cultura e Arte da Universidade Federal do Ceará (ICA/UFC). Fortaleza, Brasil

* Lemos
Instituto de Cultura e Arte da Universidade Federal do Ceará (ICA/UFC). Fortaleza, Brasil