A quantidade de festivais pelo mundo têm crescido nas últimas décadas (PEREIRA, 2016). A UNESCO (2015), reconhecendo a capacidade dos festivais como catalisadores do desenvolvimento econômico local, incentiva a coleta de dados e a construção de estatísticas capazes de mensurar os impactos econômicos e socioambientais destes eventos. No Brasil, os esforços neste sentido encontram-se, ainda, em estágio inicial. Atuando sobre esta lacuna, a Rede Brasileira de Festivais de Teatro (RBFT) e o Núcleo de Estudos sobre Economia Criativa e da Cultura (NECCULT-UFRGS) desenvolveram um diagnóstico para o segmento de festivais de teatro no Brasil, base deste trabalho. A pesquisa aqui apresentada enfoca a estruturação de uma cadeia produtiva dos festivais brasileiros de teatro, etapa fundamental para a compreensão da dinâmica econômica do segmento e para a proposição de políticas públicas para o mesmo. A sistematização desta cadeia embasou-se em informações obtidas pela realização de entrevistas semiestruturadas com atores-chave do segmento e na análise de dados obtidos no Sistema de Indicadores para Festivais Nacionais e Internacionais de Teatro do Brasil (RBFT, 2018), primeira iniciativa de mapeamento do segmento no Brasil.
O setor das artes cênicas é frequentemente associado à criação e à reprodução de valores simbólicos. Os festivais de teatro, ao concentrar e disseminar a performance teatral, potencializam e expandem os efeitos da performance teatral, capaz de intensificar a experiência cultural ao gerar interações diretas entre pessoas e símbolos, estimulando a percepção da coletividade e do espaço, e ao entrelaçar diversas expressões culturais. Para além do valor simbólico, os festivais exercem também impacto econômico nos territórios onde ocorrem (UNESCO, 2015): além de engajar profissionais característicos do setor das artes cênicas, movimentam também os fluxos econômicos de setores relacionados à recepção de grupos teatrais e seus materiais técnicos e à participação da comunidade local, atingindo a economia formal e informal dos territórios onde se realizam.
Há diferentes modelos que classificam e balizam a análise da contribuição econômica que advém das atividades e ocupações criativas e/ou culturais, como o modelo dos Círculos Concêntricos (THROSBY, 2008), o modelo proposto pelo DCMS (2016) e o modelo da UNCTAD (2010). Contudo, ainda que muito se tenha falado sobre a cadeia das artes performáticas, pouco se aprofundou sobre os processos, agentes e atividades envolvidas especificamente na realização de um festival de teatro. Por mais que a UNESCO (2009) localize os festivais na etapa de exibição do ciclo cultural, as atividades e relações econômicas sobre as quais os mesmos são construídos não são detalhadas.
É importante mencionar também que a cadeia produtiva dos festivais não pode ser pensada nos mesmos moldes da cadeia produtiva das artes cênicas. No caso desta última, o produto final é o espetáculo ou as apresentações de linguagens artísticas. Ao tomarmos como foco os festivais, os espetáculos e apresentações que os compõem são considerados já prontos, e as etapas necessárias para sua consecução não são necessariamente incluídas, salvo algumas exceções. Isto é: por um lado, a equipe cenotécnica, necessária na cadeia produtiva das artes cênicas, também é necessária para viabilizar a encenação nos festivais; por outro, a equipe de roteiristas não tem relação com a cadeia dos festivais, já que sua participação já está finalizada quando da encenação do espetáculo/apresentação.
No caso brasileiro, a instabilidade provocada pela dificuldade de captação de recursos demanda em diversos momentos a utilização de redes de confiança - entre o festival, seus fornecedores e profissionais envolvidos, incluindo as companhias teatrais e atores participantes – de modo a garantir a realização dos festivais sem o recurso em mãos. Esta incerteza afeta também o próprio modelo organizacional do segmento - tamanho de equipes, acúmulo de funções e/ou tarefas, contratação de agências específicas para realização de atividades como comunicação, entre outros – e o encadeamento das tarefas, levando a realização em rede e, por vezes, simultânea de diferentes etapas, que difere do formato tradicionalmente proposto por Porter (1985), ainda que a interrelação entre diferentes etapas seja abordada pela UNESCO (2009).
Desta forma, para pensar a cadeia produtiva dos festivais de teatro brasileiros, combinamos a lógica organizacional à lógica econômica. Partimos da identificação de três macroprocessos necessários para a realização de um festival de teatro: planejamento (nível estratégico), gestão (nível tático) e produção (nível operacional). Estes três núcleos demarcam a relação das atividades com a entrega do produto cultural, e organizam a visualização das etapas produtivas de forma aproximada à visão tradicional das cadeias produtivas. Fazem parte do planejamento as atividades relacionadas às diretrizes orientadoras do festival e as atividades de longo prazo: a elaboração do projeto artístico, a coordenação geral do festival e a captação de recursos. A gestão inclui as tarefas relacionadas ao médio prazo: a programação do festival e sua administração. No nível operacional, estão as atividades de produção logística, produção técnico-operacional, comunicação, apoio e exibição.
Estas etapas aproximam-se àquelas do ciclo cultural (UNESCO, 2009), reconhecendo as especificidades do segmento. Identificamos como atividades ligadas à criação a elaboração do projeto artístico e a coordenação geral do festival. Como tarefas ligadas à difusão do projeto, estão a comunicação e as atividades formativas voltadas para a comunidade artística e para a comunidade em geral. Já a captação de recursos, a elaboração da programação, a administração do festival, a logística e a produção técnica são identificadas como pertencentes à etapa de produção do festival. Por fim, como atividades ligadas ao consumo, encontram-se a exibição dos espetáculos e apresentações junto ao público e as atividades de apoio, compreendidas como aquelas que envolvem o contato direto com o público, sendo necessárias para a exibição (segurança e bilheteria, por exemplo).
Em um plano teórico, portanto, os festivais iniciam com um projeto artístico, que leva à captação de recursos, que, por sua vez, permite iniciar as atividades de programação, administração e comunicação. As atividades de programação e administração, por sua vez, permitem aquelas atividades temporalmente próximas da execução do festival em si: as de logística, produção técnica, apoio, exibição e atividades formativas. Mas os níveis apontam para outra questão: as tarefas estratégicas e táticas, por mais que tenham início em momentos distintos, acompanham todo o desenvolvimento do festival. Chegou-se, assim, a um modelo de cadeia produtiva para os festivais de teatro composto por 11 etapas, organizadas em um encadeamento temporal que expõe, ainda, os setores da economia indiretamente afetados, e reconhece um processo de retroalimentação após o fim do festival.
Espera-se que a partir da cadeia produtiva desenvolvida possa-se debater a partir da perspectiva econômica a importância e os impactos da realização dos festivais de teatro nos diferentes contextos brasileiros, pensando também em políticas públicas que atendam as demandas e gargalos do segmento. Ademais, acredita-se que este exercício teórico de sistematização da cadeia pode contribuir para estudos e debates sobre o tema também em outros países, principalmente naqueles que compartilhem características sócio-econômicas gerais e demandas específicas do segmento.
REFERÊNCIAS
DEPARTMENT FOR CULTURE MEDIA & SPORTS - DCMS. Creative Industries
Economic Estimates. 2016. Disponível em:
https://assets.publishing.service.gov.uk/government/uploads/system/uploads/attach
ment_data/file/523024/Creative_Industries_Economic_Estimates_January_2016_Upd
ated_201605.pdf. Acesso em: 18 mar. 2018.
PEREIRA. Where the Things Always Happen: Um estudo sobre festivais de música e
desenvolvimento local. 2016. Disponível em:
https://sigarra.up.pt/flup/pt/pub_geral.show_file?pi_gdoc_id=877786. Acesso em: 12
mar. 2018.
PORTER, M. Competitive advantage: creating and sustaining superior performance:
with a new introduction. New York: Free Press, 1985. Acesso em: 6 jun. 2018;
THROSBY, D. The concentric circles model of the cultural industries. Cultural Trends,
vol. 17, n. 3, 2008, p. 147-164. Disponível em:
http://dx.doi.org/10.1080/09548960802361951. Acesso em: 4 mar. 2018.
REDE BRASILEIRA DE FESTIVAIS DE TEATRO - RBFT. Sistema de Indicadores dos Festivais de Teatro Brasileiros (SIFTB). Base de dados online. 2018.
UNCTAD. Relatório de economia criativa. 2010. Disponível em:
http://unctad.org/pt/docs/ditctab20103_pt.pdf. Acesso em: 7 jun. 2018.
UNESCO. Festival Statistics. Key concepts and current practices. Montreal: UNESCO
Institute for Statistics, 2015. Disponível em:
http://uis.unesco.org/sites/default/files/documents/festival-statistics-key-concepts-
and-current-practices-handbook-3-2015-en.pdf. Acesso em: 7 jun. 2018.
UNESCO. The 2009 UNESCO framework for cultural statistics (FCS). Montreal:
UNESCO Institute for Statistics, 2009. Acesso em: 7 jun. 2018.