O confronto de estratégias entre o poder constituído e a resistência em nível da linguagem é aqui analisado por meio da luta das mulheres negras no campo do feminismo, que se distingue pela busca do empoderamento com a priorização de termos e conceitos que representam as especificidades da mulher negra. No bojo do projeto de pesquisa Revisitando o Tesauro para Estudos de Gênero e sobre Mulheres (TEG) tomamos por referencial empírico um instrumento terminológico construído por feministas brasileiras, no final da década de 90 do século XX, coordenado e apresentado pela pesquisadora da Fundação Carlos Chagas, Cristina Bruschini em 1998. Os Tesauros são instrumentos de controle terminológico em campos específicos do conhecimento. Instrumentos terminológicos, para além da sua função de representação e organização de uma especialidade de conhecimento, são aqui apresentados como um referencial para a identificação de práticas identitárias no momento em que se constituem como terminologias.
Pesquisas no campo da linguagem e práticas identitárias apontam para a linguagem ou discurso como formadores da sociedade, uma vez que os processos identitários estão imbricados nas práticas sociais. Nesta comunicação pretende-se analisar a prática social como formadora de identidades, tendo como foco a prática social de linguagem como mediadora da ação social humana, e a construção de terminologias como instrumento desta prática.
Na década de 90, o Tesauro para Estudos de Gênero e sobre Mulheres se propunha a ser o instrumento síntese de uma epistemologia crítica feminista. No Brasil, evidenciavam-se os primeiros indícios da existência de uma postura crítica no âmbito de algumas instituições de conhecimento, principalmente relacionada à visão feminista do conhecimento. Poderia- se falar então em uma epistemologia crítica e feminista, e o TEG se propunha a representar e organizar este conhecimento.
Identificam como características da crítica feminista a posição que consiste em não aceitar totalidades universais ou balizas fixas. Tal posicionamento busca historicizar os conceitos com os quais se trabalha, tais como os de feminino, reprodução, família, público, particular, cidadania, sociabilidades a fim de transcender definições estáticas e valores culturais herdados como inerentes a uma natureza feminina.
Estas condições, no entanto, não foram estritamente observadas na construção do primeiro Tesauro de Estudos de Gênero e da Mulher no Brasil, que mesmo assumindo um discurso feminista, evidencia que o mesmo é hegemônico e mantém no esquecimento, a herança cruel que coube às mulheres negras no Brasil.
Os legados da escravidão no Brasil em termos de dominação racial e de gênero e as desigualdades da sociedade pós-abolição conduziram a experiências sociais diferentes para mulheres negras e brancas e o instrumento terminológico construído neste processo evidencia a representação de um feminismo hegemônico, de classe média e branca, gestado no meio acadêmico, que compartilha um conceito de feminino como uma ideia universal sem explicitar qualquer conflito, ou a diversidade da práxis feminista no Brasil.
Ao reconhecer essas diferenças, as mulheres negras no movimento feminista passaram a desafiar noções generalizadas da opressão de mulheres que não levavam em conta a relação entre ideologia patriarcal e racismo; e a noção de que o racismo é um fenômeno Individual, e não um fenômeno estrutural.
No Brasil, a tensão das mulheres negras com o movimento feminista “hegemônico” se estabeleceu a partir do III Encontro Feminista Latino-americano ocorrido em Bertioga em 1985, quando surgem os primeiros Coletivos de Mulheres Negras, época em que aconteceram alguns Encontros Estaduais e Nacionais de Mulheres Negras. Conforme relato de Caldwel (2000), como resultado destes encontros a elaboração de um manifesto chamou a atenção para as especificidades das experiências de vida, das representações e das identidades sociais das mulheres negras uma vez que a maioria dos estudos feministas brasileiros não reconheceu a importância da raça e das diferenças raciais na constituição do gênero e das identidades das mulheres. Caldwel (2000) elegeu como marco da resistência a participação de mulheres negras durante o Congresso de Mulheres Brasileiras em junho de 1975 quando foi lançado o manifesto das Mulheres Negras.
Esta resistência do feminismo negro deu visibilidade à ausência, nos estudos de gênero e da mulher desenvolvidos no Brasil nas décadas de 80 e 90 do século XX, da questão raça e gênero. Foucault, em vários momentos da sua trajetória, destaca sua noção de formação do sujeito, criando-se uma base teórica na análise das relações de poder que se estabelecem no âmbito das relações de gênero e da afirmação das sexualidades. O filósofo francês aponta que a compreensão de uma nova economia das relações de poder consiste em vislumbrar a conexão entre as formas de resistência aos diferentes tipos de poder evidenciadas em suas manifestações, e nos conflitos poder/resistência.
Esse confronto de estratégias entre o poder e a resistência pode encontrar-se nas relações entre minorias, tais como a luta das mulheres negras no campo do feminismo e que se distingue pela busca do empoderamento no reconhecimento de um feminismo negro.
Como constatações do trabalho desenvolvido, que foi precedido de um panorama temporal sobre o feminismo e gênero do final dos anos 80 até a década de 90 do sec. XX, período este identificado como terceira onda do feminismo, são apresentadas características da terceira onda, presentes na década de 90, a saber: desenvolvimento de um conceito liberal dentro do feminismo, o qual definia que a luta de gênero e pelas mulheres não é coletiva, não é pública e não é política, é algo individual.
Ilustrando esta bandeira do pessoal é político na elite do feminismo brasileiro, Zirbel (2007) relata que as organizadoras do material e integrantes do corpo de pesquisadoras da Fundação Carlos Chagas, Cristina Bruschini e Fúlvia Rosenberg, na Introdução ao livro Vivência, Historia, sexualidade e imagens femininas (1981), comentam sobre a prática de seu grupo, onde as vidas pessoais e cotidianas eram “trazidas à pauta” no intuito de estimular as reflexões (p.9): “éramos mulheres estudando mulheres ,pesquisadoras estudando mulheres, feministas estudando mulheres [...] por vezes escolhíamos integrar nas discussões a esfera do privado e do profissional”.
Para se ter uma dimensão da extensão desta visão na construção do TEG, podemos exemplificar registrando a frequência dos termos corpo/corpos, que aparecem 97 vezes entre as entradas do Tesauro, sendo que o termo cor inexiste neste vocabulário.
A partir da análise do TEG, constata-se que as autoras optaram por um arranjo do campo semântico dos estudos de gênero e da mulher que contradiz uma epistemologia crítica, reproduzindo alguns conceitos que não condizem com as mudanças na visão de mundo que o movimento feminista se propôs. Além disto, este vocabulário controlado não contempla o conceito de “Interseccionalidade”, que estuda as interações nas vidas das minorias, entre diversas estruturas de poder e serve como categoria de análise para estudar a condição não apenas da mulher, mas o fato de ser negra, ser LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgênero). O termo “lésbicas” foi relacionado a “amazonas” e imagens de mulher”, apontando para uma relação um tanto sem sentido. Além disso, foram encontrados poucos termos que representassem o protagonismo e empoderamento do feminismo negro.
Ademais, a análise do TEG apontou que a representação vinculada aos assuntos referentes à mulher e às questões de gênero indica que as abordagens que englobam a criação de um tesauro podem facilitar bem como dificultar a quebra de padrões de forma a permitir ou embarreirar a inserção de novos termos. Como salienta Barité (et al., 2010), há de se confirmar que instrumentos terminológicos como os tesauros se encontram norteados pelo padrão patriarcal comum à literatura produzida nos marcos epistemológicos dominantes e o TEG não fugiu à regra.