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Resumen de ponencia
A invisibilização da violência de gênero no âmbito acadêmico: quando a omissão também é signo de violência

*Monique De Souza Carvalho



Este trabalho tem por objetivo suscitar o debate acerca da violência de gênero no âmbito acadêmico. Esta problemática surge como pauta quando percebe-se que, ainda que existam inúmeros trabalhos que visam abordar a perniciosidade da violência de gênero, muitas vezes, nos mostram a existência deste fenômeno social aquém do ambiente acadêmico. Assim, fala-se da violência intrafamiliar ou a praticada nas ruas, entretanto, e quanto a violência existente dentro do meio acadêmico? Esta existe? No que tange tal indagação, Bonini et al (2015) é enfático quando diz que “onde há vida, há conflito e nas universidades não é diferente”, à medida em que se constata que “na mesma universidade onde se faz pesquisa para preservar e prolongar a vida e resolver conflitos advindos dela, tem sido palco de trotes violentos e casos de bullying”. Assim, como ocorre em quaisquer espaço social, a universidade revela-se profundamente imbuída dos pre(con)ceitos advindos da cultura machista e patriarcal; além de mostrar-se perpassada de relações de poder. Nesse sentido, Welzer-Lang (2001) nos atenta para o fato de não haver simetria entre os sexos e gêneros, ainda que analisemos um mesmo grupo. Há questões étnicas, raciais e econômicas perpassando todas as relações sociais, definindo àqueles que possuem mais poder e, enquanto este poder circula, a violência de gênero apresenta-se como um de seus rebatimentos, assolando, sobretudo, mulheres e aqueles que fogem do padrão heteronormativo. Afinal, como afirma Faleiros (2007), "como o gênero feminino é considerado inferior e subalterno, os homens que assumem o “gênero não-masculino” – transexuais, travestis, homossexuais – também tornam-se “objetos” de dominação e de punição violenta (psicológica, social e física); são marginalizados".
Norteando-se pela perspectiva que privilegia a dimensão interseccional, que de acordo com Freitas (2017) visa entender que "a violência de gênero percorre diversas classes sociais, diferentes grupos étnico raciais, gerações e territórios", parte-se do pressuposto de que, no referido campo, esta problemática mostra-se invisibilizada. Em um país, como o Brasil, no qual apenas 14% da população adulta possui ensino superior (como relevou relatório da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, de 2016), há, no imaginário social, uma ilusão de que instituições de ensino dito superior são blindadas às mazelas sociais, à medida em que os seus atores sociais, por terem aprofundado a sua educação, superaram as práticas violentas derivadas de uma construção social de histórico machista. A invisibilização da violência ocorre, então, quando esta é naturalizada através do senso comum. Aproximando-se, destarte, do conceito de poder simbólico cunhado por Bourdieu (1996), percebe-se que este caracteriza-se por um poder que se deixa ver menos, ou que é até mesmo invisível. De acordo com Ribeiro org. (2013), “a invisibilização negadora corresponde ao silenciamento das inúmeras formas de violência que permeiam as sociedades contemporâneas”, além de constituir em si própria uma forma de violência. Nesse cenário demarcado por relações sociais arcaicas, a violência, principalmente, a psicológica e a simbólica, não são percebidas pelos atores sociais que a compõe; deste modo, omite-se a sua existência e contribui para a sua reprodução. Como fora mencionado nas primeiras linhas deste resumo, tal fenômeno de invisibilização pode ser percebido quando a violência de gênero no âmbito acadêmico é pouco (ou quase nada) discutida na academia e, assim, colabora-se para a sua manutenção neste espaço.

Referências:
BONINI, Luci Mendes. FACHINETTI JUNIOR, Vitor Monacelli. Universidade, identidade e intolerância: um esboço para o debate sobre violência no campus universitário. Justificando: mentes abertas pensam direito. 10 de abril de 2015.
BOURDIEU, Pierre. Sur la télévision. Paris: Liber. 1996.
FALEIROS, Eva. Violência de gênero. In: Violência contra a mulher adolescente-jovem | Stella R. Taquette, organizadora. – Rio de Janeiro : EdUERJ, 2007. 200p
FREITAS, Rita de Cássia Santos. Observatório de violência de gênero – analisando a Universidade Federal Fluminense. Programa de estudos pós-graduados em Política Social. Março de 2017.
RIBEIRO, António Sousa (org.). Representações da violência. 2013.
WELZER-LANG, Daniel. A construção do masculino: dominação das mulheres e homofobia. Estudos Feministas, 2001.
http://www.oecd.org/education/education-at-a-glance-19991487.htm (acessado em 20/05/18)




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* De Souza Carvalho
Universidade Federal Fluminense UFF. Niterói, Rio de Janeiro, Brasil