Tomando como referência canções do grupo Racionais MC’s, que tematizam a realidade social do jovem negro brasileiro, pretende-se evidenciar como algumas contradições sociais e culturais emergem em seu trabalho artístico. Por meio de análise destas canções, sugere-se uma inflexão na formação de uma identidade cultural que permeia as temáticas e o universo artístico criado pelo grupo. Este resumo refere-se aos resultados, obtidos até então, à atividade de conclusão do curso de Ciências Sociais.
A hipótese aponta na formação identitária e cultural perceptível nas canções por meio de alguns elementos específicos de certa realidade social e de determinado estilo de vida, ou habitus (BOURDIEU. 2011), uma vez que o rap é referência para jovens do mundo todo desde o fim dos anos 1980 até os dias de hoje.
A escolha do grupo Racionais Mc’s não é ingênua; além de ressaltar novas formas de pensar a cultura negra e as condições de existência população negra no Brasil, há um comprometimento dos integrantes com os temas emergentes desta juventude apresentando uma postura combativa aos valores sociais e culturais (re)produzidos pela cultura hegemônica (GRAMISCI, 1978. HALL, 2003), proporcionando a esses indivíduos novas formas de representação e se verem como protagonistas da sua própria história e existência. Esse pertencimento ao mundo social representado nas músicas do grupo resgata a identidade negra de maneira combativa, fazendo de suas canções ferramentas de (r)existência.
Utiliza-se instrumentos da sociologia da cultura (Pierre Bourdieu) , historiografia da música popular (Marcos Napolitano) e crítica literária (Antonio Cândido) na interpretação das canções como narrativas criadoras de representações, sem cair no determinismo de pensar o conteúdo relatado e ouvido como fatos relacionados puramente a ordem do concreto e do real.
Ainda, a produção teórica interdisciplinar vinculada aos Estudos Culturais (Stuart Hall, Raymond Willians e Richard Hoggart) auxilia na interpretação de formas culturais – música, literatura, filme, artes em geral – e suas influências na formação das identidades na modernidade tardia (GIDDENS, 2011), mobilizando as identificações, as diferenças e as tensões que emergem de distintas matrizes culturais. Tensões resultadas dos processos de modernização, globalização e divisão social do trabalho.
Utilizar de outras ferramentas teóricas, não só a sociologia, possibilita a compreensão dos diversos significados, das representações e das construções simbólicas que permeiam as práticas culturais, no caso, a música (NAPOLITANO, 2006. SOUZA, 2006). A análise dessas práticas utilizando essas perspectivas é uma das possibilidades de investigação sócio-históricas existentes nas ciências humanas. Por isso, busco algumas observações gerais acerca dos conceitos utilizados como instrumentos e alguns elementos que influenciam o trabalho.
Estudar a cultura e suas formas é buscar significados nas maneiras de como a realidade social se constrói no espaço-tempo em termos culturais, ou seja, como é pensada e significada, envolvendo a percepção do real. Essa realidade pensada, uma representação da vida social, tem que ser analisada em termos amplos, levando em conta o discurso do emissor e a posição deste na tessitura social (BOURDIEU, 2011. HALL, 2003. WILLIAMS, 1963). Determinada prática cultural depende do contexto histórico e das configurações de poder de uma época, uma vez que as representações do mundo social são determinadas pelos interesses de grupos que as criam. Dessa forma, as representações culturais se encontram no campo das disputas, tensões e conflitos sociais.
Uma vez que a referência de existência na realidade é o corpo, também é ele que tem um papel fundamental na construção da identidade social e cultural dos indivíduos. Através do corpo que o agente entra em relação com o mundo, afeta e é afetado por ele. É o corpo que ocupa um lugar no espaço social, e principal matriz dos conflitos de poder (FOUCAULT, 1978). Desse lugar se desenvolve uma compreensão desse mundo, uma vez exposto a suas influências.
Como já se sabe, houveram processos de retirada de corpos de mulheres e homens negros, a fim de alimentar os mercados escravocratas principalmente nas Américas, generalizando culturas do continente africano, retirando suas especificidades e diferenças, assim, suas identificações. Resultados desses movimentos migratórios, do contato forçado entre africanos e europeus emergem aspectos culturais e novas formas de se identificar, advindas dos contrastes culturais e condições específicas. Portanto, culturas advindas da diáspora negra (GILROY, 2001. HALL, 2003), por se estabelecer de maneira contraditória, uma vez que em diferentes contextos no mundo, negros e negras criam estratégias de identificação baseadas nas condições reais vividas por estes, ou seja, condicionadas e condicionantes de um certo habitus que apesar de se diferir, tende a ter mais coisas em comum.
Por intermédio dessas contradições se estabelece a dialética da cultura popular negra: que se movimenta entre contenção e resistência. Assim, o artigo procura nas formas de representação através das canções de rap elementos de caráter identitário que evidenciam as diferenças existentes em entre jovens negros e agentes de outros setores e outras culturas, e como a realidade social se constrói em termos culturais para estes, fugindo principalmente de questões essencialistas que se fundam em raça, cor da pele e limites territoriais.
"A experiência da diáspora, como aqui a pretendo, não é definida por pureza ou essência, mas pelo
reconhecimento de uma diversidade e heterogeneidade necessárias; por uma concepção ‘identidade’ que vive
com e através, não a despeito, da diferença; por hibridização. Identidades de diáspora são as que estão
constantemente produzindo-se e reproduzindo-se novas, através da transformação e da diferença." (HALL,
Stuart. p. 75)
O rap como arte advinda da síntese dialética da diversidade, propõe uma identidade cultural vinculada a experiencia da diáspora negra com aspecto contestador e funciona, principalmente no Brasil, como ferramenta de denúncia e combate ao racismo sistemático e institucional proveniente do mito da democracia racial. (BASTIDE, FERNANDES, 2008).
O título “A vida é diferente da ponte pra cá”, que titula uma das canções do grupo Racionais MC’s apresenta de forma direta o que eles expressam em todo seu trabalho artístico: as condições de existência, a vida, as representações e símbolos são diferentes para os jovens negros, do ponto de vista da periferia, ou, “da ponte pra cá”. Ainda assim o espaço demarcado pela sentença extrapola os limites territoriais, atingindo também os limites culturais e identitários. Se a vida é diferente, são estabelecidas relações dialéticas com aqueles agentes não inseridos na mesma lógica cultural, os diferentes.
Referências Bibliográficas
BASTIDE, Roger e FERNANDES, Florestan. Brancos e negros em São Paulo. 4ª Edição. São Paulo: Global, 2008.
BOURDIEU, Pierre. A Distinção: Crítica social do julgamento. 2ª Ed. Porto Alegre: Zouk, 2011.
FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. 21ª ed. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979.
GIDDENS, Antony. As consequências da modernidade. 2ª Ed. São Paulo: UNESP, 1991
GILROY, Paul. O Atlântico Negro. Modernidade e dupla consciência. Editora 34: Rio de Janeiro: 2001.
GRAMISCI, Antonio. Concepção dialética da história. Civilização Brasileira: Rio de Janeiro, 1978.
HALL, Stuart. Da diáspora: identidades e mediações culturais. Belo Horizonte: UFMG, 2003.
___________. A identidade cultural na pós-modernidade. 11ª Ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2011.
___________. Identidade Cultural e Diáspora. Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, n.24, p.68-75, 1996
NAPOLITANO, Marcos. A historiografia da música popular brasileira (1970-1990). Uberlândia: ArtCultur, 2006
SOUZA, Antonio Candido de Melo. Literatura e Sociedade. 6ª Ed. Ouro sobre Azul: Rio de Janeiro, 2006