Neste trabalho tratamos sobre o campo semântico relativo aos sentidos/significados da palavra saúde na cosmologia dos Xikrín do Cateté, localizados no sudeste paraense, município de Parauapebas-PA, Brasil. Os Xikrín do Cateté têm sua saúde duramente afetada pelas ações da exploração mineral da Empresa Vale do Rio Doce. Nesse contexto, consideramos importante capturar as impressões dos Xikrín sobre a cosmologia que envolve o sentido/significado da palavra saúde para pensar e dialogar sobre questões relativas aos determinantes sociais que influenciam os processos de saúde e doença desse povo, bem como suas dinâmicas territoriais.
O roteiro metodológico foi desenvolvido levando em consideração os ciclos de vida de homens e mulheres, bem como seus rituais de passagem e as seguintes perguntas orientadoras: O que é saúde? O que é doença? Essas perguntas foram feitas a homens, mulheres e crianças Xikrín durante uma oficina que teve o desenho e o diálogo como estratégias de mediação no processo de apreensão do significado/sentido da saúde em sua cosmologia. Além da oficina, estratégias etnográficas como registro audiovisual, entrevistas, observações e conversas informais com agentes sociais foram utilizadas.
Como resultado obtivemos três categorias linguísticas em sua língua materna, mei, punu e kanê, classificadas como nomes de qualidade na língua Xikrín do Cateté (cf. COSTA, 2015). O termo mei, que pode ser traduzido como ‘estar.bem’, representa o pleno bem-estar psíquico, físico, e social do indivíduo Xikrín, ao passo que o nome punu, traduzido por ‘ruim’, ‘mal’, ‘mau’, é um termo geral para designar um estado ruim, ligado ao aspecto físico, psicológico e social do sujeito. E kanê designa o indivíduo desprovido do bem-estar, isto é, afetado por alguma doença, o que pode representar um perigo a sua vida. Punu, trata-se de uma extensão semântica que envolve diferentes contextos das relações internas entre eles mesmos, entre eles e os não-indígena e entre os Xikrín e a natureza.
Para compreendermos melhor os signos representativos do bem-estar/mal-estar na cosmologia Xikrín, nos fundamentamos em Giannini (1991), Cohn (2000), e sobretudo nas narrativas orais dos Xikrín do Cateté. Compreender o que é saúde e doença na perspectiva do povo Xikrín implica não apenas um processo biológico que acomete o corpo, mas acima de tudo, envolve a cosmovisão desse povo desde à noção de pessoa Xikrín. Giannini (1991, p.154) relata que “a pessoa Xikrín se constitui de elementos corporais internos e externos (a pele), elementos imateriais (a alma e a energia vital) e elementos sociais associados aos ciclos de vida”. A relação harmônica desses elementos, para os Xikrín, é fundamental na manutenção de seu bem-estar físico, psíquico e social. Assim, os cuidados com os elementos internos e externos garantem o equilíbrio tanto individual quanto da coletividade.
Relatos de narrativas orais dos Xikrín do Cateté mostram que a desarmonia entre esses três elementos afeta as práticas socioculturais cotidianas do povo. Pois quando alguém da aldeia está com kanêtỳi (doença grave), não pode caçar e os parentes consanguíneos devem ficar de resguardo, sob pena do mẽkarõ (espírito dos mortos) levar a alma do doente, ou seja, morrer. O karõ (alma ou espírito) representa o principal elemento constitutivo do ser Xikrín, pois ele é o responsável pela vitalidade do ser. Daí a grande preocupação dos Xikrín com relação aos mẽkarõ levarem o karõ dos vivos em determinados contextos socioculturais, tais como: 1. Cuidados com recém-nascidos: não deixar chorar e nem cair, se não o karõ sai do corpo e mẽkarõ o leva; 2. Doenças causadas por animais: coceiras (miômiôp) ou picadas, a pessoa não pode tomar água porque aumenta a dor. No estágio de doença, os Xikrín não podem comer certos tipos de comidas, como caça, por exemplo: jabuti, pois pode ficar com as juntas inchadas. Outra relação ligada a doenças causadas por animais, está ligada ao olhar fixamente para algum animal, principalmente quando criança, pois ele pode transmitir doenças; 3. Nos rituais: os mẽkarõ gostam de estar presentes nos rituais, por isso, o pajé e os demais da aldeia colocam uma pena de gavião na porta de casa para afasta-los, uma vez que os mesmos têm medo de gavião. No geral, independentemente do tipo ou causa da doença, os Xikrín não podem se pintar nesse período.
Mei e kanê imbricam uma série de relações representativas dos saberes Xikrín em seu território, na relação com a natureza e com os outros (indígenas e não indígenas), nos possibilitando entender melhor os saberes desse povo e a cosmologia que os envolve levando em conta a linguagem e as relações com a experiência e o ambiente que os cerca. O campo semântico mei e kanê, produto de ontologias próprias indígenas, correlacionam-se com os conceitos saúde e doença numa perspectiva transversal, refletindo suas dimensões individuais e sociais. Neste contexto, a saúde é mais que uma categoria, ela reflete a cosmologia Xikrín em suas possiblidades de uso da terra, soberania alimentar e preservação da sua cultura. O uso indevido do território indígena por agentes econômicos, como a Vale (mineradora multinacional brasileira), que tem poluído o rio Cateté com produtos químicos oriundos de atividades extrativas produz intensas transformações nas dinâmicas territoriais e na cosmologia dos Xikrín, afetando suas práticas cotidianas de agricultura, pesca e lazer, gerando doenças e agravos relacionados às atividades da mineradora.