Print Friendly and PDF



Resumen de ponencia
A Ideia de República e o conceito de democracia na imprensa de oposição da corte entre 1870 e 1880

*Mariana Nunes De Carvalho



Este trabalho tem como objetivo apresentar as ideias de República e o conceito de democracia defendidos e discutidos na imprensa explicitamente de oposição do Rio de Janeiro entre os anos de 1870 e 1880.
Esta década é considerada pela historiografia brasileira o início da crise do regime monarquista brasileiro que culminou com a sua derrubada em 1889, com a proclamação da República. Portanto, este artigo analisa os projetos republicanos e os sentidos das palavras República e Democracia apresentados na imprensa em um momento em que o sistema político e representativo brasileiro começava a entrar em colapso.
Apresentarei o resultado da análise preliminar de quatro jornais com discurso explicitamente oposicionista e republicano que circularam nesta década e que, juntos, são pouco debatidos pela historiografia. São eles: A Republica, O Republicano, A Liberdade e Jornal do Povo: Folha Democrática. Exceto A Republica, os demais praticamente não são discutidos pela historiografia, não aparecendo referência nos principais compendios sobre a imprensa, talvez por possuírem como principal característica a efemeridade. Esses jornais selecionados se opõem ao regime vigente na época, a monarquia, mas circularam em um período em que o debate ainda estava começando. Foi na década seguinte que houve um boom nas publicações republicanas. Juntamente com os projetos republicanos, investigo também as propostas relacionadas aos direitos civis reverberadas nestes jornais, como o debate sobre a abolição da escravidão, cujo processo estava em curso (foi em 1871 que D. Pedro II promulgou a Lei da Livre Útero) eo direito de voto.
Parte-se do pressuposto de que a fala contida nestes periódicos e a ideia de República defendida por estes está diretamente relacionada ao conceito de democracia, além dos de liberalismo e cidadania, aí incluindo o debate sobre a participação política e relações de trabalho. A análise do discurso proferido nestes jornais enfatizará as propostas políticas dos redatores em substituição à monarquia e aprofundará a investigação dos sentidos que estes conceitos ganharam nesse período. Acredita-se que estas expressões tiveram seu sentido ampliado no âmbito das manifestações políticas que marcaram estes anos, uma vez que a sociedade vinha sofrendo mudanças estruturais, oriundas da intensa atividade econômica do período, quando surgiram bancos, indústrias, empresas de navegação a vapor, e o país ia em direção a uma modernização capitalista.
Também observei como o discurso destes jornais se voltava para a figura do Imperador. Parto do pressuposto que a fala não apenas ia contra o Imperador, mas também mas também contra o status quo imperial. A partir da leitura e análise destes periódicos, recupero a linguagem que se falava no Brasil daquele tempo, refutando a ideia de que apenas a linguagem erudita do oitocentos nos chegou através dos impressos. Assim, ditados, expressões populares, até mesmo chulas, que eram elementos da linguagem popular do Brasil do final do século XIX foram conservados nas páginas desses jornais, nos proporcionando a possibilidade de identificar muitas permanências, falares que chegaram até nossos dias, indo além do linguajar cientificista importado que impregnava o discurso na imprensa naquele período.
Longe de ser inovador, o debate sobre as ideias circulantes na década de 1870 foi detectado pelos próprios contemporâneos, que associaram a sua formação à divulgação das novas escolas europeias de pensamento.
Ângela Alonso afirma que a oratória inflamada era uma das características românticas que o movimento intelectual preservou. O estilo dos seus escritos se inspirou, em parte, no tom jacobino e na retórica clássica dos panfletos políticos do Primeiro Reinado e da Regência.
Para a construção deste trabalho, enfatiza-se, como objeto e fonte, o trabalho com periódico (o jornal). Parto do pressuposto da existência de uma dimensão política nas propostas estéticas construídas pelo redator, na medida em que, como produtores de bens simbólicos, eles estão sempre elaborando interpretações da realidade social que tem uma dimensão de diagnóstico e outra de prognóstico com significativo poder de comunicação social. Outro fator para a utilização de tal fonte é considerar o jornal como fonte completa e complexa, uma vez que ali convergiam posições e opiniões diversas e representativas. Também corresponde ao período de formação da grande imprensa nacional.
Para examinar o discurso político implícito nos jornais, utilizo o conceito de linguagem, explicitado por J.G.A. Pocock. Ao lado de Quentin Skinner, Pocock é um importante membro da Escola de Cambridge e ambos contribuíram para a construção de novos paradigmas no campo da História das Ideias e do Pensamento político. Para o autor, a linguagem é entendida como contexto e também permite compreender que o modo pelo qual determinado ato de enunciação é realizado está diretamente relacionado aos moldes do discurso institucionalizado. Segundo esse autor, a linguagem é composta de inúmeros artifícios retóricos, de afetos e de um vocabulário político específico que lhe confere uma identidade própria além da produção de um discurso peculiar. Um outro ponto relevante de seu trabalho diz respeito à criação e difusão de linguagens que, segundo o autor, condicionam-se à autoridade das elites intelectuais. Ele salienta que o historiador deve se preocupar em desvelar linguagens latentes nos textos que tem diante de si, tarefa esta que será posta em prática durante a análise do discurso proferido pelos intelectuais de então.
Outro referencial teórico é Reinhart Koselleck e a sua História dos Conceitos. Segundo SOUZA (2006), a história dos conceitos propõe uma análise das mudanças ocorridas no conteúdo e a utilização dos conceitos para um entendimento mais profundo das transformações históricas de duração mais ampla. Para ele, a história dos conceitos não apenas contribui para a história social, como esta não pode ser praticada sem aquela. Para ele os conceitos não devem ser jamais tomados como um sistema textual autônomo, mas sempre relacionados a uma dada realidade social, um contexto, a serviço da compreensão histórica. Isso significa que todo contexto está imbrincado em um emaranhado de perguntas e respostas, textos / contextos. A palavra pode permanecer a mesma (a tradução do conceito), no entanto, o conteúdo por ela designado altera-se. Isto significa assumir sua variação temporal, por isso mesmo histórica, donde seu caráter único (eirunalig) articulado ao momento de sua utilização. Koselleck também afirma que a história dos conceitos (Begriffsgeschichte) se explica também pelo esforço em compreender o fenômeno da modernidade em sua historicidade própria. O conceito é, ao mesmo tempo, produto e sujeito histórico e deve ser compreendido simultaneamente como fato e indicador, sendo possível perguntar sobre o campo de experiência histórica aberto por qualquer conceito e quais caminhos levaram a sua constituição e embate com outros discursos e linguagens políticas.
Portanto, democracia, cidadania, liberalismo e república são conceitos que atravessam diversos períodos históricos, mas que possuem sentidos distintos, de acordo com o contexto político que estão inseridos. Em síntese, esta apresentação mostrará, a partir da metodologia demonstrada aqui, as ideias de república propostas pelos redatores de tais jornais de oposição, e como o conceito de democracia acompanhava estes projetos, bem como os conceitos de cidadania e liberalismo, e os sentidos que estas palavras apresentavam dentro deste cenário.




......................

* Nunes De Carvalho
Centro de Ciências Sociais. Universidade do Estado do Río de Janeiro - CCS/UERJ. Maracanã, Río de Janeiro, Brasil