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Resumen de ponencia
Sociologia em Movimento: transformações através da extensão universitária.



*Heven Carneiro De Almeida
*Isabela Pereira Sousa Lira
*Midria Da Silva Pereira



Partindo da teoria sociológica sobre educação de Bourdieu1, a estrutura da escola enquanto instituição foi criada para um público muito específico, que possui predisposições compatíveis com ela. Aos que não possuem essas predisposições, o funcionamento da escola é falho e a própria instituição não está preparada para lidar com a resistência que essa falta de sentido cria. Essa resistência costuma inviabilizar qualquer tentativa de diálogo que se dê nesse formato tradicional.
Na argumentação de Paulo Freire2 sobre as dificuldades da educação podemos encontrar razões semelhantes às que dificultam o diálogo na sala de aula. Tal como a estrutura social inferioriza os trabalhadores rurais, os colocando como seres despossuídos de conhecimento e cultura, fazendo com que introjetem o “mito de sua ignorância absoluta” (Freire, 2006, p. 30), a estrutura escolar, por meio de sua hierarquia absoluta e ação disciplinadora, tem o efeito de fazer com que os estudantes se sintam sujeitos inferiorizados, vazios de conhecimento e cultura, que não têm outro papel na escola que não o de realizar tarefas de modo acrítico.
Usando desses autores como referências teóricas, e com o objetivo de romper a hierarquia entre educadores e educandos, o princípio que baseia as atividades desenvolvidas no projeto é o da horizontalidade dos conhecimentos, e é isso que em nossa concepção as oficinas diferem de uma aula tradicional. Vemos o conhecimento prévio dos educandos como algo tão importante e válido quanto o conhecimento teórico trazido pelos estudantes de Ciências Sociais. Tentamos transpor para a nossa prática de ensino a abordagem dialógica de Freire, visando à promoção de um espaço igualitário de diálogo que favoreça a construção coletiva de conhecimentos e que valorize as mais diversas formas e expressões de saber.
O projeto atua há quatro anos na escola estadual Rosa Bonfiglioli, os números de alunos da escola por oficina varia muito, com uma média de quinze por encontro. Assim, os estudantes de Ciências Sociais ganham a oportunidade de dialogar, refletir e construir conhecimentos juntos dos estudantes da rede pública do ensino médio. Com idas semanais à escola, junto da participação de duas a três reuniões por semana, todas presenciais, o Sociologia em Movimento possibilita uma dinâmica distante do exclusivismo teórico do curso de Ciências Sociais.
O projeto é financiado pela USP por meio do P.U.B.3 e, apesar de ser voltado para os estudantes de Ciências Sociais, ele une esforços destes e de estudantes do curso de Pedagogia. A institucionalização do grupo também só foi possível porque a Professora Doutora Márcia Gobbi, docente da Faculdade de Educação, concordou em nos orientar.
Assim, nossa principal atuação se dá dentro do ambiente escolar, porém fora do horário e dos moldes regulares das aulas de Sociologia. As oficinas fogem desses moldes tanto em relação aos conteúdos, quando buscamos construí-los com base na realidade e experiência dos educandos, quanto em relação às metodologias, que são dinâmicas, indo desde rodas de conversas e debates, a jogos pedagógicos e recursos audiovisuais. Desse modo conseguimos superar a indisposição prévia que o ambiente escolar promove, bem como a abordagem puramente teórica das Ciências Sociais. Um dos exemplos de oficinas que atingiram esse objetivo é aquela na qual demonstramos conceitos marxistas a partir de uma fábrica de pipas simulada em sala de aula.
No entanto, além dos desafios que encontramos dentro da própria USP ao que se refere à extensão e à formação de professores, nos deparamos também com políticas públicas no cenário nacional que ameaçam diretamente o ensino público e a Sociologia como disciplina escolar. São exemplos dos planos políticos presentes no Brasil nesse momento projetos como a “PEC do teto de gastos”4, que define limites financeiros para áreas de necessidade básica, como educação; ou a MP da Reforma do Ensino Médio5, tornando facultativo o ensino de Sociologia e Filosofia, que em conjunto com o projeto Escola sem Partido, propõe um filtro ideológico dos assuntos debatidos na escola com vistas a manter uma neutralidade que não existe, podando o alcance da educação e da formação crítica dos educandos.
Sendo um projeto voltado para a educação que acredita e defende a democratização do conhecimento e um ensino público de qualidade, aberto à pluralidade de ideias e focado no ensino da sociologia como disciplina formadora de pensamento crítico, o Sociologia em Movimento se vê na contramão de tais políticas. O projeto de extensão universitária não é, no entanto, uma proposta de substituição da disciplina escolar de Sociologia, nem tem a pretensão de atuar como componente curricular. Dispomo-nos a discutir sobre o ensino de sociologia e apresentar formatos diferentes para as aulas, com práticas que se aproximem mais da realidade dos alunos e que contribuam para sua formação e autonomia.
Temos, portanto um cenário em que é necessário lutar pela extensão como uma prática ativa da universidade, a fim de derrubar o muro que divide a sociedade da bolha universitária, sem deixar de lado o compromisso ético de construir conhecimento de maneira dialógica e coletiva, norteados principalmente por Paulo Freire. Dessa forma é possível se engajar na luta em uma esfera maior pela escola pública de qualidade, apoiando e participando dos debates acerca do assunto e mobilizando-se pelo ideal de que a educação não deve ser nem formadora, nem conformadora, mas sim transformadora.

- Referencias

1 BOURDIEU, Pierre. (1998) “A escola conservadora: as desigualdades frente à escola e a cultura.” In: M. A. Nogueira, A. Catani (orgs.). Escritos de educação. Petrópolis,
Vozes.
2 FREIRE, P. Extensão ou comunicação? Petrópolis: Paz e Terra, 2006.
3 Programa Unificado de Bolsas, um auxílio à permanência da USP, que concede bolsas a estudantes que prestem serviços em alguns dos tripés universitários, neste caso a extensão.
4 BRASIL. (2016a) “Proposta de Emenda à Constituição no 55, de 2016”. Altera o Ato
das Disposições Constitucionais Transitórias, para instituir o Novo Regime Fiscal.
Brasília. Disponível em:
. Acesso em 30 de abril de 2018.
5 _______. (2016b) “Medida provisória no 746, de 2016”. Institui a Política de Fomento à
Implementação de Escolas de Ensino Médio em Tempo Integral, altera a Lei no 9.394,
de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, e
a Lei no 11.494 de 20 de junho 2007, que regulamenta o Fundo de Manutenção e
Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação,
e dá outras providências. Brasília, DF. Disponível em: . Acesso em 3o de abril de 2018.




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* Carneiro De Almeida
Sociologia em Movimento e Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. Brasil

* Pereira Sousa Lira
Sociologia em Movimento e Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Brasil

* Da Silva Pereira
Sociologia em Movimento e Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Brasil