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Resumen de ponencia
Imaginários geográficos e políticas territoriais entre Argentina, Brasil e França (1960-1980)

*Paulo Roberto De Albuquerque Bomfim



Sabe-se amplamente o quanto geógrafos franceses cruzaram o Atlântico em direção à Argentina e ao Brasil, muitos deles sendo pioneiros docentes nas universidades de ambos os países, percurso que envolvia os interesses das elites sul-americanas (paulista e portenha, sobretudo), grosso modo, em três aspectos. Primeiramente, tal intelligentsia era ávida pela criação ou reestruturação de instituições acadêmicas, também ansiando por apreender as ideias vindas de fora. Costuras diplomáticas foram fundamentais para isso, aliás, atestando um inegável interesse de expansão econômica e comercial francesas pela América Latina (e principalmente pela Ásia e África), finalidade muitas vezes encoberta pelo projeto de difusão cultural como projeto civilizatório. Um segundo aspecto residia na recepção das ideias da geografia francesa – lecionada no Cone Sul por mestres de inegável matriz lablachiana. Num terceiro ponto de vista, soma-se às duas questões anteriores a indagação de como as investigações geográficas desses mestres do lado de lá do Atlântico foram influenciadas pela experiência sul-americana. A reconhecida influência francesa na institucionalização dos primeiros cursos universitários de geografia no Brasil é exemplificada pelos casos de Pierre Monbeig e sua ligação com a Universidade de São Paulo e Pierre Deffontaines, com a antiga Universidade do Distrito Federal (UDF). Pierre Denis dedicou-se também a escrever sobre o Brasil e a Argentina, sendo deveras influente na Univesidad Nacional de Buenos Aires (UBA) e Universidad Nacional de Tucumán (UNT). Em particular, tanto a Universidad Nacional de Cuyo (UNCu/UNCUYO), estabelecida em Mendoza em 1939, como a Universidad del Nordeste (UNNE) (fundada em 1956, em Corrientes), mantiveram sólidos laços com as Universidades de Bordeaux e Toulouse –, nas quais se aperfeiçoaram ou se formaram muitos de seus docentes; sendo Romain Gaignard – nome hoje pouco relembrado em seu país de origem – um nome central nesta relação transoceânica, principalmente a partir da década de 1960. O tempo curto dos processos de formação territorial no Brasil e na Argentina contrastavam sobejamente com a longa sedimentação de (supostas) paisagens culturais europeias. E mais: para nomes como Pierre Monbeig, Pierre Deffontaines, Pierre Gourou etc., a realidade veloz da penetração do capitalismo tardio (ou hipertardio) no território deste continente instigou-os a pensar em novos objetivos de pesquisa ou mesmo em longos programas de estudo. Há, pois, um amplo processo de alteridade na percepção dos olhares franceses sobre o Além-Mar (L’Outre-Mer). No período entre os dois conflitos mundiais, destacava-se nos Congressos Internacionais de Geografia (como os de Paris, 1931, e Amsterdam, 1938) o tema Regiões Tropicais, um mundo – de questionável delimitação geográfica – que despertava interesse entre os geógrafos, sob o enfoque da antiga Geografia Colonial, eurocêntrica e permeada por uma leitura da geografia como saber aplicado aos interesses da metrópole. Se há inegavelmente um fio condutor entre a geografia colonial e a chamada geografia tropical, por outro lado é possível notar mudanças, principalmente após a Segunda Guerra Mundial, quando, nas opiniões de certos comentadores, passou-se a enfatizar o impacto dos europeus sobre as regiões colonizadas – daí o destaque a temas da geografia agrária. Numa época em que a influência de Vidal de La Blache marcara toda uma produção de monografias regionais sobre a França, um autor como Pierre Gourou empreendeu – como questão de método – a perspectiva de estudo do mundo tropical recorrendo frequentemente à influência da geografia médica (uma das mais fortes vias das ciências coloniais, em estreita sintonia com o pensamento de Max Sorre. Ignorada pela geografia colonial, as paisagens tropicais tornam-se objeto de investigação, sendo valorizado o homem como fator geográfico. A geografia tropical seria uma análise das paisagens humanizadas, às quais estariam conectadas ao meio natural, tendo – isso é fundamental – a interposição de um terceiro elemento, a civilização, atestando sua ligação com a família intelectual da Escola dos Anais. É importante destacar uma controvérsia central em relação à Geografia Tropical: a suposta passagem teórico-metodológica das interpretações de corte civilizacional às interpretações terceiro-mundistas, muito características da Geografia Ativa na França e da geografia econômica inglesa, cujas proposições aplicadas relacionam-se com força ao ideário de planejamento territorial no Brasil e na Argentina, para cuja consecução contribuíram também as ideias da CEPAL e de uma geração de geógrafos que tomara contato com a América do Sul a partir do emblemático Congresso Internacional de Geografia realizado em 1956 no Rio de Janeiro. As instituições francesas sempre explicitaram seu interesse não apenas – como supõem certos comentadores da Geografia Tropical – em relação ao outrora mundo colonial, mas certamente em relação à América Latina: a Faculdade de Letras da Universidade de Bordeaux foi sem dúvidas o epicentro, em conjunto com o Instituto da França de Além-Mar e a Sociedade de Geografia Comercial de Bordeaux, das pesquisas em Geografia Tropical, fomentadas por instituições como o Escritório de Pesquisa Científica e Técnica de Além-Mar (ORSTOM), Centro de Estudos de Geografia Tropical (CEGET) e periódicos como os Cahiers d’Outre-Mer, publicados a partir de 1948 (e até hoje existentes). Atestando os interesses econômicos e científicos franceses (poder-se-ia dizer também estadunidenses, criaram-se o CNRS (Centro Nacional de Pesquisa Científica – 1939 – órgão análogo ao CNPq brasileiro – Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, 1951 – e o CONICET argentino – Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas, 1958), o ORSTOM em 1944 (desde 1998, IRD – Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento da França). Por meio das duas instituições francesas, em 1968 foi fundado em Bordeaux o CEGET, na gestão de Pierre Monbeig como Diretor Científico de Ciências Humanas do CNRS, tendo sido o Laboratório, em sua primeira geração de pesquisadores, animado por Monbeig, Gourou e Louis Papy. As páginas dos Cahiers d’Outre-Mer (a partir de 1968 atrelado ao CEGET) testemunham uma ampliação do leque teórico, pouco a pouco voltado para a temática terceiro-mundista, assim como uma ambição de se tornar paulatinamente uma revista francesa voltada para o mundo não-europeu. A inauguração do Centro de Geografia Tropical em 1968 deu-se com um seminário no qual se discutiram, entre geógrafos franceses, brasileiros, portugueses e espanhóis, os problemas metodológicos da divisão regional do Brasil. Autores como Milton Santos, Mariano Zamorano, Pierre Gourou, Pierre Deffontaines, Jean Roche, Romain Gaignard etc. foram colaboradores centrais em artigos e notas críticas sobre Argentina e Brasil, seja antes da criação do CEGET, seja posteriormente (desde 2016 o CEGET está incorporado ao Laboratório Passages, nas Universidades de Bordeaux, Pau e Bordeaux-Montaigne). Se as temáticas sobre África e Ásia são o cerne dos Cahiers, há neles mais de 150 artigos escritos sobre a Argentina – tratada direta ou indiretamente –, com variados recortes, desde a região de Buenos Aires até os Pampas, a Patagônia e a província de Mendoza e temas como industrialização, energia etc. e mais de 250 artigos sobre o Brasil, com destaque para o Nordeste e a Amazônia. Entende-se que a investigação dos escritos dos Cahiers d’Outre-Mer relativos ao Brasil e à Argentina entre 1960 (momento em que se iniciam as alternativas mais consistentes de planejamento econômico e territorial no Brasil e na Argentina) e 1980 (ano em que Pierre Monbeig afasta-se do CEGET e em que o CNRS é reformulado, além de ser uma década de contestação à antiga Geografia Tropical) pode contribuir para a melhor compreensão dessa relação de mão dupla entre os dois lados do Atlântico, tanto no tocante a paulatinas transformações no temário e nos objetivos em tela quanto em relação à sondagem das relações diplomáticas e acadêmicas ente três países.




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* De Albuquerque Bomfim
Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo IFSP. São Paulo, Brasil