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Resumen de ponencia
A Organização Revolucionária Marxista-Política Operária e a gênese da Teoria da Dependência no Brasil

*Raphael Lana Seabra



Retomando a literatura de avaliação da controvérsia teórica da dependência é comum encontrar referências que centralizam o Chile como eixo de formação desta nova corrente. Partindo desta centralização é estabelecida uma série de classificações de autores em inúmeras posições/correntes de pensamento, sobretudo, nos trabalhos de língua inglesa. Pela abordagem e reprodução de tais limitações, merecem menção: Dependency: A Critical Synthesis of the Literature de Ronald Chilcote (1974), Development theory in transition. The dependency debate and beyond: third world responses de Magnus Blömstron e Bjor Hettne (1984) Theories of Development. Capitalism, colonialism and dependency de Jorge Larrain (1998) e The Dependency Movement. Scholarship and Politics in Development Studies de Robert A. Packenham (1998). O único esforço honesto e sério em língua inglesa que escapa às reduções encontra-se na delimitação proposta por Cristóbal Kay (1989) de dois campos políticos e intelectuais opostos – reformistas e marxistas –, ainda que não estabeleça todo o itinerário de formação e debate ao redor da temática da dependência, aproxima-se mais de sua realidade histórica. A questão é que a maioria dos esforços de classificação tende a reduzir a formação da teoria da dependência a mero desdobramento acadêmico crítico às teses estruturalistas da Comissão Econômica para América Latina e Caribe (CEPAL). Efeito ainda pior é a tendência a limitar as contribuições à temática em apenas dois autores: Fernando H. Cardoso e André Gunder Frank. A polarização entre duas contribuições atribui, portanto, duas paternidades à teoria da dependência, o que empobrece o alcance teórico da nova corrente. Então, como conceber que, Ruy Mauro Marini, Theotônio dos Santos e Vânia Bambirra, militantes e intelectuais formados no Brasil, em meio à crise do desenvolvimentismo, cujo resultado foi o golpe civil-militar perpetrado contra o governo de João Goulart em 1964, repentinamente “descubram” no Chile a questão da dependência e por intermédio de Cardoso ou Frank?
Ainda que o ambiente chileno seja importante, tal consenso desconsidera ou atribui pouca importância às relações destes intelectuais com o meio político-social brasileiro onde as ideias começam a ser geradas. Sem considerações consistentes do ambiente político-social brasileiro, da crise da hegemonia do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e do nacionalismo do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e do Partido Socialista Brasileiro (PSB), da ebulição de novas concepções sobre a aplicação do marxismo à realidade nacional e do caráter da revolução, nos parece impossível compreender a enorme produtividade dos referidos autores em seu exílio chileno. Assim, a intenção do artigo é lastrear o desenvolvimento das concepções sobre a dependência ainda no calor do embate político no Brasil entre 1959 e 1967. Não há nada de acidental no fato de que a teoria da dependência tenha iniciado seu desenvolvimento no Brasil. Esse fato é evidente se considerarmos que os principais nomes desta corrente sejam brasileiros como Ruy M. Marini, Fernando H. Cardoso, Vânia Bambirra, Theotônio dos Santos, e até mesmo o alemão André Gunder Frank que esteve no país entre 1963 e 1964. Portanto, não seria adequado cindir as origens da teoria marxista da dependência daquelas relativas à formação da Esquerda Revolucionária no Brasil. Portanto, é fundamental buscar algumas destas concepções nas resoluções, diretrizes e no programa político da Organização Revolucionária Marxista Política Operária (Polop), e compará-las aos trabalhos iniciais de Ruy Mauro Marini e Theotônio dos Santos, de modo a indicar tanto a relação recíproca entre os conhecimentos forjados no calor da luta política com aqueles elaborados dentro da universidade, como ao mesmo tempo sugerir que é desta reciprocidade que surgem as bases para sistematizações, refinamentos e avanços posteriores. A releitura dos documentos da Polop é fundamental para a reconstrução da trajetória da vertente marxista da dependência. A forma original com que a organização aplicou o marxismo à realidade brasileira permitiu não apenas acertos políticos bastante precisos sobre a conjuntura dos anos 1960 e o que fazer político, mas também muniu alguns de seus militantes do arsenal teórico-conceitual para sistematizações e elaborações posteriores que foram fundamentais às ciências sociais.




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* Seabra
ELA - Departamento de Estudos Latino-Americanos. Universidade de Brasilia - ELA. Brasília, Brasil