Em 1915, Josephine Jouvenille foi internada em um pavilhão do Hospício Nacional no Rio de Janeiro. Sua ficha dizia que ela era uma francesa, casada e doméstica de 36 anos de idade. De acordo com o médico que efetuou o seu exame de sanidade mental, a paciente dera entrada naquela instituição profundamente intoxicada pela cocaína, tóxico do qual fazia uso imoderado. O registro de seu exame relatava seus delírios.
“Tinha alucinações visuais dizendo ver figuras luminosas formadas pelos raios de sol com quem entretinha conversações, sendo que frequentemente foi vista dirigindo provocações à lua, a quem inculpava a sua estadia a esta clínica. Dizia que tinha um pequeno raio de sol com quem entretinha amistosas relações e de quem recebia frequentes conselhos. Diz que há meses para cá é que começou a tomar a cocaína, sendo que a isto foi aconselhada pelo raio de sol que constantemente lhe dizia ‘Josephine il faut prendre de la cocaïne’”.
Os médicos do hospício ministraram-lhe cafeína, tratamento comum aos cocainômanos naquele hospício. Durante sua estadia no pavilhão, a paciente esteve calma e lhe desapareceram as perturbações antes relatadas. Na avaliação dos médicos, o estado geral da paciente teve uma melhoria extraordinária. Um recorte de jornal anexado ao documento clínico da paciente revelava que Josephine, na verdade, era uma famosa artista de cabaré conhecida como “Zizi Papillon”. A matéria publicada no jornal A Rua em julho de 1915, três dias após sua saída do hospício não atribuía sua loucura à cocaína, tampouco sua cura ao hospício, mas ambos ao amor. Com o título “Ficou louca de amor e o amor curou-a”, o texto descrevia a vida social da bailarina, que não só gozava de muita fama e prestígio social, como também era alvo de galanteios dos corações por ela apaixonados.
Zizi Papillon, que sorria do amor e de todos aqueles que se diziam fascinados por sua beleza, acabou por apaixonar-se seriamente por um dos frequentadores do Palace Theatre, aonde vinha estrelando seus espetáculos, “um representante da nossa jeunesse dorée, que nunca prestou atenção na rapariga, nem nas tentativas que ela fazia por entrar na sua intimidade”. Desde então a bailarina começou a ficar triste, pois previa que, acabando o contrato que a mantinha no Brasil, teria de voltar à sua terra sem tocar o coração daquele por quem se apaixonara.
Foi assim que, estando a bordo de um navio com destino à França, Zizi Papillon enlouqueceu de amor. “Poucos minutos depois, então, deu-se uma cena verdadeiramente melodramática! A “Zizi Papillon”, cujo verdadeiro nome é Josephine Jouvenille, tornou-se em louca furiosa, entrando a cometer todos os desatinos. Chorava, ria, arrancava os cabelos e chamava pelo ingrato cujo nome não cessava de proferir a todo momento”.
A polícia marítima a enviou diretamente ao hospício, sendo que a data de seu embarque coincide com a de sua internação. No dia 30 de junho, Zizi Papillon teve alta naquela instituição e, três dias depois, foi vista alegre e completamente curada rumo à França. “Ao seu lado, também alegre, estava o jovem que provocara a loucura e que se rendera, afinal, aos encantos da bela artista, depois que soube da sua desgraça”.
Certamente os médicos atribuíram o enlouquecimento da artista ao uso imoderado que a paciente fazia da cocaína, demonstrando que, do ponto de vista psiquiátrico, o uso abusivo desse tóxico estava sendo considerado um possível propulsor da loucura e das alucinações descritas. Da perspectiva da própria Zizi Papillon, não sabemos a qual motivo ela atribui o seu acesso naquele dia. É possível que ela tenha falado sobre sua paixão ao médico examinador, mas ele só registrou o que se referia à cocaína, por considerar esse hábito como responsável pela alienação da paciente. Quando perguntada sobre sua relação com o entorpecente, a paciente ofereceu sua versão sobre o raio de sol que se dirigia a ela através de sua língua materna.
Os redatores do jornal A Rua, por sua vez, não souberam da participação da cocaína nessa história, ou então não atribuíram a crise de Zizi Papillon ao uso da substância. Pode ser, ainda, que a história de amor tenha lhes parecido mais atraente do que a versão da cocainomania para uma matéria de jornal sobre o enlouquecimento de uma famosa bailarina.
A presente apresentação visa divulgar resultados da pesquisa de mestrado que se dedicou ao entendimento de quem eram as pessoas, com quais significados e em quais contextos utilizavam substâncias tóxicas e, particularmente a cocaína, cuja criminalização de seus usos e vendas estava em curso no Brasil e no restante da América Latina durante o início do século XX. As fontes históricas apontam para diversas tramas individuais como a de Zizi Papillon e também para as redes de sociabilidade e sentidos socialmente compartilhados em torno do uso da cocaína e o impacto de sua perseguição para aqueles que a vivenciaram. Semelhanças que iam além do Atlântico e também das fronteiras nacionais da América do Sul.