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Resumen de ponencia
Relações centro-periferia e avaliação da ciência com base em indicadores: desafios para os espaços periféricos

*Dirce Maria Santin
*Sônia Elisa Caregnato



Introdução
A avaliação da ciência com base em indicadores é uma prática consolidada em países do mundo todo. Indicadores são potencialmente úteis para revelar as configurações da ciência em diversos contextos, mas seu alcance é limitado e orienta-se, muitas vezes, pelos paradigmas da ciência mainstream. A avaliação da ciência com base em indicadores pode tanto gerar maior visibilidade para a ciência local e regional como construir e sustentar situações periféricas. O trabalho reflete sobre o binômio centro-periferia na ciência, a divisão entre a ciência mainstream e periférica e o uso de indicadores em espaços geográficos e disciplinares diversos. Os principais desafios da avaliação da ciência em espaços periféricos são discutidos, com vistas a refletir sobre o uso de indicadores nesses contextos.
O binômio centro-periferia na ciência
Para Shils (1975), as sociedades se constituem de estruturas semelhantes, nas quais é possível reconhecer uma zona central e várias zonas periféricas. Segundo ele, a zona central configura-se como o centro da ordem dos símbolos, dos valores e das crenças e governa a sociedade em diversos aspectos. Assim como na sociedade, as relações centro-periferia também ocorrem na ciência. Em ambos os casos, a periferia tende a ser dependente do centro. Os valores centrais são perseguidos em maior ou menor grau pelas zonas periféricas, que veem no centro um modelo a ser seguido (Arunachalam, 1995; Guédon, 2011).
A dicotomia na ciência pressupõe a existência de um centro que concentra o poder e estabelece um sistema de valores reconhecido e adotado, ainda que não por completo, por regiões e países periféricos (Mueller; Oliveira, 2003). O centro atrai os olhares da periferia e manifesta sua autoridade sobre ela. Estabelece assim um sistema de valores que determina as normas da ciência e define as bases para sua própria legitimação e para a manutenção das estruturas de poder do campo científico (Shils, 1975; Bourdieu, 1988).
Quanto mais dispersos estiverem os espaços periféricos, menores tendem a ser as possibilidades da inversão da ordem central da ciência. O centro não é coeso e a complexidade dos dias atuais contribui para o estabelecimento de centros menores no espaço fragmentado da ciência principal. A posição dominante está sempre em disputa, o que reforça a visão dos campos de luta de Bourdieu (1988). Já não há um centro único, mas vários coexistindo e gerando maior ou menor influência em diferentes espaços (Schott, 1998).
A condição periférica implica em estar longe do centro inovador, ter meios de produção limitados e menor visibilidade internacional (Mueller; Oliveira, 2003). As periferias têm acesso desigual ao poder e relações irregulares em vários espaços. Fazem uso de categorias analíticas da ciência mainstream, com pouco espaço para influenciar os temas ou as agendas de pesquisa (Ràfols et al., 2016). Estabelecem relações por vezes irregulares e menos estáveis, sem a continuidade garantida por acordos entre instituições e países.
O binômio centro-periferia gera uma situação relacional que pode resultar em dependência ou revolta. As periferias podem permanecer como tal ou lutar para alterar suas posições em relação ao centro. Estar no exterior não significa apenas estar fora da zona central, implica em ser atraído e influenciado por ela, ainda que parcialmente. O poder do centro não é absoluto, nem rege por completo os princípios e as relações que se estabelecem na ciência. A periferia faz suas “escolhas”, ainda que parcialmente dependentes do centro.
As mudanças das últimas décadas provocaram reconfigurações na ciência e na comunicação científica, mas não resultaram na reconfiguração das relações centro-periferia. A perspectiva também se coloca para a avaliação da ciência, cujos olhares devem ser voltados aos padrões e às práticas de publicação e citação dos diversos campos, espaços geográficos e grupos sociais.
Avaliação da ciência em espaços periféricos
As últimas décadas foram marcadas pelo aumento das políticas e práticas de avaliação da ciência em países em todo o mundo. Os indicadores têm se mostrado potencialmente úteis para a avaliação de sistemas de ciência e tecnologia (C&T), pois reduzem tempo e custo, aumentam a objetividade e transparência e reduzem a complexidade dos resultados (Ràfols et al., 2016). Não capturam, entretanto, diversos aspectos da ciência. Alguns fenômenos podem ser mais bem interpretados com a avaliação qualitativa e outros exigem abordagens múltiplas. Há também a preocupação com o enfoque dominante dos indicadores, marcados pelo domínio da ciência mainstream e pela ideia da excelência acadêmica.
Várias regiões do mundo são consideradas periféricas, além de áreas do conhecimento e grupos de menor visibilidade. Cada periferia tem seus próprios sistemas de geração e uso de informação e a avaliação pode exigir diferentes indicadores, capazes de contemplar as potencialidades locais e regionais. A simples transposição dos indicadores da ciência principal para os espaços periféricos tende a gerar análises inadequadas e efeitos nocivos à ciência, com possíveis consequências sobre os sistemas de C&T, além de implicações nos níveis individual e institucional (Vessuri; Guédon; Cetto, 2014).
A atenção à ciência regional ou periférica também é defendida no The Leiden Manifesto for Research Metrics (Hicks et al., 2015), que busca sensibilizar bibliometristas, gestores e pesquisadores sobre boas práticas de avaliação da ciência com o uso de indicadores. O segundo princípio do Manifesto, “Medir o desempenho de acordo com a missão da instituição, do grupo ou do pesquisador” (Hicks et al., 2015, p. 430), refere-se à necessidade de adequar os indicadores de desempenho aos objetivos dos programas de C&T e ao contexto socioeconômico e cultural. Este princípio declara que não há um modelo único de avaliação que se aplique a todos os contextos e que a missão dos grupos avaliados deve estar na base das avaliações.
O terceiro princípio do Manifesto, “Proteger a excelência da pesquisa localmente relevante” (Hicks et al., 2015, p. 430), alerta para a importância da produção local e regional. O Manifesto propõe a avaliação da ciência com base no pluralismo e na relevância social dos resultados das pesquisas, com indicadores mais inclusivos, definidos com base em políticas e estratégias locais. As práticas de avaliação precisam valorizar os resultados da ciência voltados às necessidades locais e regionais, mesmo que estes sejam mais difíceis de medir.
As características das áreas do conhecimento também têm influências sobre a visibilidade das pesquisas e sua integração com o centro ou a periferia. A preocupação com as particularidades dos campos está expressa no sexto princípio: “Considerar as diferenças entre áreas nas práticas de publicação e citação”. (Hicks et al., 2015, p. 430-431). O Manifesto reforça o cuidado com as distintas práticas de publicação e citação das áreas, além de aspectos como o enfoque básico ou aplicado das pesquisas e seu alcance local, regional ou internacional.
As peculiaridades dos campos de pesquisa precisam ser consideradas e respeitadas nos processos de avaliação da ciência, bem como no planejamento de políticas científicas e programas de fomento. A avaliação da ciência deve contemplar indicadores relevantes e ampliar o olhar para aspectos múltiplos, capazes de indicar os pontos fortes de cada contexto com base em seus padrões de produção, comunicação e uso da informação.
Desafios e perspectivas
Alguns princípios e desafios da avaliação da ciência são comuns a todos os contextos, como a adesão aos objetivos dos sistemas científicos, a transparência de dados e processos e a atualização de indicadores. Outros tendem a ser mais importantes em países e regiões periféricas, onde as configurações da ciência exigem maior atenção aos objetivos dos sistemas de C&T e aos métodos e contextos de avaliação.
Dois desafios principais se colocam para os espaços periféricos em relação à avaliação da ciência com o uso de indicadores. O primeiro está relacionado à ausência de fontes de dados representativas da ciência periférica, sem as quais os resultados da ciência são fortemente sub-representados. O segundo desafio consiste na proposição de indicadores mais inclusivos, com abordagem plural e contextual, capazes de representar de forma adequada a ciência periférica e seus padrões, os pontos fortes e aqueles que precisam de incentivo. A adaptação dos indicadores aos contextos periféricos e a utilização de indicadores múltiplos podem gerar melhores resultados na avaliação.
A base de qualquer avaliação é o contexto em que ocorrem os fenômenos. Assim também deve ser a avaliação da ciência das periferias, sustentada pelas políticas e estratégias locais, com olhares plurais e contextuais, capazes de revelar mais amplamente as configurações da ciência nos espaços periféricos.
Referências
Arunachalam, S. 1995. Science on the periphery. Knowledge and Policy 8(2):68–87.
Bourdieu, P. 1988. Homo academicus. Stanford University Press.
Guédon, J.-C. 2011. El acceso abierto y la división entre ciencia ‘principal’ y ‘periférica’. Crítica y Emancipación 3(6):135–80.
Hicks, D. et al. 2015. Bibliometrics: The Leiden Manifesto for Research Metrics. Nature 520 (7548):429–31.
Mueller, S. P.; Oliveira, H. 2003. Autonomia e dependência na produção da ciência. Perspectivas em Ciência da Informação 8(1):58–65.
Ràfols, I. et al. 2016. On the dominance of quantitative evaluation in ‘peripheral’ countries. SSRN Electronic Journal.
Schott, T. 1998. Ties between center and periphery in the scientific world-system. Journal of World-Systems Research 4(2):112–44.
Shils, E. 1975. Centre and periphery: essays in macrosociology. University of Chicago Press.
Vessuri, H.; Guédon, J.-C.; Cetto, A.M. 2014. Excellence or quality? Impact of the current competition regime on science and scientific publishing in Latin America and its implications for development. Current Sociology 62(5):647–65.




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* Santin
Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS. Porto Alegre, Brasil

* Caregnato
Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS. Porto Alegre, Brasil