Print Friendly and PDF



Resumen de ponencia
A DIMENSÃO FORMATIVA DAS AÇÕES DE COLETIVOS FEMINISTAS NAS CIDADES DE RECIFE E OLINDA - PERNAMBUCO - BRASIL

*Ana Elizabeth Japiá Mota



A DIMENSÃO FORMATIVA DAS AÇÕES DE COLETIVOS FEMINISTAS NAS CIDADES DE RECIFE E OLINDA (PERNAMBUCO – BRASIL)

INTRODUÇÃO

No decorrer da disciplina “Movimentos Sociais, Identidades e Cidadanias Interculturais”, do curso de mestrado em Educação, Culturas e Identidades, da Universidade Federal Rural de Pernambuco e Fundação Joaquim Nabuco (UFRPE/FUNDAJ), no segundo semestre de 2017, foi proposta uma atividade de pesquisa de campo, a qual realizamos com os colegas de turma Marcelo Batalha e Melina Fraga, em torno de um interesse comum: identificar e analisar as atividades de grupos feministas em atuação nas cidades de Recife e Olinda/PE.
Tomando como referência a definição de movimentos sociais por Maria da Glória Gohn: “[...] ações sociais coletivas de caráter sócio-político e cultural que viabilizam formas distintas de a população se organizar e expressar suas demandas” (GOHN, 2008, apud GOHN, 2011, p.335), e a perspectiva plural do conceito de feminismo(s), iniciamos a etapa exploratória da pesquisa, para identificar, por meio das redes sociais virtuais e portais de notícias, registros de ações promovidas por coletivos feministas em Recife e Olinda.
Optamos por construir uma “colcha de retalhos”, adotando como critério de seleção para os sujeitos de pesquisa a sua representatividade dentro da diversidade dos grupos encontrados, chegando aos seguintes coletivos (textos de apresentação extraídos das respectivas páginas virtuais): 1. Deixa Ela Em Paz: “Coletivo feminista de intervenção urbana que acredita na arte e no ativismo como formas de transformar a realidade cotidiana das mulheres e suas vivências na cidade. Criado em 2015, o coletivo desenvolve intervenções urbanas feministas, ações de formação e ativismo digital, buscando o enfrentamento ao machismo e à discriminação de gênero.” 2. Coletivo Feminista Vaca Profana: “Vaca profana é uma personagem criada pela produtora Dandara Pagu durante o Carnaval de 2015. Desde então ela se multiplica nos dias de momo e o resto do ano ela promove ações voltadas para a defesa da mulher e pelo direito de se ter autonomia sobre seus corpos. Tudo é feito em colaboração com várias outras pessoas.” 3. Coletivo Marcha das Vadias Recife: “Marcha das Vadias Recife é uma manifestação político-artística e feminista que acontece uma vez por ano desde 2011. É organizada pelo Coletivo Marcha das Vadias Recife, coletivo feminista autônomo, auto-organizado, horizontal e apartidário, com perspectiva antissistêmica, anticapitalista, antissexista, antirracista e antiproibicionista.” 4. Comunidade virtual secreta no facebook (nome não revelado a pedido de sua representante-fundadora): “O objetivo desse grupo é empoderar mulheres. Juntas somos mais fortes.”
Para além do objetivo da atividade, de identificar as estratégias de ação desses coletivos na busca por regularidades e singularidades emergentes de suas práticas, a pesquisa levantou dados significativos acerca de vários outros aspectos, tais como: as referências norteadoras de suas ações; as aproximações com a epistemologia feminista; a violência contra a mulher como móvel para a formação desses grupos; além de revelar a dimensão formativa das ações desenvolvidas, tópico pelo qual nos responsabilizamos na análise dos dados coletados em grupo, sendo este o recorte que ora apresentamos.

METODOLOGIA

Foram agendadas entrevistas com representantes dos quatro coletivos selecionados. Construímos um roteiro semi-estruturado para as entrevistas, a partir de diferentes olhares, sem perder de vista a perspectiva democrática da investigação, como aponta Arlene Lage:

O principal instrumento de investigação é, sem dúvida, o olhar do/a próprio/a investigador/a. Todavia, essa autonomia para construir versões sobre a realidade observada necessita, caso se pretenda contemplar o máximo de realidade possível, ser revertida de um nível de dialogicidade com os sujeitos envolvidos, de modo a transformar o olhar unilateral do/a investigador/a, num olhar democrático. (LAGE, 2009, p. 7014)

Orientados por material didático disponibilizado pelos professores da disciplina (SANTANA e ANTUNES, 2017), chegamos aos seguintes pontos norteadores para as entrevistas: 1. Origem; 2. Referências; 3. Demandas; 4. Estrutura; 5. Ações; 6. Dimensão estética; 7. Impactos; 8. Relacionamentos; 9. Desafios; 10. Outras considerações.

O roteiro garantiu a abordagem dos temas por todas as entrevistadas. As entrevistas, com duração média de 45 min., ocorreram face a face, sendo duas por skype, tendo sido gravadas e posteriormente transcritas.
Por meio de análise de conteúdos, as falas foram organizadas em tópicos, cabendo-nos o tema concernente à dimensão formativa das estratégias de ação utilizadas.

DIMENSÃO FORMATIVA

Nas entrevistas foram detalhadas as ações de cada coletivo, sendo também disponibilizados registros, tais como: fotos, vídeos, cartazes, panfletos, agendas. Da análise das descrições de cada prática, levantamos pontos acerca da dimensão formativa dessas ações:

1. A experiência cultural como produção de conhecimento: Mostras artísticas promovidas pelo Coletivo Vaca Profana, com apresentações musicais, exposição de artes visuais, recital de poesia e debates sobre temas feministas com convidadas, realizadas ao longo do ano, tanto para promover o empoderamento feminino, como para arrecadar recursos para a saída do bloco Vaca Profana no Carnaval.

"Resgato, portanto, o sentido de cultura como formação cultural e entendo experiência formativa como sendo necessariamente crítica, de indignação, resistência e emancipação" (ADORNO, 1995, apud KRAMER, 2003, p. 10)

2. As redes sociais virtuais como espaço de trocas de saberes: Na comunidade fechada do facebook, temas diversos relativos ao universo feminino são postos em discussão, recebendo contribuições de mulheres com formações e atuações em várias áreas, enriquecendo o debate, com troca de experiências e informações. Nesse espaço são também divulgados eventos ou mobilizações em torno de questões feministas.

"Na atualidade os principais movimentos sociais atuam por meio de redes sociais, locais, regionais, nacionais e internacionais ou transnacionais, e utilizam-se muito dos novos meios de comunicação e informação, como a internet. Por isso, exercitam o que Habermas denominou de o agir comunicativo. A criação e o desenvolvimento de novos saberes, na atualidade, são também produtos dessa comunicabilidade." (GOHN, 2011)

3. Participação democrática, compartilhamento e multiplicação de saberes: Uma das ações do coletivo Deixa Ela Em Paz compreende a realização de oficinas para preparação de uma intervenção artística urbana com mulheres de outras cidades. Não se trata apenas de levar as técnicas do coletivo, mas também de aprender e construir novas técnicas com as mulheres da comunidade visitada. A intervenção se dá de forma democrática e não precisa ser artista para participar.

"O sujeito que se abre ao mundo e aos outros inaugura com seu gesto a relação dialógica em que se confirma como inquietação e curiosidade, como inconclusão em permanente movimento na História." (FREIRE, 1996, p. 51)

"Porque na luta contra a opressão devem-se usar todas as armas. O teatro e todas as demais artes também são armas. É preciso usá-las! É preciso que o povo as use!" (BOAL, 1989, p. 10).

4. Demandas por conhecimento acerca de questões feministas: O Coletivo Marcha das Vadias Recife realiza debates preparatórios ao longo de meses antes da realização da marcha, que se dá no mês de março. Nos debates são levados temas sugeridos pelas mulheres envolvidas, tais como: a legalização do aborto, relações abusivas, reprodução do machismo nas relações homoafetivas, etc. Esses debates “aquecem” a marcha.

“Uma das premissas básicas a respeito dos movimentos sociais é: são fontes de inovação e matrizes geradoras de saberes” (GOHN, 2011, p. 333)

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A pesquisa de campo realizada, além de proporcionar rica experiência, resultou no levantamento significativo de material: mais de 3 horas de gravação das entrevistas com as representantes de quatro coletivos feministas em atividade nas cidades de Recife e Olinda, no segundo semestre do ano de 2017.
Sobre os achados reconhecemos tratar-se de um material prenhe de dados passíveis de análise, embora aqui tenhamos limitado ao recorte relativo à dimensão formativa de suas práticas.
Esperamos contribuir, por meio dos resultados apresentados, para o encorajamento da luta feminista de outras tantas mulheres.

REFERÊNCIAS

BOAL, Augusto. 200 exercícios e jogos para o ator e não-ator com vontade de dizer algo através do teatro. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 1977.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: Saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
GOHN, Maria da Glória. Movimentos sociais na contemporaneidade. Revista Brasileira de Educação. Rio de Janeiro, v. 16, n. 47, maio-ago, 2011
KRAMER, S. Infância, cultura contemporânea e educação contra a barbárie. In: KRAMER, S.; BAZILIO, L.C. Infância, educação e direitos humanos. São Paulo: Cortez, 2003.
LAGE, Allene. Orientações epistemológicas para pesquisa qualitativa em educação e movimentos sociais. In: LAGE, Allene. Educação e Movimentos Sociais: caminhos para uma pedagogia da luta. Recife: Universitária da UFPE. 2013.
SANTANA, Moisés; ANTUNES, Maurício. Roteiro para observações de campo. Material didático da disciplina Movimentos Sociais, Identidades e Cidadanias Interculturais (Mestrado em Educação Culturas e Identidades). UFRPE/FUNDAJ. Recife, 2017.




......................

* Japiá Mota
Diretoria de Pesquisas Sociais. Ministerio de Educação, Governo Federal. Fundação Joaquim Nabuco - DIPES/FUNDAJ. Apioucos- Recife- PE, Brasil