A apresentação que se pretende realizar tem por objetivo geral identificar as características principais do regionalismo autonomista surgido na América Latina e no Caribe nos anos 2000 (ALBA, UNASUL, CELAC) e contribuir para uma compreensão crítica das tendências e processos de integração regional em curso na América Latina e no Caribe. Este regionalismo, articulado pelos governos progressistas eleitos em países-chave da região, foi o resultado de um exercício de maior autonomia frente aos países centrais do sistema mundial, por meio da priorização da integração regional dentro de suas estratégias de inserção internacional, com a intenção de colocá-la a serviço dos projetos nacionais em marcha e de dotá-la de novos princípios e conteúdos, bem como de ampliar o espectro de atores sociais que se favoreciam do esforço de integração, para além das grandes empresas, beneficiárias tradicionais do regionalismo neoliberal. Nesse sentido, as experiências de integração citadas inovaram ao incorporar em sua agenda temas de natureza eminentemente geopolítica, social e mesmo identitária.
Suas expectativas chocaram-se, no entanto, com a permanência de expressões do regionalismo neoliberal, como a Aliança do Pacífico, e com a manutenção da hegemonia estadunidense e de seus projetos associados à região. Além disso, as mudanças políticas vivenciadas recentemente por diferentes países da região, conjugadas à estrutura eminentemente intergovernamental dos organismos regionais citados, colocaram em destaque o questionamento a respeito de se as mudanças de posição política implicaram em modificações ou até mesmo no abandono destes projetos regionais, levando a uma reconfiguração da integração subordinada, o maior risco que enfrenta a integração autonomista na América Latina e no Caribe.
Essas mudanças que se impõem sobre a integração autonomista estão relacionadas à reação neoliberal, por parte do imperialismo e das burguesias dependentes, às políticas autonomistas implantadas pelos governos progressistas. Esse novo protagonismo das forças da direita conservadora tende a aprofundar os conflitos sociais e as contradições do padrão de acumulação neoliberal. A ofensiva neoliberal incide sobre os processos de integração tanto para reordenar suas prioridades quanto para desarticular seus avanços, já que a ascensão da direita conservadora parece levar a um retorno da antiga prioridade dada às alianças externas com os Estados Unidos e a União Europeia.
O principal desafio que se interpõe a tais interesses de pesquisa tem a ver com a relativa obsolescência das categorias de análise tradicionais sobre os regionalismos latino-americanos, em geral importadas da Europa e dos Estados Unidos, centradas na dimensão comercial da integração e no debate relacionado sobre “protecionismo versus abertura”. Para contornar tais limitações, propõem-se um debate teórico que busca resgatar a teoria da autonomia, incorporando-a a uma abordagem baseada nas novas contribuições da geopolítica crítica.
A teoria da autonomia, tributária do pensamento cepalino sobre o desenvolvimento periférico, surgiu nas décadas de 1970 e 1980, tendo como expoentes o brasileiro Hélio Jaguaribe e o argentino Juan Carlos Puig. A produção intelectual destes autores contribuiu para o desenvolvimento das análises sobre a inserção latino-americana no sistema internacional, sobre a assimetria existente na relação entre a região e os Estados Unidos e sobre a importância de considerar a integração regional como parte das estratégias de desenvolvimento dos Estados latino-americanos.
A geopolítica crítica e suas implicações para a América Latina e o Caribe, por sua vez, tem sido objeto de trabalhos recentes do mexicano Jaime Preciado e do espanhol Heriberto Cairo, que argumentam que as representações espaciais tradicionais sobre a região são eurocêntricas e fortalecem sua posição subordinada e dependente em relação ao sistema-mundo. Os blocos regionais autonomistas podem ser considerados, nesse sentido, como produtores de espacialidades que demandam maior autonomia da região frente aos processos do centro do sistema-mundo e, portanto, como prática espacial contra-hegemônica.
Em resumo, interessa analisar o potencial autonômico que a integração latino-americana e caribenha pode ter, principalmente quando reivindicada como epistemologia do sul, desde um pensamento crítico original, aberto a incluir no debate sobre a identidade latino-americana e suas políticas de integração temas como o meio ambiente, os direitos das minorias, os Estados plurinacionais, os aportes indígenas e a democracia comunitária, entre outros.