Existem algumas características comuns à expansão dos capitais globalizados sejam eles industriais, financeiros, ligados ao setor de serviços ou ao comercio. O suporte das tecnologias de comunicação e informação, a redistribuição espacial de suas atividades muitas vezes levando a formação de complexas cadeias de valor, organização reticular, mobilidade e seletividade espaciais e, sobretudo, processos internos de gestão crescentemente apoiados na captação, processamento e disponibilização interna e para usos estratégicos de massas enormes de informação. Manuel Castells (2012, p.119) apresenta um resumo bem elaborado sobre essa nova economia mundializada:
Uma nova economia surgiu em escala global no último quartel do século XX. Chamo-a de informacional, global e em rede para identificar suas características fundamentais e diferenciadas e enfatizar sua interligação. É informacional porque a produtividade e a competitividade de unidades ou agentes nessa economia (sejam empresas, regiões ou nações) dependem basicamente de sua capacidade de gerar, processar e aplicar de forma eficiente a informação baseada em conhecimentos. É global porque as principais atividades produtivas, o consumo e a circulação, assim como seus componentes (capital, trabalho, matéria-prima, administração, informação, tecnologia e mercados) estão organizados em escala global. É rede porque, nas novas condições históricas, a produtividade é gerada, e a concorrência é feita em uma rede global de interação entre redes empresariais.
Dentre as novas características da economia mundializada, a seletividade espacial e a mobilidade de que se dotaram diversos tipos de capitais particulares são processos que, associados as ondas de modernização capitalista podem redefinir a inserção de regiões, aglomerações urbanas e cidades na divisão do trabalho. As metamorfoses metropolitanas na América Latina decorrentes desses processos globalizadores foram analisadas por diversos autores, a exemplo de Carlos De Mattos (2010), que demonstrou as modificações qualitativas na organização, funcionamento, morfologia e aparência de grandes aglomerações latino-americanas. Em âmbito mais específico e na escala da materialização desses processos, ou seja, no momento em que se tornam eventos (SANTOS, 2004), assumindo assim uma inserção em um meio construído de uma aglomeração urbana, pode-se argumentar sobre a necessidade de se construir um instrumental analítico capaz de lidar com suas particularidades. Partimos do pressuposto de que, por exemplo, as estratégias e a seletividade espaciais não obedecem aos mesmos critérios se consideramos estas ações em relação a capitais particulares e suas formas próprias de lidar com a reprodução ampliada e requisitos locacionais.
Essa necessidade de um instrumental analítico adequado para tratar questões complexas como essa e suas dimensões escalares diversas exige também que se considere as condições do meio em que se inserem esses processos gerais como ondas de modernização capitalista. As mudanças e metamorfoses nas aglomerações urbanas serão também determinadas pelas estruturas, formas e funções precedentes que serão deslocadas, extintas ou redefinidas.
Desta forma, destaca-se nesse trabalho a analise de alguns capitais mercantis tradicionais dentro da atividade comercial varejista, especialmente um de seus ramos voltado para circulação de produtos alimentícios, os supermercados, em que há eventos bem documentados de inserção em aglomerações urbanas brasileiras não metropolitanas, mas que, em face da chamada metropolização contemporânea (MOURA,2013) ou da metropolização do território (LENCIONI, 2011) apresentam-se como espaços metropolizados. É o caso da aglomeração urbana de Londrina na região norte do estado do Paraná.
Para Moura (2013), além das mutações que ocorrem nas áreas metropolitanas mais antigas e consolidadas que assumem caráter cada vez mais regional, a “metropolização contemporânea” promove a difusão de características metropolitanas em espaços dispersos do território. Desta forma, novas aglomerações assumem, parcialmente, papéis metropolitanos. A coexistência de capitais mercantis varejistas de portes capacidade e escalas de ação bastantes diversificadas, assim como a fragmentação inerente as suas presenças, revelam características fenomênicas do meio construído para as quais pouca atenção se tem dado nos trabalhos que discutem as metamorfoses produzidas materialização de processos da economia globalizada. A síntese entre o novo e o pré-existente, assim como suas formas simultâneas de coesão e fragmentação são entendidas neste trabalho com um aspecto inerente e fundamental da chamada metropolização contemporânea (MOURA, 2013) ou metropolização do território (LENCIONI, 2011).
Do ponto de vista da economia urbana a inserção, a presença e o funcionamento de grandes capitais mercantis globalizados, especialmente no setor supermercadista, a concorrência com redes regionais e a sobrevivência de pequenos capitais, situações analisadas em profundidade por Gomes (2013, 2017) e por Gomes; Oliveira (2014), ensejam demandas especializadas por serviços, formação de força de trabalho altamente qualificada, infraestruturas modernas que constituem requisitos do meio construído para que se mostre capaz de acolher suas topologias. Contudo, como nos lembra Maria Laura Silveira (2015), ao elaborar nossas interpretações sobre a dinâmica das relações entre capitalismo e urbanização é preciso atentar para a prevalência heurística do conceito de território usado (SANTOS; SILVEIRA, 2001) na escala da formação socioespacial, sobre os processos que se manifestam na cidade. A autora afirma também, a necessidade de identificar as variáveis determinantes do período atual e situar com precisão suas manifestações fenomênicas, sendo esta preocupação ainda mais importante quando o meio construído de aglomerações urbanas metropolizadas é parte fundamental do que se pretende compreender e explicar.
A aglomeração urbana de Londrina é constituída pelas áreas urbanas dos municípios de Ibiporã, Londrina, Cambé e Rolândia que se encontram conturbadas e onde existem fluxos pendulares diários de forte intensidade. Em conjunto, esses quatro municípios reúnem aproximadamente 780 mil habitantes (IBGE, 2017) e constituem o núcleo da Região Metropolitana de Londrina, institucionalizada em 1998, cuja população é de pouco mais de 1 milhão de habitantes. Além concentrar a maior parte da população a aglomeração de Londrina reúne a maior parte dos empregos urbanos, dos serviços comercio e industrias. Assim como em outras aglomerações urbanas, em Londrina observa-se a constituição de algumas características metropolitanas e a presença de capitais globalizados. Para analisar o modo especifico como as dinâmicas mais gerais ligadas aos eventos inerentes ao período atual se realizam na aglomeração de Londrina, a exemplo da crescente internacionalização de seu comercio varejista, particularmente o varejo de alimentos – supermercados – propomos neste trabalho não só identificar e discutir a inserção desses capitais globalizados nesse ponto do território, buscando compreender sua racionalidade locacional, como demonstrar que, como parte do processo de metropolização que afeta aglomerações urbanas desse porte, a concentração e a segmentação da economia urbana aprofundada pela presença desses capitais globais, requer a coexistência tensa e, em muitos sentidos, complementar de um varejo local que participa de forma intensa na estruturação e reestruturação constantes do meio construído e da densificação da área construída e dos fluxos que ai se realizam. Partimos nessa análise, da teoria dos circuitos da economia urbana (SANTOS, 1979)
As aglomerações urbanas metropolizadas como a de Londrina, são, assim como as metrópoles nacionais da rede urbana brasileira, locus da concentração de pobres, cuja presença e modo de vida, sustenta ampla gama de pequenos capitais e formas de trabalho que compõem uma diversidade socioespacial que é, a nosso ver, também um atributo do processo de metropolização brasileira. Demonstrar a diversidade socioespacial decorrente dessa fragmentação e coesão tensas, suas relações com o meio construído, com o aumento de suas densidades (técnica e social) de sua fluidez acompanhada de uma rigidez que atua como motor do crescimento físico territorial da aglomeração, representam as contribuições principais deste trabalho.
Referencias
CASTELLS, Manuel. A Sociedade em Rede. 10. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2012.
CLEPS, Geisa Daise Gumiero. Estratégias de reprodução do capital e as novas espacialidades urbanas: o comércio de auto- serviço em Uberlândia – MG. 2005. 312 f. Tese (Doutorado) – Curso de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Estadual Paulista, Instituto de Geociências e Ciências Exatas, Rio Claro (SP), 2005.
DE MATTOS, Carlos A. Globalizacion y metamorfosis metropolitana en América Latina: de la ciudad a lo urbano generalizado. Revista Geografia Norte Grande. n.º 47, 2010, p.81 – 104.
GOMES, Vinicius Biazotto. A coexistência dos circuitos da economia urbana do setor supermercadista em Londrina (PR). 2013. 200 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharelado em Geografia) – Departamento de Geociências da Universidade Estadual de Londrina, Londrina, 2013.
__________. As atividades das grandes empresas do ramo supermercadista e a rede urbana brasileira no período recente. 2017. 507 f. Dissertação de Mestrado. Faculdade de Ciencias e Tecnologia – Departamento de Geografia, Pós-Graduação em Geografia, UNESP, Presidente Prudente, 2017.
GOMES, Vinicius Biazotto.; OLIVEIRA, Edilson Luis. Panorama do setor supermercadista em Londrina (PR) na perspectiva da teoria dos circuitos da economia urbana. Formação (Online). Presidente Prudente, v. 2, n. 21, p. 95-118, 2014.
LENCIONI, Sandra. Referencias analíticas para a discussão da metamorfose metropolitana. IN LENCIONI et.all (orgs). Transformações sócio-territoriais nas metrópoles de Buenos Aires, São Paulo e Sa