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Resumen de ponencia
Notas sobre a juventude brasileira: censos, consensos e dissensos

*Valdirene Alves De Oliveira



Frigotto (2004) discute acerca da juventude brasileira e, embora não seja um estudo voltado para o ensino médio, apresenta elementos que colaboram com a análise dos dados sobre idade, distorção idade série, evasão, dentre outros, pois o autor correlacionou “as políticas públicas de caráter emergencial ou conjuntural e as de natureza estrutural em face da problemática dos jovens em sua relação com o mundo do trabalho e da educação” (p.184).
Em tal estudo Frigotto apresenta dados do Censo de 2000. O presente texto apresenta um levantamento semelhante ao de Frigotto, junto aos dados do Censo de 2010, para contemplar a temática juventude brasileira em um intervalo de dez anos. Tal atualização permitiu seguir o entendimento que o autor desenvolveu no seu texto e, de certo modo, possibilitou uma comparação entre os dois Censos. Tal tarefa foi realizada com algumas expectativas audaciosas: verificar se houve e quais foram as mudanças para a juventude brasileira no decorrer de uma década, inferir se as políticas educacionais para a juventude nesse período contemplaram questões conjunturais ou emergenciais, vislumbrar alguns desdobramentos nas/das ações governamentais nos anos subsequentes, averiguar se é possível apreender a perspectiva de juventude mais representativa que perpassou a elaboração das políticas durante o período em estudo e quais correlações podem ser estabelecidas com as políticas educacionais para o ensino médio.
A caracterização da juventude brasileira em 2010, por situação de munícipios, por exemplo, ratifica o cenário posto no Censo de 2000, quanto à fragilidade de políticas que atendam adequadamente a população rural. As ações do governo federal, voltadas para esse segmento no período de 2000 a 2010 não promoveram mudanças na tendência de diminuição da população jovem do campo. Assim, muitos fatores podem ser elencados e correlacionados frente aos dados que Frigotto (2004) sistematizou e analisou.
Em todas as faixas etárias houve uma redução no número de jovens residentes no campo, mas em especial entre os que se encontram entre 15 e 24 anos. Nesse segmento houve um aumento no número total de jovens (urbano e rural) e ainda assim o número de residentes no campo foi inferior ao Censo de 2000. Enquanto que no segmento etário de 15 a 19 anos o número total de jovens reduziu - isso pode ser percebido tanto em domicílios urbanos ou rurais – mas permaneceu a redução no número de moradores do segmento rural. A faixa etária de 20 a 24 anos seguiu a mesma tendência de redução no número de jovens residentes no campo, comparados com os demais grupos etários e com os Censos de 2000 e 2010.
O detalhamento dos dados sobre escolaridade no Censo 2010, além de possibilitar a comparação com os dados de 2000, permite evidenciar alguns aspectos. Apesar de acréscimos importantes nos números da educação superior, a demanda considerável por escolaridade básica, no ensino fundamental, foi expressiva pois a alfabetização na modalidade Educação de Jovens e Adultos (EJA) cresceu significativamente em 2010.
As informações pormenorizadas do Censo 2010 apontam que a maior parte desse público é composta por jovens entre 15 e 19 anos, ao passo que o número total de jovens nessa faixa etária reduziu, conforme os dados de 2000 e de 2010. Essa observação sustenta alguns questionamentos: De onde advém, portanto, esses sujeitos que compõem a alfabetização/EJA? Seriam jovens do campo que migraram para a cidade? Se for esse público, a migração ocorreu para ter acesso à escola? Qual a composição desse grupo (gênero, cor, raça,)?
Na educação superior praticamente duplicou o número de jovens nos segmentos de 15 a 19 anos (mesmo com a redução desse grupo etário, no Censo de 2010 em comparação com o Censo de 2000) e de 20 a 24 anos. De 2000 para 2010 o número de jovens na Pós-Graduação (Mestrado e Doutorado) dobrou. Aliás, no Censo de 2000 não constava nenhum jovem entre 15 e 19 anos com mestrado e/ou doutorado. Já no Censo de 2010 o cômputo foi separado e constam mais de dois mil jovens com mestrado e outros 552 com doutorado. Para além de comemorar o incremento no número de jovens com educação superior e galgando espaços na Pós-Graduação Stricto Sensu - assim como se considera relevante discutir o número considerável de Jovens de 15 a 19 anos na alfabetização/EJA - há que se questionar a origem social desses jovens: situação de domicílio, gênero, raça, classe entre os que conseguiram chegar ao topo da escolarização brasileira no decorrer de uma década.
Mediante as inferências que a leitura de Frigotto (2004) proporciona, alguns dados dos Censos de 2000 e 2010 são passíveis de observações quanto à juventude brasileira, por exemplo, sobre o trabalho. Antunes (2008) reitera o caráter constitutivo do ser social e ressalta que a vida humana se produz e se reproduz mediante o viés ontológico do trabalho. No Brasil, por questões estruturais, crianças e jovens, muitas vezes, são impulsionados para o trabalho precocemente. A vertente de constituição do sujeito, contudo, nessa relação como trabalho tem se realizado em condições de subordinação e precarização do trabalhador.
Em países de capitalismo periférico o trabalho precoce e a ausência de condições de trabalho digno são problemas expressivos. No Brasil, o número de brasileiros de 10 a 17 anos com ocupação é significativo e inquietante e mais uma vez instigam questionamentos: Quem são? Onde estão (campo ou cidade)? O que fazem? Estão na escola? Como vêem a escola? Como a escola os vêem? Como as políticas públicas para a juventude e as políticas educacionais têm visto esses jovens? Por outro lado, o que revela a redução nos índices de 2000 para 2010? É possível inferir que seriam desdobramentos de algumas ações governamentais, oriundas de políticas públicas? Indicam avanços no enfrentamento das questões estruturais ou não?
Discutir juventude no Brasil exige que sejam contemplados alguns aspectos, pois, conforme Frigotto (2004): “o tema do trabalho precoce e da educação dos jovens é fecundo para elucidar a contradição inerente ao sistema capitalista” (p.194). Assim, se não é aceitável que o trabalho infantil se perpetue, também é questionável as razões pelas quais algumas instâncias formativas, como a escola, se dedicam à formação de valores e aquisição de conhecimentos pertinentes ao capital.
Bajoit e Franssen (1997) tecem considerações importantes sobre a juventude, trabalho e mercado de trabalho e evidenciam, mediante uma pesquisa de campo realizada na França, que o emprego e o desemprego da juventude têm uma relação com a origem de classe. A configuração de cada modelo (desemprego moratório, desemprego postergado, desemprego total) se desdobra em formatos de sociabilidade juvenil.

Referências
BAJOIT, Guy; FRANSSEN, Abraham. O trabalho, busca de sentido. In: PERALVA, A.; SPOSITO, M. P. (orgs.) Juventude e Contemporaneidade. Revista Brasileira de Educação. ANPED. Rio de Janeiro, n. 5/6, 1997.

FRIGOTTO, Gaudêncio; CIAVATTA, Maria. A busca de articulação entre trabalho, ciência e cultura no ensino médio. In: Ensino Médio: ciência, cultura e trabalho. Brasília: MEC/SEMTEC, 2004.

IBGE. Censo Demográfico – 2010: Características da população e dos domicílios. Resultados do universo. Rio de Janeiro: IBGE, 2011. Disponível em: . Acesso em: ago. 2013.





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* Alves De Oliveira
Universidade Estadual de Goiás UEG. Inhumas, Brasil