A partir de Karl Polanyi e Giorgio Agamben, uma análise da constituição política liberal-democrata das sociedades ocidentais desde a Revolução Francesa até o presente mais recente e a implicação desse modelo na emergência de governos autoritários e fascistas.
Ao longo da História liberal o conceito de "democracia protegida", retirado de Agamben, está assegurado em artigos na forma jurídica das Constituições.E foram, e ainda são, esses dispositivos constitucionais em nome do "estado de necessidade interna" para a salvaguarda da segurança e da ordem pública que vêm servindo de suporte de legalidade aos estados de exceção, ao fascismo, e ao capitalismo que no seu estágio financeiro prescinde cada vez mais da democracia que inclui o povo como cidadão de direitos e oportunidades iguais.
A democracia do capital, agora financeiro, protegida pelos artigos constitucionais, faz emergir por dentro das instituições o mais reacionário, violento e atrasado lado do liberalismo. Fascismo e nazismo são produtos dessa realidade. São sentidos que nascem e dormem no berço do capitalismo e despertam nas crises do Estado liberal.
Quando as tentativas de êxito do mercado autorregulavel esbarram nas suas irremediáveis contradições internas, acirrando-se ao paroxismo, o fascismo se toma de organizador da ordem em defesa da propriedade privada e do extermínio da oposição das esquerdas, dos trabalhadores como classe e de seus representantes formais e informais.
Ao contrário do que se pensa o fascismo não depende das grandes massas. Essa percepção advém da propaganda em larga escala que apresentava gigantescas manifestações favoráveis sempre com a eficiência de ocultar o alistamento compulsório e a adesão sob pena de tortura e desaparecimento. O que faz a força do fascismo é o acolhimento e a recepção conivente por parte dos que ocupam postos institucionais de relevância. Foi assim com Mussolini, então chefe de um pequeno agrupamento, chamado pelo rei Vitor Emanuel para ser primeiro-ministro da Itália. O mesmo se deu na Espanha em 1923, quando o general Primo de Rivera, sem nenhuma base popular, instaurou a ditadura fascista com o beneplácito do rei Afonso XIII .
Na Alemanha de 1932, Hitler derrotado nas urnas é nomeado chanceler da República de Weimar pelo presidente Hindenburg atendendo a pedido declarado em carta pública assinada por industriais e banqueiros, os mais altos representantes da coligação industrial-financeira do país. O aristocrata militar Hindenbug classificou o ato de " a nova força na velha grandeza".Nos 12 anos em que governou a Alemanha, Hitler nunca se ocupou em revogar a Constituição de República alemã de Weimar porque o artigo 48 lhe garantia todos os mandos, assim estabelecendo:
"Se, no Reich alemão, a segurança e a ordem pública estiverem seriamente conturbadas ou ameaçadas, o presidente do Reich pode tomar as medidas necessárias para o restabelecimento da segurança e da ordem pública, eventualmente com a ajuda das forças armadas. Para esse fim, ele pode suspender total ou parcialmente os direitos fundamentais estabelecidos nos artigos 114, 115,117,118,123,124 e 153".
A partir do que é possível chamar de gênese da política de revogação da inclusão de direitos e bem estar do povo pobre e trabalhador como categoria e classe de representação de si e para si mesmo, o texto faz um recorte na violência material e simbólica que atinge o Brasil desde o golpe de 2016 que destituiu pela via da democracia protegida do liberal-capitalismo financeiro a presidente Dilma Roussef eleita pelo voto direto de 54 milhões de brasileiros.
Desde então, na política, na ética e na estética o Brasil vem praticando ações fascistas. Pelas mãos do judiciário, a política vira polícia, a ética é golpeada e a estética se degenera.
Uma rádio é invadida pela polícia federal para prender o apresentador, a correspondência de um jornalista é violada pela Receita Federal, juiz aprova tratamento para a ‘cura gay’, outro suspende peça com transexual, um outro ganhou fama no mundo por prender sem provas, o ministério da Educação proíbe aula na Universidade de Brasília sobre o golpe de 2016 e as conseqüências para a democracia, e no melhor escopo da intolerância e do desprezo fascista ao conhecimento, o professor da Universidade Federal do Estado de São Paulo, Elisaldo Carlini, 87 anos, especialista reconhecido em psicofarmacologia é chamado a depor na Policia Federal acusado pelo Ministério Público de fazer apologia ao crime por defender a liberação e uso da maconha para fins medicinais.
O fascismo não ama o amor e odeia a diferença. Só admite o seu igual. Também não tem local e data. Está em toda parte. Seu nome é legião, como ensinou Roland Barthes.Tem por hábito atrair os chamados cidadãos e cidadãs de boa vontade e princípios virtuosos que salivam de prazer ao assistir prisões e condenações arbitrárias, tudo em nome do combate à corrupção que de tão intima nas suas bocas cheias de cuspe moralista tem os erres suprimidos na fala ágil que passa a dizer ‘co’pção’.
O curador de uma exposição cobriu com pano preto os quadros eróticos. Disse que era para proteger da luz. Na rádio, disseram que o apresentador se ausentou por problemas na garganta. Na violação da correspondência, não disseram nada. A imprensa golpista e a Associação Brasileira de Imprensa também não. O usurpador Temer disse que o Brasil desistiu espontaneamente do programa nuclear. Mentira. O coordenador, almirante Othon, foi preso e condenado a 43 anos de detenção, a maior pena já imputada pelos tribunais fascistas, acusado de corrupção.
Concordando com Agamben e Polanyi, em resumo o que se pode observar é que a democracia protetora dos direitos exclusivos do mercado autorregulável e da globalização imperialista e neocolonial já transformou em risco a sobrevivência do povo pobre e trabalhador.