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Resumen de ponencia
Por outros modos de luta: indissociabilidade entre macropolítica e micropolítica

*Filipe Asth



O presente trabalho pretende percorrer alguns meandros da constituição de modos contemporâneos de luta e colocar em análise o quanto alguns desses modos têm servido como mecanismos eficazes de controle biopolítico através de capturas pela dita participação democrática. Nesta direção, o tema sobre o qual este trabalho se debruça gira em torno, sobretudo, da produção de subjetividades que constitui as modulações contemporâneas dessa dita participação, especialmente no que se refere à produção do desejo por mais leis e punições como elemento fundamental para a constituição das técnicas de poder e de governo. Assim, os mecanismos de captura presentes no contemporâneo, nos auxiliam a observar como um certo campo de lutas tem se tornado “reativo, judicializado e identitário” (Augusto, p. 69, 2016), e no quanto não se percebe com isso que, ao nos tornarmos reativos, espelhamos aquilo que dizemos tentar combater. Ou seja, mesmo inseridos nas lutas que dizem estar contra as opressões, podemos também estar reproduzindo práticas microfascistas. No entanto, é preciso ressaltar que o fascismo a que me refiro não se trata do Fascismo como regime de um Estado Totalitário, que concentra suas forças em uma centralização molar do poder no Estado, ou seja, não se trata de uma concepção que se inscreve no âmbito da segmentaridade dura, na macropolítica de Hitler, Mussolini, ou para pensar no contexto atual brasileiro, do próprio Bolsonaro. Aponto aqui para os fascismos que se capilarizam em linhas fluidas e não operam por meio da centralização, mas no campo dos vetores de subjetivação singulares, no âmbito da micropolítica, em um poder que opera diretamente no micro, nas molecularidades, ou seja, nas nossas condutas, práticas, discursos, desejos, e assim nos atravessam em quaisquer relações: família, escola, casamento, trabalho, universidade, clínica e até mesmo nos próprios movimentos de resistência. Sim, inclusive nas militâncias, nos movimentos insurgentes, o que há de pulsante e revolucionário também pode estar sucumbindo às práticas microfascistas que se propagam e são cooptadas no cenário da biopolítica contemporânea. Por vezes observarmos até mesmo dentro do próprio movimento feminista, negro ou lgbt, por exemplo, ou nos enfrentamentos no campo do que se denomina esquerda, discursos e posturas microfascistas, conduzindo as lutas em nome de concepções totalitárias, universalizantes e inflexíveis. Nesses casos, o que parece prevalecer é a afirmação de um território, de um segmento específico, através da humilhação e opressão do outro, da alteridade, tido como uma ameaça para a estabilidade do grupo ao qual se pertence, ainda que se faça parte de uma minoria que resiste. O microfascismo se faz presente desta forma na negação das diferenças em um movimento no qual o microfascista precisa negar o outro para afirmar a “si mesmo”. Existe uma máquina social capitalista que produz e se retroalimenta de discursos fascistas que operam inclusive dentro dos movimentos considerados disruptivos. A produção desses discursos alimenta um sistema que sobrevive por meio da dominação, do controle, da exclusão em nome da afirmação de um modelo pautado em um princípio moral e hierárquico. Estas posturas devem ser combatidas com enfrentamentos que atuem nos limiares, nos campos de força, nos vetores, sempre se pautando na prudência para que o embate não alimente linhas de destruição em vez de linhas de fuga. Apostar na multiplicidade dos modos de existir é não criar lógicas de falta, de negação, de unificação, dicotomias, universalização em torno de uma verdade única: a esquerda mais legítima, a militância mais coerente, o partido mais engajado. Qualquer prática e discurso que não atue para a intensificação da potência dos devires precisa ser repensada. A resistência que não atuar para a produção de vidas plurais, intensivas, potentes e ativas precisa ser deslocada, desterritorializada. É preciso operar por processos que nos façam perceber que movimentos estamos ativando com nossos discursos e práticas. Então“que perspectivas de emancipação serão capazes de nos tirar do impasse atual? ”, indaga-nos Roque (2017). Para esta autora, se não enfrentarmos a disputa contra o capitalismo no terreno das subjetividades, continuaremos perdendo, mesmo questionando os supostos ideais de universalidade, igualdade e justiça. Há uma dificuldade em enxergar as dinâmicas que envolvem a produção de determinadas subjetividades e os diferentes processos de subjetivação que estão em jogo no capitalismo atual. Contudo, trata-se de tarefa fundamental para que se perceba que tipos de subjetividades estão sendo forjadas nesse processo e quais os mecanismos colocados para funcionar. Roque (2017) afirma deste modo que “calibrar as lentes e enxergar o problema na escala das subjetividades é um passo incontornável para qualquer projeto”. Por muitas vezes, as nossas estratégias de luta, se voltam para o que é da ordem da macropolítica, atuando apenas no âmbito do Estado ou ao que a ele é dirigido,sem se preocupar com a dimensão micropolítica das forças que nos atravessam e subjetivam. Assim, Rolnik (2016) chama a atenção para o fato de que, “por mais que se faça no plano macropolítico, dentro e fora do Estado, por mais agudas e brilhantes que sejam as idéias e as estratégias, por mais corajosas que sejam as ações, por menos autoritárias e corruptas que sejam e por mais êxito que tenham em estabelecer menos desigualdade econômica e social e expandir o direito à cidadania, elas resultam numa reacomodação da cartografia vigente se não se acompanham de um deslocamento no plano micropolítico” (p. 6-7). Não se trata aqui de traçar o caminho de uma defesa da dimensão micropolítica das lutas, tampouco de estabelecer uma hierarquia de importância entre elas, mas sim de se afirmar a indissociabilidade entre o que é micro e o que é macropolítico. Há na militância em geral, um desprezo com o que é da ordem micropolítica, com o que se constitui no campo do desejo, mas principalmente uma grave desantenção com relação às capilarizações do Estado violento que eventualmente nos habita. Essa lógica que privilegia a perspectiva macropolítica, responsável pelo endurecimento das lutas, nos subjetiva a todos. Acreditemos, todos nós somos, já fomos um dia ou poderemos ser microfascistas em nossas vidas. Que esse alerta não seja encarado apenas como uma crítica a um certo modo de funcionamento das lutas, mas principalmente como uma forma de incomodar, de desacomodar, e principalmente como forma de provocar a perceber as linhas que nos atravessam, que compõem os nossos atos e discursos e nos auxiliem a montar possibilidades de resistência aos microfascismos que incidem e insistem em brotar no interior da revolução, no cotidiano das lutas. O que se afirma aqui então é que as transformações do cotidiano não ocorrem apenas no âmbito macropolítico, econômico ou social, mas que põem em funcionamento especialmente as máquinas de produção de subjetividades contemporâneas. Porém, essas subjetividades são assumidas de diferentes formas que, segundo Miranda (2000), varia entre dois pólos: “de um lado, a sujeição em relação às instituições produtoras de subjetividade: família, Estado, trabalho, mídia, marcada pela conformidade, pela reprodução do idêntico, o achatamento da heterogeneidade, das diferenças, enfim pela massificação do cotidiano, sinalizando uma produção de subjetividade assujeitada; por outro lado, a criação de novos processos múltiplos e heterogêneos, que engendram relações livres e criativas, onde os indivíduos e grupos assumem suas existências de modo singular, criando outros valores, novas formas de pensar e de agir, viabilizando a produção de subjetivação singularizadas. São formas paralelas e concomitantes, que podem lutar no interior de um indivíduo, grupo ou momento histórico” (p. 41). Para Rolnik (2016, p. 13), “o que faz a diferença é nos dispormos a combater as tendências reativas em nós mesmos, ou seja, em nossas ações e relações”, possibilitando dessa forma a construção de uma espécie de artista de nossa própria vida, mas que “não almeja a liberdade ou a alegria enquanto estados a se chegar, e sim como concernentes a essa própria “atividade artesã” da aventura de estar se fazendo a cada instante” (Souza, p. 223, 2016), negando assim qualquer forma de assujeitamento. Neste sentido, a proposta dessa análise não está apenas atravessada pela predominância das paixões tristes que tentam se impor na atualidade. Ela também se dá por um corpo que vibra de coragem por tantas lutas ainda possíveis e vibra de alegria ao perceber muitos dispostos a caminhar juntos, reinventando cotidianamente as formas de resistência, nos reinventando nesse percurso, (re)existindo.

Referência Bibliográfica

AUGUSTO, Acácio. Mais além do “contra o golpe”: subsídios para uma analítica do campo de luta. Revista Ecopolítica, São Paulo, n. 15, mai-ago, pp. 56-36, 2016.
MIRANDA, Luciana L. Subjetividade: a (des)construção de um conceito. In: SOUZA, Solange J. e (org.). Subjetividade em questão: a infância como crítica da cultura.Rio de Janeiro: 7 Letras, p. 29 – 46, 2000.
ROLNIK, Suely. A hora da micropolítica. São Paulo: Editora N-1, Col. Pandemia, 2016.
ROQUE, Tatiana. Subjetividades no ponto cego da esquerda. Le Monde Diplomatique. Fevereiro3, 2017. Consultado em 18/04/2018 em http://diplomatique.org.br/subjetividades-no-ponto-cego-da-esquerda/
SOUZA, Alice De Marchi Pereira de. Modulações militantes por uma vida não fascista. (Tese de Doutorado). UERJ, 2016.




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* Asth
Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas e Formação Humana. Universidade do Estado do Rio de Janeiro - PPFH/UERJ. Maracanã. Rio de Janeiro, Brasil