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Resumen de ponencia
Adorno e a crítica constelativa do tempo livre

*André Campos Rocha



Este trabalho se insere na tradição do pensamento sociológico alemão, mais especificamente na tradição da teoria crítica da sociedade, pretendendo expor e avaliar as críticas de Theodor Adorno, um dos seus mais proeminentes membros, a perspectiva liberal consumista do lazer e do tempo livre, que o trata meramente como um espaço pretensamente livre das tarefas laborais e dedicado ao consumo privado. Ressaltam-se dois momentos centrais na obra do autor, cada qual enfatizando componentes específicos das reflexões de Adorno sobre o caráter reificante das atividades de lazer e tempo livre no capitalismo tardio, e cujos componentes internos, em sua complexa mobilização de conceitos, formam o que chamo de “crítica constelativa”. Em um primeiro momento, no contexto de sua emigração aos Estados Unidos na década de 30, Adorno se depara, no clima do comercialismo cultural norte-americano, com o promíscuo entrelaçamento entre interesses econômicos e ciências sociais em seu debate com Paul Lazarsfeld e, além disso, com o progressivo poder social dos meios de comunicação de massa, notável sobretudo pela influência de inovações culturais como o rádio. Neste contexto, destaca-se também a utilização do conceito marxiano de “fetiche” como chave interpretativa do modo de recepção dos bens culturais no bojo de sua transformação em mercadoria. Em um segundo momento, nos escritos do pós-guerra, vê-se que as reflexões do autor sobre o tema estarão intimamente relacionadas ao diagnóstico contido na Dialética do Esclarecimento acerca da predominância, no desenvolvimento do capitalismo ocidental, de uma racionalidade de tipo instrumental que estaria na base não só de suas instituições políticas e econômicas mas estenderia sua influência aos processos de socialização e subjetivação dos seres humanos, os quais, lutando por recursos escassos - materiais e simbólicos - no seio de uma ordem social pautada por relações competitivas, agiriam sob uma lógica adaptativa face às relações sociais tais como elas se apresentam, sob a constante ameaça de fracassar e perecer. Trata-se de relacionar este diagnóstico, de matiz eminentemente filosófico, com a caracterização de Adorno de que, ao longo do processo histórico, os nexos sociais entre os homens adquirem uma contextura cada vez mais densa, no seio de uma sociedade dominada pelas relações abstratas de troca, que absorvem tudo aquilo que se pretende alheio à esta lógica. Neste contexto, cada indivíduo adquire uma função específica dentro da estrutura social, surgindo uma complexa e intrincada divisão do trabalho, onde este, como bem observou Marx, converte-se em mera mercadoria (estranho e externo à subjetividade dos trabalhadores) e é diligentemente separado do prazer. Ora, se a caracterização do trabalho enquanto mercadoria é pertinente para Adorno, o prognóstico de que uma ordem social baseada neste princípio tenderia à desintegração (uma recôndita esperança de Marx) foi desmentido historicamente, de modo que Adorno e Horkheimer, baseando-se nos escritos de Friedrich Pollock, utilizam o conceito de “mundo administrado” para designar o fato de que as crises periódicas do capitalismo estariam agora sendo dirimidas pela ação consciente e planejada do Estado e, portanto, os seres humanos estariam condenados à reprodução de suas vidas dentro do sistema em questão. Neste contexto de uma sociedade reificada onde a forma mercadoria já englobou a totalidade do processo de trabalho, operaria uma lógica de dominação na qual ao trabalho rotinizado se oporiam atividades de lazer e tempo livre fúteis e descompromissadas, não raro cooptadas pela indústria cultural, e que operariam, sob o signo do relaxamento e da distração, como imperativos funcionais para recuperar as energias dos sujeitos e reintroduzi-los no processo de trabalho. A reflexão sobre este modo de vida, que aponta para uma separação rígida entre as esferas do trabalho e do lazer, estará presente em várias reflexões de Adorno sobre a cultura no capitalismo tardio (como por exemplo sob a denominação de “abordagem bifásica” em As Estrelas descem à Terra), culminando em sua importante conferência-ensaio tardia sobre o tempo livre [Freizeit].




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* Campos Rocha
Universidade de São Paulo USP. São Paulo, Brasil