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Resumen de ponencia
Crime, remissão e obediência: uma análise do processo de rupturas num centro de recuperação pentecostal no Rio de Janeiro

*Beatriz Brandão



Em um Centro de Recuperação (CR) pentecostal para usuários de drogas, hóspedes e dirigentes promovem e agenciam um diálogo entre drogas, crime e fé. Trata-se de um Centro de Recuperação masculino, de linhagem pentecostal, que recebe e acomoda cerca de 400 homens, todos ex usuários de drogas e provenientes do tráfico. Ex usuários e ex traficantes se encontram no mesmo lugar, engajados na mesma crença, e gerem suas condutas e a dos outros por meio dos ritos, dogmas e doutrinas a que devem se converter. Tal transformação ocorre por meio da chamada conversão, que deve ser comprovada por meio da aceitação e vivência de um código de moralidades e linguagens específicas. Dentro desse cenário, o artigo tem como objetivo compreender, por meio do método etnográfico, de que modo o CR tenta transformar seu trabalho em relevante e como se reinventa diante de outros modelos de tratamento já estabelecidos, como lida com os conceitos de recuperação e ressocialização e qual o lugar do CR nos novos ordenamentos daquelas vidas; como se expressa a conversão em sua prática, principalmente nos momentos ritualísticos demonstrativos maiores não só de recuperação, mas de fé e transformação.
Para institucionalizá-las, a autogestão é a forma de governo e gerenciamento do CR e que vai ser responsável e dinamizar as relações, o cotidiano e as produções de rotina e obediência do espaço, é essencial por isso, pois se constitui numa categoria para o entendimento das práticas internas. Da mesma forma, encontram-se os ritos nessa condução narrativa e de compreensão etnográfica. Na inspiração nos ritos de passagem de Van Gennep (2011) e nos rituais como drama social de Turner (2008), esses conceitos dão as costuras da pesquisa, já que são os ritos que mostram as continuidades e descontinuidades nas trajetórias e no que significa o modelo pentecostal de tratamento, completamente ancorado em rituais de culto, oração e música.
Essas questões nos apresentam um desenho novo de métodos de tratamento, do crescente número de Centros de Recuperação pentecostais - legais e extra legais. Nos perguntamos qual é seu lugar e sua importância na construção política e social e como eles dialogam política e socialmente. Para tal, é preciso entender de que forma a representatividade política evangélica ganha espaço e legitimação para a intervenção em diversas áreas importantes, como no caso aqui posto: a política de drogas. Nessa esfera, se avoluma o número e aparecimento de pessoas tratadas e curadas. Em detrimento dos CAPs AD – que responde a um modelo mais centrado na Redução de Danos (RD) e de cunho antiproibicionista – surgem inúmeras Comunidades Terapêuticas (CTs). Dessas, não há como se ignorar o fato de serem, em sua maioria, de vertente pentecostal.
Nessa trama, existe a relação que o pentecostalismo desenvolve com a droga, com o crime, como entra e dialoga com os significados da reconstrução do si, através de um aparato e discurso religioso e eminentemente político. A apresentação dessa dimensão sociopolítica do macro abre para um aspecto mais micro, que liga todos os pontos entre hóspedes, dirigentes e gerenciamento do espaço. Nos relatos, trajetos, tramas, vivências e produção de subjetividades, reveladas na relação constante entre o espaço e o interno, pode-se ver esse tracejar do drama social nos ritos de passagem. A entrada no Centro de Recuperação se constitui no primeiro rito, de ruptura com o que já vivera. A crise e sua intensificação abrem espaço para a ação reparadora, que vem nos moldes da conversão, com seu poder reparador frente aos erros do passado. A ruptura é preenchida pela mudança da carreira moral. E o desfecho desse processo ritual é o momento esperado da saída com sua expectativa do recuperar-se.
Sendo um território religioso, acima de tudo, os simbolismos e os rituais se mostravam em evidência, a externalidade do ato em forma de rito indicava a mudança e recomposição de si, visto, por exemplo, no jejum, nas orações ou nas devocionais. Esses, rituais por excelência da igreja, cuja externalidade tenta evidenciar algo interno, tenta dar credibilidade a uma mudança de rumo na trajetória. Como, por meio de processos ritualísticos, eles passam a credibilidade da passagem por uma limpeza moral? Como seriam eles a comprovação externa e corporificada da fé? Nesse sentido, é importante destacar que entender o “como” se torna mais importante do que a compreensão dos “porquês”.
Portanto, após uma inserção etnográfica, o artigo apresentará resultados que apresentem o lugar político dos CRs, como conceituam e viabilizam os processos de recuperar e ressocializar e de que modo essas questões se dão e se evidenciam no cotidiano, a partir de seus rituais.




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* Brandão
Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ. Rio de Janeiro, Brasil