Print Friendly and PDF



Resumen de ponencia
Profilaxia Pré-Exposição ao HIV no contexto do processo de individualização e saúde

*Roberto Rubem Silva-Brandao



A Profilaxia Pré-exposição ao HIV (PrEP) é uma nova estratégia de prevenção na qual os indivíduos consomem uma combinação de antirretrovirais diariamente para evitar a aquisição do vírus da Aids. Trata-se de uma recente tecnologia no contexto da prevenção combinada, que visa reduzir novas infecções a partir da ação individual. O objetivo deste estudo foi compreender, a partir da experiência dos usuários de PrEP, a produção do processo de individualização e saúde no atual contexto de quimioprofilaxias ao HIV. Adotou-se o marco teórico do processo de individualização nas sociedades contemporâneas, com maior ênfase nas suas implicações no contexto da Sociedade de Risco. Analisou-se o conteúdo de discussões de um grupo virtual de usuários de PrEP e de pessoas interessadas no assunto no Facebook, o PrEP Facts: rethinking HIV Prevention and Sex. O grupo é composto predominantemente por gays, bissexuais e outros homens que fazem sexo com homens dos Estados Unidos da América.
Os resultados e discussão apontam, primeiro, para a presença de conflitos derivados da experiência individual, que não são apenas efeitos nocivos do ponto de vista técnico da ação médica, mas dos efeitos sociais e políticos que comprometem a autonomia, a ação política e a capacidade de objetivação dos problemas pelos indivíduos. Discute-se a produção de riscos invisíveis, como as falhas medicamentosas e a relação com a depressão, ansiedade, solidão e à aquisição de outras Infeções Sexualmente Transmissíveis (IST) na vida dos usuários. Observa-se, também, conflitos com a "certeza" de eficácia da PrEP, na qual os indivíduos percorrem uma trajetória própria para uma comprovação individual da eficácia. Nesse sentido, os dilemas da Sociedade de Risco se entrelaçam com a individualização de tal forma que processos subjetivos e reflexivos são altamente produzidos e (auto)confrontados pelos indivíduos. Nesse processo, os usuários constroem trajetórias autobiográficas que os conformam como empreendedores de si mesmos, que se utilizam do conhecimento técnico-científico e médico para realizar o “controle sobre suas trajetórias de vida referentes à prevenção ao HIV”.

Uma segunda dimensão discutida refere-se à produção de desejos e prazeres sexuais a partir da experiência do uso da PrEP; tensões entre as noções de sexo natural e não-natural emergem e influenciadas, simultaneamente, pelo desejo do sexo sem preservativo, a presença de outras IST e a percepção de intimidade dos indivíduos. O sexo bareback é, conceitualmente e politicamente, tensionado centralmente: de uma população de outlaws, anterior à difusão dos antirretrovirais, passa a ser praticado por indivíduos disciplinados pelo conhecimento médico. Dessa forma, os usuários de PrEP perdem o horizonte do contágio pelo HIV e se “libertam” para a exploração do desejo e do prazer sexual. Nesse sentido, fazem uso de um plexo quimioprofilático para realce e desempenho sexual: uso de antibióticos preventivos para IST bacterianas, outras combinações de antirretrovirais para prevenção, Viagra, drogas estimulantes, interferindo na desinibição sexual. Nesse contexto, os indivíduos vivenciam uma supervalorização da dimensão subjetiva, de tal forma que em alguns casos “exploram a si mesmos” sem qualquer coação externa, na busca pela positividade e prazer, numa lógica de transparência total dos desejos e repetição.

A terceira dimensão analisada foi a produção de identidades na individualização contemporânea. Termos como revolução, club, liberdade, autonomia, PrEPster, PrEPwarrior, empoderamento, orgulho, comunidade emergem como expressões identitárias do processo de individualização social. Utilizando-se de uma abordagem relacional e situacional, os indivíduos definem uma alta carga de subjetividades em termos corporais e biomédicos e a esfera pública e privada colabam-se no exercício de seus interesses particulares e políticos. A disputas na vida cotidiana, em grande medida, recaem-se sob o indivíduo consigo mesmo, que almeja melhoramentos na dimensão sexual, retomando o controle sexual de suas vidas, interferindo na compreensão de quem é o “inimigo” ou as forças que os interpelam nesse processo. Nesse sentido, o desejo individual não deve ser constrangido, enquanto problemas centrais da epidemia de HIV/AIDS, como estigma, discriminação e o "outro", secundarizam-se nas preocupações dos usuários.

As considerações finais, por fim, refletem sobre as implicações às repostas sociais e políticas à epidemia de HIV/AIDS no atual contexto de quimioprofilaxias. Entre elas, defende-se um profundo esforço de autocrítica que o campo da saúde deve desenvolver sobre suas recentes produções tecnológicas para a prevenção, sobretudo no que se refere às suas consequências sociais. Salienta-se a radicalização da oferta de estratégias biomédicas em detrimentos de respostas sociais e políticas para o enfrentamento da epidemia, de tal forma que novos conceitos e análises sobre o tema no campo das ciências sociais e saúde devem ser desenvolvidos (e revisitados) com o esforço compreensivo e explicativo das atuais mudanças sociais contemporâneas na epidemia de HIV/AIDS. Nesse sentido, mais estudos que explorem as dimensões sociais e políticas no atual contexto de prevenções quimioprofiláticas devem ser desenvolvidos para, também, tencionar as produções estritamente clínico-epidemiológica que são predominantes no campo da sáude.




......................

* Silva-Brandao
Universidade de São Paulo USP. São Paulo, Brasil