Em Conceição do Mato Dentro - MG (CMD), desde 2003, o projeto de mineração nomeado de Complexo Minas-Rio, hoje liderado pela Anglo American, tem refletido em inúmeros impactos socioambientais, como a poluição das águas e a privatização do território, que alteraram o modo de vida tradicional das comunidades locais.Todavia, ao analisar esse processo percebe-se que o problema não se finda na Serra do Espinhaço, tendo em vista a grande quantidade de ocorrência de relatos semelhantes ao longo dos diversos estados brasileiros onde a mineração está presente. Por isso, Conceição do Mato não é só uma, já que as experiências vivenciadas em seu território multiplicam-se, com determinadas singularidades, nas diferentes regiões do país. No entanto, com o intuito de não ocorrer uma simplificação demasiada dessas vivências, aqui nos concentramos em discutir esses impactos somente na cidade mineira.
Não obstante, para analisar esse processo será dialogado, juntamente com os trabalhos de Milton Santos, Rogério Haesbaert e Marcos Saquet, o território de um ponto de vista integrado e como um objeto histórico holístico.em que ele é a síntese de uma relação entre o âmbito local, que é construído a partir de uma coerência interna - não livre de disputas internas - e a lógica global, caracterizada por uma dinâmica do sistema mundial organizado por normas econômicas e políticas. Pretende-se aqui, interpretar o conteúdo dessas obras de maneira complementar, aproveitando em cada autor as temáticas que nos ajudam a interpretar o cenário de Conceição do Mato Dentro-MG. Com essa intenção, de modo resumido, pode-se apreender na obra de Santos, uma abordagem materialista centrada no conceito de espaço geográfico; em Haesbaert, uma argumentação a favor de uma visão integradora ou híbrida entre as dimensões materiais e imateriais do território; e em Saquet, uma abordagem (i)material do território, com destaque para os fatores e processos, políticos, econômicos e culturais.
Compreendido as linhas gerais de nossa definição de território, pretende-se dar conta da posição do Brasil diante dessa dinâmica global, que o define como um Estado exportador de produtos primários, tendo os minerais grande relevância nesse aspecto. O debate que se trata aqui, é, então, acerca do modo como se deu o desenvolvimento brasileiro. Com esse intuito, foram mobilizados conceitos trabalhados pelos teóricos da dependência, que se enquadram em uma perspectiva marxista de análise política e econômica, em especial, os trabalhos de Theotônio dos Santos.
A partir dos conceitos trabalhados por esses autores, tem-se como objetivo geral debater a atividade extrativa mineral no Brasil e seus impactos socioambientais a partir de um estudo de caso do Projeto Minas-Rio e seus efeitos nas comunidades ao redor do município de Conceição do Mato Dentro-MG. Nesse sentido, propõe-se compreender a relação entre o desenvolvimento dependente brasileiro e os impactos socioambientais provocados pelos projetos mineradores realizados no Brasil. Além disso, pretende-se estabelecer quais ações oriundas do Projeto Minas-Rio determinou uma reorganização territorial que contribuiu para o desajuste de uma coerência interna em CMD e, também, compreender se o papel exercido pelos órgãos públicos, atrelados ao Estado brasileiro, responsáveis pela regularização da obra, contribuíram, ou não, para o agravamento dos impactos socioambientais presentes em Conceição do Mato Dentro - MG relacionado ao Projeto Minas-Rio..
Ao analisar essas questões, defende-se como hipótese principal que os impactos socioambientais relacionados ao Projeto Minas-Rio são oriundos da verticalidade de como se deu esse processo e, não obstante, não retrata um cenário isolado, pois esse projeto reflete o modo operacional inerente ao nosso modelo de desenvolvimento dependente que carrega em si um caráter exógeno dissonante da lógica local pois não dialoga com ela. Ao investigar o projeto de mineração instalado no município mineiro, pretende-se, então, localizar e visualizar essa discussão proposta de um ponto de vista mais amplo e global em um plano mais terreno e local, a fim de demonstrar de modo empírico a lógica do desenvolvimento dependente brasileiro em um território físico e como seus impactos vão de encontro ao modo de vida das comunidades locais.