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Resumen de ponencia
La demora: sobre escolhas trágicas no cinema latino-americano

*Ana Flavia Ferraz



Resumo:
A proposta do trabalho é promover uma discussão acerca da dimensão política no cinema de Rodrigo Plá (diretor|) e Laura Santullo (roteirista) em suas incursões pelas narrativas trágicas contemporâneas. Através da sua obra La demora, refletiremos sobre a tragicidade em seu cinema, fruto de conflitos gerados nas relações inter-humanas e intersociais, tendo como chaves de análise Williams (2002) e Eagleton (2013).

Resumo Expandido:

Lançado em 2012, La demora, é baseado no conto La espera, da escritora e roteirista Laura Santullo. É inverno em Montevideo. María (Roxana Blanco) vive em um apartamento com seus três filhos e o pai, Agustín (Carlos Vallarino), que já mostra as marcas do envelhecimento. Sustenta sozinha a casa. Vive em condições tão difíceis que a levarão a tomar uma trágica decisão.
Não obstante algumas reflexões em torno da finitude da tragédia pós-era cristã, concordamos com a perspectiva de Williams (2002) de que as tragédias não são apenas atuais, mas se apresentam na atualidade em sua forma mais trágica. Senão vejamos: onde está o senso de justiça nas tragédias contemporâneas, sempre presentes nas obras dos poetas áticos? Qual o métron ultrapassado pelo herói trágico contemporâneo, tão facilmente identificado nas tragédias gregas? Quem acompanha o herói trágico contemporâneo em sua dor? Quem o acolhe? Que forças opressivas o levam ao seu destino trágico?
A resistência do sentido trágico demonstra a possibilidade de sua existência no mundo contemporâneo, e, por isso, a importância de sua análise na obra de arte, visto que é por meio das expressões artísticas que os sujeitos criam formas poéticas para traduzir seu mundo particular. Por entendermos que as narrativas trágicas persistem na arte atual, o presente trabalho pretende analisar de que forma elas se revelam no cinema contemporâneo, tendo como objeto o filme La demora, de Rodrigo Plá (diretor) e Laura Santullo (roteirista).
Há quem defenda que a condição de existência das tragédias se encontra na reação de dor e piedade que provocam, aproximando-a de uma análise de recepção; há quem encontre sua especificidade no reconhecimento do herói diante de sua desmedida e de seu infortúnio; há quem defenda a inevitabilidade do destino trágico e a intervenção divina como essências trágicas; há, ainda, quem sustente a inadequação de que a dor de um comum reivindique-se como trágica. De fato, cada uma dessas características pode ser encontrada em várias das tragédias áticas, mas nenhuma é condição de todas. Até a peripécia, mudança drástica e inesperada das circunstâncias, não é uma característica universal. Existem mesmo tragédias estáveis, uma espécie de condição crônica da dor, uma forma sombria e absoluta de persistência de determinadas condições, uma “crise permanente”, um “clímax trágico da vida cotidiana” (EAGLETON, 2013, p. 36), ainda mais intolerável por sua natureza permanente.
A temática da obra do casal uruguaio, aponta para a dimensão crônica do trágico e, ao mesmo tempo, reflete uma escolha política, questão que iremos tratar no presente trabalho, através do reconhecimento da tragicidade na arte contemporânea e como ela vem se apresentando em uma face ainda mais cruel, pois provocada pelo próprio homem e, por isso, geradora de uma dor trágica sempre acompanhada da injustiça, da falta de oportunidade de negociação e do abandono.
Para Williams, como “o sentido trágico é sempre cultural e historicamente considerado” (2002, p. 77), novas relações e novos vínculos vão se estabelecendo entre nossos sofrimentos e a tragédia. Como não deve haver uma causa trágica estanque e sim contínua, “deveríamos ver nessas variações não tanto um obstáculo para que se descubra uma única causa ou emoção trágica, mas uma indicação da enorme importância cultural da tragédia como uma forma de arte”. A tragédia sempre será o eterno conflito entre o indivíduo e as forças que o aniquilam. O importante, portanto, é discutir que forças se apresentam nas tragédias atuais.

Bibliografia:
EAGLETON, Terry. Doce violência: a ideia do trágico. São Paulo: Editora Unesp, 2013.
KOSIK, Karel. O século de Grete Samsa: sobre a possibilidade do trágico no nosso tempo. Disponível em: http://www.pgletras.uerj.br/matraga/nrsantigos/matraga8kosik.pdf Acesso em: 09/09/2013.
LESKY, Albin. A tragédia Grega. São Paulo: Perspectiva, 2010.
OLIVEIRA, Luizir. Acerca do Mal-estar na pós-modernidade: Schopenhauer sob a lente de Lars Von Trier. In: EUGÊNIO, João Kennedy; TORRES, Wanderson Lima. Cinema e mal-estar na civilização. São Paulo: Editora Max Limonad, 2015.
WILLIAMS, Raymond. Tragédia moderna. Tradução: Betina Bischof. São Paulo: Cosac & Naify, 2002.




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* Ferraz
UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS UFAL. Maceió, Brasil