As Relações Internacionais (RI) estudam de maneira sistemática as relações políticas, econômicas e sociais entre diferentes países cujos reflexos transcendam as fronteiras de um Estado. Além dos profissionais da área de RI, que auxiliam nas questões transfronteiriças, há os profissionais que trabalham nos órgãos oficiais dos países, como o Ministério das Relações Exteriores (MRE), no Brasil. Muito é estudado sobre a diplomacia e as relações diplomáticas, sempre permeado pelas representações oficiais dos profissionais que atuam nesta área. Este trabalho vem a completar um vácuo percebido nesses estudos, focando nos indivíduos que atuam como diplomatas, a partir dos processos de tradução cultural a que são inevitavelmente submetidos quando se deslocam para distintos países. Ao deslocar-se no espaço, identidades são confrontadas pelas novas e diferentes línguas e culturas que lhes são impostas na chegada. O objetivo é compreender as relações complexas que se estabelecem nos diplomatas e suas famílias que saem de suas casas (países) e levam suas almas para outros espaços que não lhes são, sempre, acolhedores.
O imaginário sobre a vida e a carreira diplomática é sempre muito glamoroso, poder viver em diferentes países, ter acesso a culturas das mais diversas, participar de reuniões de Estado e conhecer chefes de Estado. É um imaginário que tem bases de verdade. Primeiro, ao pensarmos que um dos mais concorridos e difíceis (ou o mais) concursos públicos realizados no Brasil é o da carreira diplomática, podemos vislumbrar o desejo de pertencer a um espaço muito restrito e, por isso, objeto de muito desejo. Além disso, o trabalho de um diplomata realmente proporciona realizações pessoais e profissionais: seja pela diversidade dos países em que os diplomatas cumprem suas missões, seja pelas características das missões – que, dependendo do país, podem ser para melhorar a exportação do seu país ou realizar uma ação humanitária –, seja pela possibilidade de conhecer pessoas que fazem diferença no mundo. Esses motivos, são objetos de estudos desde muito tempo e já bastante conhecidos.
Talvez a área de RI não esteja tão atenta aos indivíduos como seres humanos que fazem parte da carreira chamada diplomacia, que organiza as relações das diferentes nações do mundo, o foco nos estudos tem sido especialmente sobre os diplomatas como profissionais dentro dos órgãos de relações exteriores dos países. Esquecemo-nos do lado humano, dos desdobramentos nada glamorosos que as missões trazem aos profissionais da diplomacia e suas famílias, como os recentes casos de expulsão de diplomatas russos da Europa e dos Estados Unidos, que forçaram a Rússia a igualmente expulsar de seu território diplomatas europeus e estadunidenses. A causa das expulsões está na suspeita de que a Rússia está envolvida no envenenamento de um ex-espião de seu país e sua filha, na Inglaterra.
Ainda que este caso tenha acontecido há poucos meses, é certo que internacionalistas, historiadores e tantos outros estudiosos já estão pesquisando as consequências dessa quebra das relações diplomáticas entre a Rússia, alguns países europeus e os Estados Unidos, assim como a imprensa mundial cria hipóteses e teorias ao mesmo tempo em que noticia as informações do caso.
Este trabalho é o recorte de um projeto que tem o interesse em investigar como acontecem os deslocamentos identitário-culturais dos diplomatas em suas missões, bem como compreender como se traduzem culturalmente neste processo. O recorte proposto tem como objetivo demonstrar que assim como os pesquisadores, a imprensa está interessada em noticiar as consequências geopolíticas e econômicas deste caso para os países envolvidos em expulsões de diplomatas. Há um silêncio em relação aos seres humanos que se tornam persona non grata nos países em que cumpriam suas missões e para os quais provavelmente nunca poderão voltar. Não há, na imprensa, a curiosidade em saber como essas pessoas lidam com a rejeição oficial, relacionada ao seu país, mais que ao próprio indivíduo, especialmente quando a expulsão não vê o indivíduo, mas um representante de um outro país que passa a não ser mais bem-vindo. Ainda que o diplomata saiba que sua exclusão de determinado país tenha a ver com o seu cargo, é um indivíduo que criou laços com a sociedade em que realizava sua missão, hibridizou-se linguística e culturalmente com o país em que vivia e tem, agora, suas dores invisíveis aos olhos do mundo, porque ao ser expulso, ele se sente no entre-lugar que o coloca entre a lealdade ao seu país e a traição à vida e aos amigos que criou no país de onde foi expulso.
Para tratar destas relações complexas é necessário partir de alguns embasamentos teóricos inter, multi e transdisciplinares. Utilizaremos a linguagem, a partir das perspectivas de Bakhtin e Ricoeur, área que trata de traduzir a linguagem com o objetivo de compreender o ser humano, preocupando-se com a sociedade, bem como pressupostos teóricos das áreas que compõem os chamados estudos culturais, como história, antropologia, sociologia, por exemplo, por meio dos estudos de Bhabha, Burke, Freud, Boas, Hall, Woodward e outros.