Após ler “17 contradições e o fim do capitalismo” escrito por David Harvey (2014), classificado por ele mesmo como o “livro mais perigoso” que escreveu, tive a sensação de que talvez o autor devesse declarar sua intenção de o livro ser doado para integrantes de um movimento social e/ou de um novo partido, com a finalidade de debater e elaborar uma nova proposta de governo (um anti-governo) de transição para o fim do capitalismo.
Brincadeiras a parte, o autor da obra expõe 17 contradições do capital numa linguagem simples, fácil de acompanhar e nos perceber tão contraditório quanto. Como já apontado por Marx em O Capital, as contradições necessárias para realização do capital, geram crises cíclicas do capitalismo. Em sua obra, Harvey destrincha essas contradições e as classifica entre estruturais, mutáveis e perigosas.
O autor contemporâneo também nos esclarece a nossa “mea culpa” como integrantes do sistema e aponta certas patologias adquiridas e transpassadas por meio dos nossos comportamentos sociais, contraditórios e dolorosos, que frequentemente assumimos para mantermos nossa existência material de caráter dialético.
Traz uma perspectiva evolucionista das consequências e do aprofundamento das relações que o capital impõe e se capilariza.
Capaz de despertar os homens, conclui falando da necessidade de assumirmos o espírito revolucionário na filosofia humanista. Cita Franz Fanon para nos acalmar e dizer que não há nada de contraditório reivindicar o humanismo pelas próprias mãos, já que nossas mãos correm o risco de serem amputadas a cada segundo no sistema que impõe a “globalização da indiferença”.
Indica a necessidade de renovação da ética e da percepção de que as relações, hoje simplificadas a uma perspectiva econômica, são humanas. De que Política é a escolha do tratamento pelo qual a pessoa ou coisa (instituição) fez em/ para/sobre qualquer situação-questão-problema. A política é a forma de relacionar-se com tudo e todos.
Reconhece todas as formas de luta anticapitalista, mas chama a atenção para a distorção dos valores e práticas a medida que essas ações reproduzem a forma, a relação de dependência e manutenção do capital e do capitalismo.
Também, ao ler o livro, achei importe estender a preocupação em “oferecer saída definitiva do sistema hegemônico” às questões do socialismo já percorrido. O sistema socialista, ao tentar dissolver alguma dessas contradições, criou suas próprias num sistema de dependência com o capitalismo. Mas, será que o que restou desse movimento é capaz de dar início ao processo de transição?
Depois da conclusão, Harvey pontua 17 ideias para práticas políticas anticapitalistas. O mais interessante é que não aponta 17 políticas, mas sim ideias que podem inspirar tanto políticas estatais como atitudes individuais. Ideias que oferecem base ética para construção de políticas públicas anticapitalistas como para uma filosofia de conduta e espiritualidade humanitária. Como que munindo as pessoas. Uma tentativa de “contágio express”, numa formatação mais sistematizada do conteúdo defendido.
Como bom marxista, compreende o Estado como organismo originado e necessário ao capital e o capitalismo e por isso joga a responsabilidade da “saída” possível para a organização da sociedade civil em “associações populares”.
A mensagem da obra é inspiradora! Mas, ao mesmo tempo, muito dolorosa. Sim, pois sem quórum suficiente, nossa realidade não mudará e cada vez mais o capital corrompe e coopta as pessoas, as organizações e todo o mais que resta, num estado dialético e contraditório do desenvolvimento e progresso humanitário.
E ao tratar das ideias – que, inicialmente, confesso, as julguei como insuficientes do ponto de vista de serem ideias para a prática (por isso a brincadeira no primeiro parágrafo) - Harvey recorre frequentemente ao termo “associações populares” e, claro, nem sequer menciona o Estado como possível ativista de uma de suas sugestões.
Atualmente pesquisadora do tema Cooperativismo em Cuba e no Brasil, me coloco na posição de fazer algumas reflexões da relação entre as 17 ideias elaboradas por David Harvey, em sua obra 17 Contradições e o fim do capitalismo (2014) e a Doutrina Cooperativista, com a finalidade de, através da associação entre políticas públicas já realizadas e os princípios da Doutrina Cooperativista que regem a organização de sua materialidade, apontar a possibilidade elaboração de “políticas públicas de boicote” ao capitalismo.
Em perspectiva histórica, o cooperativismo surgiu como reação ao intenso processo de mecanização do trabalho a partir da década de 1750. A primeira cooperativa formalmente reconhecida é a Sociedade Rochdale dos Pioneiros Equitativos em 1844, na Inglaterra, cidade de Rochdale, hoje um bairro de Manchester.
Em 1895, após a expansão mundial do cooperativismo, criou-se a Aliança Cooperativa Internacional (ACI) com sede atual na Bélgica, em Bruxelas. Com a missão de “representar, congregar e defender o movimento, divulgar a doutrina e preservar seus valores e princípios”1, a ACI conta com mais de 230 organizações entre seus membros, mais de 100 países, que representam mais de 1 bilhão de pessoas de todo o mundo2.
Compreendido como organização que afasta as figuras do patrão, o empregado e o intermediário, assegurando aos cooperados a propriedade dos instrumentos de produção e a participação nos resultados do empreendimento, é caracterizado como modo de produção anticapitalista.
Assim, interpretado como alternativa para o desenvolvimento local e diminuição da desigualdade social, do ponto de vista filosófico, o cooperativismo surgiu embasado em valores universais, de união, colaboração, cooperação, pregando uma mentalidade de valores comunitários na produção de interesses comuns. Do ponto de vista social e político, o sistema de autogestão de cooperativas muitas vezes proporciona sentido de autonomia na organização coletiva de meios de produção e sobrevivência, assim como a politização da classe, produtora local.
Apesar do autor não falar de cooperativismo ou atribuir à configuração dessas “associações populares” uma espécie de ampliação da doutrina cooperativista para a organização econômica e política da humanidade, destaco, como essa doutrina dialoga diretamente com suas propostas. As propostas de Harvey (2014), em as “17 contradições e o fim do capitalismo”, giram em torno da necessidade de renovação e constituição de um novo ser humano para configuração de uma nova ordem.
Nesse artigo, problematizo sua análise e, principalmente, suas propostas dialogando com o movimento cooperativista e sua Doutrina, caracterizado como possibilidade de economia anticapitalista; assim como seus desafios no contexto capitalista, estendendo o debate ao contexto socialista, especificamente em Cuba, no momento recente das reformas econômicas.
Por último, procuro discutir cada uma das dezessete ideias defendidas pelo autor, com o objetivo de objetivar as possibilidades de ação anticapitalista no campo da implementação de “políticas públicas de boicote” para a fase de transição e fim do capitalismo.
Visualiza-se, por fim, a organização da sociedade em cooperativas, que, na melhor das hipóteses, dissolveria o Estado e geraria uma espécie de “Estado Cooperativo”. A autoridade da estrutura do Estado Moderno seria cada vez mais desnecessária a partir da inversão e absorção dos valores humanitários de forma universal e democrática.