Sem disjunções cultura/natureza, corpo/saberes, arte/vida, conjugando cosmos/corpo/cultura em viveres sob tradição viva (Hampâté Bâ), o mundo de povos africanos não foi cartesianamente fatiado: o universo regido por “forças minerais, vegetais, animais, humanas, em perpétuo movimento”, é “visível e sentido como sinal, concretização, envoltório de universo invisível”.
Em imaginário de unidade cósmica “visível e sentido”, corpos negros em vir a ser corpos comunitários, configuram arquivo vivo (Diagne), de memórias em corpo cultivado como “transdutor de códigos” (Gil), transmitindo performances em “atos vitais de transferência”(Taylor) , encenando dramas do saber em “lógica oral” (Diagne). Pesquisando tradições orais reinventadas por cantadores africanos no Nordeste do Brasil – parte impressa em literatura oral de folhetos, como Rabicho da Geralda (1792) e ABC de Lucas de Feira (XIX) – em suas performances, códigos simbólicos e epistêmicos apreendemos corpo/saber de africanos, como rastros de suas silenciadas histórias em diásporas. Abrindo tempos modernos, europeus venderam/usaram corpos negros escravizados no subsolo da acumulação do sistema capitalista da civilização ocidental.
Em narrativas cósmicas e configurações de metáforas visuais de corpos negros em performances ou perfis de corpos de animais, apreendendo regimes de energia e simbologia de corpos em sabedoria oral africana, emerge a relevância do corpo em suas culturas, como o potencial usufruído por europeus. Representações de seus corpos ainda hoje abordam “a inviabilidade de conceber o corpo africano sem sua comunidade”, em “fisiologia cósmica na qual cada corpo é apenas fração de um conjunto” e onde “Toda espiritualidade e todo saber são elementos físicos daquilo que se é.” (Monga) .
Daí Monga levantar questão crucial: “A escravidão era, porém, bem mais que um comércio. Representava um debate sobre o corpo, isto é, sobre as relações ambíguas e às vezes conflituosas que o ser humano mantém consigo mesmo e com os outros, para o bem ou o mal”
O corpo era o alvo; um corpo vivido como corpo comunitário; que avesso à abstração penso, logo existo, sendo corpo ligado a um universo cultural conectara-se à “cadeia epistemológica”, pois “nossos sentidos não são somente ferramentas de registro, são órgãos de conhecimento,” segundo Zumthor , estudioso de oralidades medievais, de África e Nordeste do Brasil.
Destaca-se distância do Ocidente em relação ao corpo, pela dicotomia corpo e razão aberta por Descartes (1623). Todo um sentido de corpo ficou apartado do conhecer e, relegado ao efêmero, ao pecado, inferiorizado na hierarquia de saberes e poderes tornou-se descartável, em século em que europeus usaram, em larga e massiva escala, corpos de africanos e de povos americanos sobreviventes da conquista.
Em estudos culturais, performances studies, teoria crítica decolonial, abordando auto-representações africanas e enfrentando o “poder do arquivo” por “La existência de amplias redes de comunicación entre los escravos” no Novo Mundo (Trouillot) , torna-se evidente que culturas orais não se caracterizam por ausência da letra; marcam onipresença de corpos comunitários.
Expressando em infralíngua gestual o “inverbalizável” (Gil), em circuitos orais de comunicação entre África e áreas de culturas negras no Novo Mundo, pontuando sentirpensar (Mignolo) de povos africanos em regimes de oralidade, questiona-se o incorpóreo e abstrações de sistemas de pensamento alheios a pensares de rastro/resíduos descontínuos, intervalares (Glissant) , enunciando os que ficaram à margem de histórias universais, em epistemologias do sul (Santos e Menezes).
Abordagens produzidas desde teoria crítica, trabalhando com os autores:
HAMPÂTÉ BÂ. Tradição viva, In: História geral da África, Vol. II, São Paulo: Ática/UNESCO, 1982.
DIAGNE, Mamousse. Critique de la raison orale, Paris: Karthala, 2005.
GIL, José. Metamorfoses do corpo, Lisboa: Relógio d`Água, 1997.
TAYLOR, D. El archivo y el repertorio: la memória cultural performática en las Américas, Santiago do Chile: Ediciones Universidad Alberto Hurtado, 2015.
MONGA, Celestin. Nihilismo e Negritude, São Paulo: Martins Fontes, 2011.
ZUMTHOR, P. Performance, recepção, leitura, São Paulo: Cosak & Naify, 2007, pp. 79/81.
TROUILLOT, Michel-Rolph. Silenciando el passado, Granada: Comares Historia Editorial, 2017, p 88.
MIGNOLO, Walter. Desobediencia epistêmica, Buenos Aires: Ediciones del Signo, 2010.
GLISSANT, E. Introdução à poética da diversidade, Juiz de Fora, EDUFJF, 2005.
SANTOS, B. S. e MENEZES, M. P. Epistemologias do Sul, Coimbra: Edições Almedina, 2009.