O Sul global encontra-se em uma posição geopolítica de subalternidade econômica, política e cultural devido a sua condição histórica de dominados pelo processo de colonização, eixo central de constituição da modernidade. Tal processo de formação colonial impôs historicamente uma série de dilemas para os povos desta região. Após centenas de anos de dominação ainda hoje pesa sobre tais regiões a condição de dependência politica e econômica e a colonialidade sobre as instituições e as práticas sociais. Aparentemente uma série de processos “inconclusos”, promessas não cumpridas de um capitalismo liberal democrático modernizante, pairam na eternidade da sina da América Latina, Ásia, África e Oriente Médio como um castigo de Prometeu, expressado na máxima de André Gunder Frank em “o desenvolvimento do subdesenvolvimento”.
Tal dominação histórica parece ser uma marca esquecida no passado, entretanto, como nos lembram Quijano, Mignolo, Escobar entre outros, tal dominação constituiu-se como fundante e como forma de apagamento tanto dos corpos dominados, o genocídio, quanto em relação a seus saberes e práticas, o que Grosfoguel (2016) caracterizou como epistemicídio, e com isso, o apagamento de suas formas de organização política/social. Esforços na tentativa de modificar a centralidade eurocêntrica do pensamento e de organização da política, tanto nos países que trazem as marcas da colonização quanto nos próprios países europeus, já estão sendo realizadas. Tais sistematizações são positivas na medida em que tem-se tentado construir uma nova genealogia do conhecimento/ação e das práticas partindo da perspectiva desses povos subalternizados e, também por trazerem o debate sobre a constituição do Estado Nacional no Sul Global. Afinal, a formação dos Estados modernos no século XIX abre um importante debate sobre a exclusão dos povos nativos nas estruturas de poder do Estado e na própria sociedade nacional.
Entre aqueles que buscam sistematizar novas formas de conhecimento e uma alternativa para o respeito à distintas nacionalidades temos, por exemplo, Quijano e Batalla que analisam a América Latina. Tais pesquisadores chamam a atenção para o problema da “questão nacional” da América Latina e o seu entrelaçamento com a questão indígena, assim como, sua contraposição ao “problema indígena” formulado pelos Estados e as elites. Batalla (1981) aponta que a formação dos Estados Nacionais espelharam o modelo cultural, politico e econômico das elites dominantes, reproduzindo dinâmicas coloniais assimilacionistas ou fragmentadoras/excludentes frente os “povos índios”. A denominação “índio” surge neste processo de formação “nacional” como uma figura incapaz ou arcaica, imposta como uma categoria homogeneizadora que expressava a dominação entre colonizador x colonizado. Quijano (2005), aponta como os Estados-Nações firmaram-se após o fim da colonização, mas ainda se mantiveram articulados a sociedades coloniais, marcadas pela condição dependente dos países latino americanos. Tal elemento aprofundou a relação de colonialidade como padrão de poder e exclusão das populações não brancas, não permitindo que os próprios ideais liberais e de modernização se expandissem para o resto da população, tratadas como raças inferiores.
Saindo da escala global, de dominação dos colonizadores sob os colonizados e indo para a escala nacional, isto é, analisando os conflitos internos decorrentes dessa herança colonial dentro das nações colonizadas, vale a pena destacar como as estruturas de poder, principalmente na figura no Estado, ainda reproduzem a opressão interna de um povo sobre outro. Na tentativa de solucionar tal problema de exclusão temos distintas análises e propostas teóricas, tanto da academia quanto dos movimentos étnico-territoriais (Escobar, 2014). Por um lado, aparece a defesa de que o problema da exclusão das nações subalternizadas seria minimizada, ou até solucionada, aproveitando as “brechas” do Estado Moderno e inserindo nele representantes de tais movimentos que lutariam para o respeito à diversidade de concepções político-filosóficos, de suas territorialidades. Culminando, portanto, na transformação do Estado Nacional (excludente por natureza), em um Estado Plurinacional, como nos exemplos da Bolívia e Equador, que abarcaria as diversas nacionalidades e, por isso mais disputável.
Por outro lado, existem movimentos étnico-territoriais e intelectuais que, devido a uma leitura de que a opressão e esmagamento de nacionalidades marginais é algo ontológico ao Estado, defendem que a criação de um mundo que respeite a autodeterminação de todos os povos deve-se ocorrer por fora do Estado. Os curdos do norte da Síria, por exemplo abandonaram a “ [...] luta por libertação através da formação de um Estado independente para fomentar a organização de uma sociedade sem Estado” (Comitê de Solidariedade à Resistência Popular Curda de São Paulo, 2016).
Outro emblemático exemplo de movimento que se organiza em uma perspectiva não Estatal, estão os Zapatistas no México. Tendo como centralidade a autonomia, os Zapatistas a entendem como algo a ser conquistado principalmente fora do Estado mexicano. A Junta do Bom Governo responde que entende por autonomia: “[...] não aceitar dinheiro do governo, tomar nossas próprias decisões, eleger livremente nossas autoridades, aprender a resolver nossos problemas e os problemas com os quais não estão de acordo conosco [...]” ( JUNTA, maio 2006, tradução nossa, In. Velásquez, Dolores Camacho, 2016).
Dentro dessa perspectiva e partindo do pressuposto que dentro do sul-global temos conflitos internos e relações de dominação de classe e étnicas vemos como fundamental contribuir para a constituição de uma nova genealogia do pensamento/ação dos subalternizados. Nosso intuito é trazer e problematizar experiências e concepções de governo surgidas dentro de tais países, em especial na América Latina e Oriente Médio. Assim, objetivamos problematizar a concepção de Estado Plurinacional e seus limites no processo de autodeterminação dos povos insurgentes, e, assim relacioná-las com as concepções e experiências de auto-governo e de organização federalista nas experiências dos Zapatistas no México e os Curdos em Rojava, norte da Síria.
A partir dessa análise buscaremos problematizar em que medida as concepções de Estado Plurinacional e Autogoverno são complementares ou opostas e, ainda, se em ambas formas de organização política as nações não hegemônicas tem sua autodeterminação amplamente respeitadas. Existiriam em ambas concepções de organização política a premissa de constituição de “um mundo onde caibam vários mundos” como defendem os Zapatistas, ou em tais formas de organização haveriam uma imposição de uma nacionalidade sobre outra?
Para a elaboração da pesquisa utilizaremos de pesquisa bibliográfica onde recorremos a Quijano, Escobar, Ferreira, Zibechi, Casanova, Batalla, entre outros. Analisaremos a organização federalista dos Curdos em Rojava, onde utilizaremos textos de Proudhon e Bakunin, para compreender a aplicação de tal teoria no território curdo buscaremos as contribuições de Dilar Dirik (militante curda) , Comitê de Solidariedade à Resistência Popular Curda de São Paulo, entre outros. E, igualmente investigaremos a forma de autogoverno dos Zapatista, onde buscaremos autores como Velázquez, Brancaleone, entre outros. Para a construção dos conceitos de território, territorialização e territorialidade utilizaremos Porto-Gonçalves, Escobar e Haesbart.