O presente estudo aborda uma teorização moderna sobre “sociedade civil”, suas nuances e aspectos centrais, com a ideia de liberdade individual e organização coletiva da sociedade, sob a égide do Estado, com observações a partir da tradição filosófica considerada contratualista e aborda a maturidade da dialética e do materialismo histórico na apreensão da categoria sociedade civil, a partir do pensamento de Hegel e da crítica de Marx, cuja centralidade da análise desenvolve-se em torno dos princípios da liberdade e da emancipação, diante do conceito de sociedade civil na sociabilidade burguesa.
O pensamento marxiano, traz à modernidade filosófica um corte emblemático sobre as relações sociais, e o pensamento que se construía entre seus contemporâneos. Marx, embora em sua juventude tenha bebido das teorias filosóficas e da dialética hegeliana, distancia-se e destaca-se entre os teóricos da modernidade, por aprofundar seu método de investigação, a partir do apanhado de todas as dimensões da vida social, considerando a economia, a política, a religião e todos os campos da vida social como um conjunto orgânico que move a vida na sociabilidade burguesa.
A riqueza do seu pensamento reside em não limitar o estudo da “coisa” nela mesma, ou seja, não se pode compreender a sociedade civil apenas atentando-se para sua composição interna, é preciso perceber o seu movimento partindo das relações que a estabelece, que a forja e a sustenta nos marcos da economia política
Apesar do filósofo alemão não ter desenvolvido qualquer tratado sobre a sociedade civil, assim como não o fez acerca do Estado, a ferramenta do método materialista, por ele utilizada, possibilita uma leitura mais profunda da categoria. Nas análises postas, um aspecto parece-me central e merecedor de notas. Trata-se da relação de realização que se estabelece na sociedade civil entre o “universal e o particular”, e dela subjaz as teorias de sobre o Estado e o papel das instituições na vida social.
As reflexões de Marx sobre a sociedade civil e o Estado, a partir da crítica ao pensamento de Hegel, é precedida por uma tradição de pensadores considerados “contratualistas” (Tomas Hobbes (1588 – 1679) John Locke (1632 – 1704) e Jean-Jackes Rouseau (1712 – 1778)), para esses teóricos, o fundamento do Estado moderno, consequentemente dos direitos, das leis e forma de organização da sociedade se dá por meio do “contrato social” isso significa que o “homem” abre mão do seu estado natural, e atribui ao Estado o controle e a regulação das suas vidas.
Nessa trajetória, Hegel (1770 – 1831) estabelece um contraponto chave à tradição contratualista, para ele não é a sociedade civil que funda o Estado e sim o Estado que funda a sociedade civil e este é personificado pelo monarca, como soberano estatal; desse modo, o Estado seria situado na dimensão da universalidade, com a capacidade de determinar as singularidades dos sujeitos, nas particularidades da sociedade civil.
Assim, os sujeitos e a sociedade civil seriam o momento de síntese (involuntariamente, estabelecendo-se uma relação unidimensional em que o sujeito e a sociedade civil eram pautados ou determinados pelo Estado) do Estado, já a “família e sociedade civil são produzidos pela ideia de Estado, engendrados por ela. O verdadeiro sujeito torna-se predicado do predicado.” (MARX, 2013, p. 14)
Nesse sentido, Marx (2013) se contrapõe ao pensamento de Hegel e incorpora o elemento da economia ao conjunto dessa relação entre sociedade civil e Estado, e para ele a “sociedade civil” funda o Estado, contudo esta sociedade civil é compreendida pelo autor como “o conjunto das relações econômicas”, esse perfil que Marx destaca como sendo base da sociedade civil, e confere-lhe uma maturidade e possibilidade de articulação entre todas as dimensões da vida.
Ressalta-se que esse momento da sociedade civil, enquanto espaço da socialização da vida, de outrora desperta interesse de análises, de idealizações - do devir -, e de construção de sínteses. É nessa seara que se sobressaem os aspectos relacionados às liberdades, à relação individual/coletivo, privado/público, que, por sua vez são temas caríssimos às teorias sociais modernas como o marxismo.
Entretanto, apensa vale debruçar-se sobre esse constructo histórico, teórico-filosófico, se se tem como norte a construção emancipatória nos próximos marcos da história humana.