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Resumen de ponencia
Determinantes da alocação domiciliar do tempo dos jovens entre trabalho, estudo e lazer no estado de Minas Gerais (Brasil).

*Luiz Eduardo Rocha



O presente resumo descreve resultados parciais de pesquisa em andamento, que, em síntese, procura avaliar a evolução do efeito da origem socioeconômica e territorial na alocação do tempo e nas mobilidades ocupacional e educacional dos jovens do estado de Minas Gerais, buscando responder à pergunta sobre o que mudou no estado nos últimos vinte anos no que diz respeito à inserção dos jovens no mercado de trabalho. Os resultados presentes no resumo referem-se basicamente aos determinantes da alocação do tempo dos jovens entre trabalho, estudo e lazer no ano de 2010.
Nas últimas décadas, em decorrência dos avanços tecnológicos, da economia da informação e da globalização, o mercado de trabalho vem apresentando profundas mudanças estruturais que resultaram em sua nova conformação, onde as relações entre empregadores e trabalhadores se tornaram mais desiguais e flexíveis. Essas mudanças, condicionadas pelas particularidades territoriais, pelas características socioeconômicas e pela estrutura educacional, alteraram a forma de inserção dos jovens no mercado de trabalho e a mobilidade social em relação às gerações anteriores. Dentro deste contexto, a pesquisa, utilizando os microdados dos censos de 1991, 2000 e 2010, pretende, primeiramente, a partir do arcabouço teórico neoclássico da oferta de trabalho, analisar para o estado de Minas Gerais os determinantes das decisões domiciliares na alocação do tempo dos jovens, com idade entre 15 e 25 anos, entre lazer, estudo e trabalho. Em seguida, a pesquisa, com base no arcabouço teórico da desigualdade de oportunidade, pretende analisar a mobilidade social dos jovens, verificando a mobilidade educacional, através da comparação do nível educacional obtido pelos jovens em contraponto ao de sua família de origem e, também, a mobilidade ocupacional, a partir da comparação do estrato ocupacional dos jovens com o de seus pais. Levando em conta a heterogeneidade socioeconômica e territorial do estado de Minas Gerais, essas análises serão desagregadas para as mesorregiões, municípios e grupos populacionais específicos, considerando as diferenças de gênero e raça, permitindo verificar a estrutura da discriminação ao longo do tempo e, através da Analise Exploratória de Dados Espaciais (AEDE), o padrão espacial da alocação do tempo e da mobilidade educacional e ocupacional dos jovens no estado. A pesquisa pretende subsidiar diagnósticos que possam contribuir para estabelecimento de políticas voltadas para a inserção dos jovens no mercado de trabalho “decente”.
O Estado de Minas Gerais, localizado na região sudeste do Brasil, constituído por 853 municípios, é caracterizado por sua diversidade econômica, cultural e territorial. Segundo o Censo Demográfico, em 2010, o estado tinha 19,5 milhões de habitantes, sendo que deste total, 3,78 milhões de jovens com idade entre 15 e 25 anos. Apesar do aumento considerável, nas últimas décadas, da oferta de vagas nos ensinos básico e superior e do aquecimento da atividade econômica no país, com aumento da remuneração dos rendimentos do trabalho, principalmente no setor de serviços, no período de coleta dos dados da pesquisa, 19,6%, ou seja, 740 mil jovens, não exerciam nenhuma atividade, nem estudavam e nem trabalhavam. Os outros 37,6% apenas trabalhavam, 15,1% conciliavam o estudo com o trabalho, e os restantes 27,7% dos jovens apenas trabalhavam.
Dentro deste contexto, utilizando os dados censitários de 2010 e a partir de uma nova proposta metodológica para a delimitação dos territórios rural e urbano do estado, o estudo se propõe a analisar os determinantes da alocação do tempo dos jovens entre estudo e trabalho, assumindo a hipótese que essa alocação é uma decisão da família, condicionada por características socioeconômicas e regionais, que tem como fundamentação a maximização dos seus benefícios em um contexto intertemporal. Através do modelo econométrico logit multinomial, onde estimou-se a razão relativa de riscos (RRR), foi possível analisar a influência das características pessoais dos jovens, dos domicílios, dos setores de atividade e das regiões rural e urbana na probabilidade de dos jovens pertencerem aos quatro possíveis estratos de alocação do tempo entre trabalho, estudo e lazer. Além dessas estimações, foram realizadas também simulações do impacto da estrutura da distribuição da renda per capita domiciliar líquida, considerando as diferenças territoriais, sobre a probabilidade das escolhas na alocação do tempo.
A estimação do logit multinomial, para uma amostra de 477.259 observações, considerou as escolhas não estudar e nem trabalhar (NENT), apenas estudar (ENT) e conciliar o estudo com o trabalhar (ET) relativamente à alternativa apenas trabalhar (NET), apresentando, em termos, globais um bom ajustamento, tendo em vista que o Pseudo R2 apresentou valor maior que zero, 0,1964. Considerando, ainda, a observação da Prob > chi2 e pelo teste da razão de verossimilhança, cuja a hipótese nula é de que todos os coeficientes associados às variáveis explicativas são nulos, podemos concluir que o modelo é globalmente significativo. Visando simplificar a sua interpretação, a razão relativa de risco (RRR) pode ser convertida em incremento percentual, fornecendo, em função de variações nas características dos indivíduos, a probabilidade da mudança da categoria base para a categoria analisada.
Em síntese, as estimações econométricas demonstraram que o aumento da idade, ser branco, ter renda per capita domiciliar acima do primeiro décimo da distribuição, não ter casa própria e ser do sexo masculino, na condição de responsável do domicílio, cônjuge e filho, determinam o decréscimo da probabilidade de os jovens transitarem da categoria base para a opção de nem trabalhar e nem estudar (NENT). Por outro lado, o número de pessoas no domicílio, residir na região urbana e ser do sexo feminino, na condição de responsável, filho e principalmente cônjuge, determinam o aumento da probabilidade de se transitar da categoria base para essa opção. No caso da opção de apenas estudar (ENT), o aumento da probabilidade em relação à categoria base, ocorre para os jovens brancos, com renda no décimo mais rico da distribuição, residentes na região urbana, e ser do sexo feminino, na condição de responsável do domicílio e filho, e do sexo masculino, na condição de filho. Por outro lado, a probabilidade de apenas estudar decresce com o aumento da idade, no caso dos jovens terem renda abaixo do décimo mais rico da distribuição, não ter casa própria, número de pessoas no domicílio e ser homem, na condição de responsável e cônjuge. No caso de conciliar o estudo com o trabalho (ET), de forma semelhante à opção de apenas estudar, a probabilidade aumenta para os jovens brancos, com renda acima do quarto décimo da distribuição, residir na região urbana, ser mulher, na condição de responsável do domicílio e filho, e homem, na condição de filho. A probabilidade decresce para o aumento de idade, para os jovens com renda abaixo do quinto décimo da distribuição, não ter casa própria e ser homem, na condição de responsável do domicílio e cônjuge, e mulher na condição de cônjuge.
Os resultados descritos acima demonstram, segundo a pressuposição inicial da pesquisa, que a influência dos fatores internos e externos dos domicílios na probabilidade da alocação do tempo dos jovens entre as atividades de lazer, estudo e trabalho são múltiplos e complexos. No caso de Minas Gerais, além de verificar-se as condições de vulnerabilidade dos jovens, com cerca de 20% dessa faixa da população sem exercer nenhuma atividade laboral e estudar, as estimações demonstraram a importância dos atributos de gênero, favoráveis aos homens, raça, favoráveis aos brancos, renda, favoráveis aos décimos superiores da distribuição, e território, favorável à região urbana na influência da alocação do tempo dos jovens. Esse quadro demonstra que a estrutura de inserção dos jovens na vida adulta tende a perpetuar a atual situação de desigualdade socioeconômica verificada no país e no estado de Minas Gerais.




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* Rocha
Universidade Federal de São João del-Rei UFSJ. São João del-Rei, Brasil