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Resumen de ponencia
Fé e voto: disputas e conflitos políticos e religiosos na sociedade brasileira

*Syntia Alves



O número de Igrejas Evangélicas tem se multiplicado intensamente na América Latina, em especial a partir de 1960, tanto na América Central, quanto na América do Sul. Ainda que os pentecostais tenham aumentado de maneira significativa em toda a América, o Brasil é o caso mais expressivo e que chama atenção não apenas pela mudança do caráter religioso da população do país com maior número de católicos no mundo , mas também pelo impacto que essa transição religiosa causa na sociedade e, principalmente, na política do Brasil.
A crescente participação de religiosos de orientação neopentecostal na política brasileira tem chamado especial atenção nos últimos 10 anos. A força adquirida pela união destes parlamentares no Congresso e no Senado brasileiro até ganhou um nome, “Frente Evangélica Parlamentar” (FEP), que vem se destacando por seu aumento numérico, mas especialmente por sua ação na tramitação de projetos no legislativo. Tal cenário político causa espanto por seu ineditismo, principalmente se for lavado em consideração a história da os protestantes no Brasil e também chama atenção quando se observa o importante e atual uso dos meios de comunicação pelos religiosos neopentecostais.
Assim, o presente trabalho busca apresentar um histórico da relação entre religião e política no Brasil, em seguida observa o desenvolvimento do uso dos meios de comunicação pelas Igrejas Evangélicas no Brasil, o aumento de políticos de orientação religiosa política brasileira e suas consequências sócias e políticas deste aumento
O principal objetivo do presente trabalho — que faz parte do Projeto Temático Fapesp “Lideranças Políticas no Brasil: Características e Questões Institucionais” (Neamp – PUC/SP) — é apresentar a pesquisa em fase de finalização que buscou compreender as causas e consequências, políticas e sociais, da ascensão da “bancada evangélica”. Para tanto, será apresentada a análise dos impactos da participação política dos evangélicos no sistema democrático brasileiro, as questões sociais apresentadas nos últimos dez anos e o uso dos meios de comunicação para consolidação de candidaturas e apoio público. O trabalho foi dividido em duas linhas de pesquisa, uma conceitual e histórica e outra baseada em eventos atuais, levantados a partir das articulações políticas, religiosas e sociais, tanto dos membros da Frente Parlamentar Evangélica, quanto de membros da sociedade civil e até grupos de narcotraficantes e outros poderes paralelos que circulam pelo país. Assim, recorreu-se à conceitos das ciências políticas e da sociologia da religião a fim de pensar temas como a laicidade do Estado, democracia, representação e o conceito de secularização. O foco deste estudo é entender a relação entre Religião e Política na atual sociedade brasileira, pensando tanto a questão da representatividade política, quanto as identidades culturais, pensando no conflito entre os grupos evangélicos neopentecostais em ascensão que estão em conflito com grupos afro-brasileiros, movimentos sociais de gênero e direitos LGBT. Para tanto, foi importante levantar as bases políticas e religiosas presentes no Brasil após a proclamação da República a fim de compreender como a moral religiosa, antes católica, sempre esteve presente na política brasileira. Além disso, o trabalho usou os meios de comunicação para verificar o uso dos meios para a consolidação política da Frente Parlamentar Evangélica.
O fortalecimento da “bancada evangélica” é um dado que coloca em cheque a ideia de que o avanço da ciência e de que o conhecimento afastam as instituições políticas das orientações religiosas. Para entender esse fortalecimento político que parece não sair especificamente dos cultos, há a hipótese de que os próprios valores democráticos, como liberdade religiosa e de expressão, abrem espaço para a expansão midiática por parte dos religiosos.
A igreja evangélica tem apresentado importante trabalho na sociedade e usa os meios de comunicação para adquirir visibilidade e assim acaba aumentando a confiabilidade das pessoas na instituição, uma confiança não só na área religiosa, mas também na área política e social. Assuntos que interessam a sociedade encontram respaldo nos políticos de orientação religiosa, como (como a união estável entre pessoas do mesmo sexo), criando na classe evangélica a possibilidade de ser ouvida e representada na política.
Do ponto de vista social, aumento das religiões neopentecostais no Brasil tem apresentado um curioso movimento, pois tem se caracterizado por uma grande participação de pessoas negras, enquanto os terreiros de candomblé e umbanda têm apresentado um interessante aumento de frequentadores brancos. Juntamente com essa alteração nas questões étnico-raciais no que diz respeito às religiões, é importante ter em mente que, no Brasil, as igrejas neopentecostais definiram as religiões de matriz afro-brasileiras como suas grandes inimigas. Em sua cosmogonia, algumas igrejas evangélicas definiram os Orixás (deuses afro-brasileiros) como o demônio e a salvação da alma do fiel cristão estaria diretamente ligada ao afastamento, físico e espiritual, deste mal. Nesse sentido, tem-se observado casos de agressões morais, verbais e físicas que, ainda que venham se agravando, são tratados pela polícia e pela política, como casos isolados.
Assim, o presente trabalho busca mostrar a frequente presença religiosa na política e na sociedade brasileira e como essa presença é assegurada tanto pela estrutura do Estado Democrático, quanto pela população brasileira, que sempre teve nos religiosos importantes líderes políticos e sociais, e não apenas para questões espirituais.




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* Alves
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo PUC-SP. São Paulo, Brasil