A emergência de uma nova direita não vem sendo identificada apenas no Brasil e sua caracterização varia de acordo com o contexto. Segundo Norberto Bobbio (2001), em nenhum outro momento desde a Revolução Francesa, a distinção entre direita e esquerda foi tão questionada como estruturante do universo político, mas ao longo de seu trabalho, ele expõe as razões pelas quais acredita que a política segue organizada nesses termos. Entendidos como termos relacionais em um gradiente – diferentemente das correntes de pensamento, que têm valor absoluto, como o conservadorismo, o liberalismo, o marxismo ou fascismo -, direita e esquerda se distinguiriam por sua relação com a noção de igualdade. Enquanto as esquerdas partiriam da constatação de uma igualdade natural para criticar as desigualdades sociais, e suas implicações sobre o exercício da liberdade, as direitas teriam como ponto comum o reconhecimento das desigualdades como naturais, acrescidas pelo peso histórico da tradição. Bobbio reconhece esta diferenciação como mínima e entende que outros critérios se somam na organização das diversas manifestações que podem ser encontradas à direita e à esquerda. Ele identifica, por exemplo, que após as grandes guerras do século XX, a associação entre direita e fascismo limitou as expressões públicas da primeira, razão pela qual mesmo políticos conservadores evitavam sua autodenominação neste campo. Nas décadas de 1970 e 1980, progressivamente começaram a reaparecer manifestações públicas que se apresentavam como de direita, ainda que marcando suas diferenças em relação ao passado recente (BOBBIO, 2001).
Fenômeno parecido pode ser observado na América Latina, onde a associação entre direita e autoritarismo reduziu o espaço para que atores políticos e sociais se apresentassem ao público a partir dessa inscrição. Ainda que forças conservadoras tenham continuado existindo e atuando, inclusive de maneira dominante, no espaço público, frequentemente políticos, intelectuais e outros atores sociais buscavam escapar à associação com a direita, apresentando-se como centristas ou outras denominações (KAYSEL, 2015). Recentemente, no contexto dos governos chamados de pós-neoliberais (ou após o fim de alguns deles), começaram a se multiplicar manifestações públicas que reivindicam sua inscrição à direita do espectro político. As novas direitas latino-americanas, e brasileira, em particular, ainda estão sendo estudadas em maior profundidade, o que pode contribuir para a variedade de critérios empregados para sua compreensão. Francisco López Segrera (2016), por exemplo, identifica três tipos diferentes de direitas latino-americanas na segunda metade do século XX: a autoritária, predominante de 1964 a 1985, a neoliberal, entre 1985-2000, e a nova direita, marca do século XXI. Esta última seria caracterizada pela valorização de programas econômicos pró-mercado, pelo compromisso frágil com a democracia e por uma linguagem pós-política, que manifesta desconfiança em relação à tradicional distinção entre direita e esquerda.
As características descritas pelo autor parecem se encaixar melhor à experiencia recente de países como Argentina (com protagonismo de Maurício Macri), Chile (Sebastián Piñera) ou Venezuela (Henrique Capriles). Por um lado, é possível encontrar no Brasil manifestações políticas que se aproximam do panorama descrito por Segrera – cujo melhor exemplo seria Marina Silva, que não se reconhece como direita a partir de uma linguagem pós-política, mas manteve uma plataforma pró-mercado nas últimas duas eleições, além de ter apoiado o golpe parlamentar que interrompeu o mandato de Dilma Rousseff em 2016. Contudo, por outro lado, a categoria nova direita vem sendo usada no Brasil para descrever a retomada de uma espécie de orgulho direitista, que difere da recusa à distinção direita-esquerda. Esta nova direita brasileira coincidiria com as de países centrais no desenvolvimento de uma relação mais próxima entre conservadorismo e liberalismo, ou seja, entre defesa da tradição e modernidade econômica capitalista, traço identificado por Habermas (2015) na análise do “neoconservadorismo” na Alemanha e nos Estados Unidos (CHALOUB & PERLATTO, 2015).
O trabalho que se pretende apresentar aqui toma como marco as jornadas de junho de 2013 para indagar sobre a existência ou não de um processo de reorganização no campo das direitas brasileiras. Naquela ocasião, milhões de pessoas saíram às ruas do país reivindicando pautas diversas, com formas de organização também muito diferentes entre si. Cabe questionar, a partir disso, se dentre os muitos sentidos presentes naquela experiência (ainda não compreendida completamente) é possível observar a emergência de novas formas de organização e discurso no campo das direitas brasileiras. No caso do presente texto isso será feito buscando responder a algumas perguntas: existem novos atores? Existem novos discursos? Existem novas práticas? A partir das respostas a estes questionamentos podemos começar um esforço de mapeamento do campo conservador no país a partir das recentes experiências de transformação radical do cenário político brasileiro.