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Resumen de ponencia
TEU CORPO NÃO É ROSTO: Expressividade facial feminina e sua relação com o culto à juventude na cultura midiática

*Elaine Vidal Oliveira



A proposta fundamental deste estudo versa sobre a expressividade facial e o culto da eternização da juventude, exemplificado nas imagens dos indivíduos na cultura midiática. Aqui, as lentes são voltadas para corpo feminino ao longo da história e na sociedade contemporânea, digital e narcísica. Em uma atualidade cuja corporeidade é midiatizada e milimetricamente controlada, corpos femininos com rugas e marcas da vida são excluídos do espaço publicitário e do espaço público, encaminhados para desempenhar papéis sociais bastante específicos e muitas vezes estereotipados. É apresentado o corpo como um objeto de desejo que se desgasta com o tempo.
Verifica-se que em algumas culturas o corpo todo é rosto e este corpo-rosto é lugar mais humano do sujeito, onde se cristalizam os sentidos de identidade e se estabelece o reconhecimento do outro. Em uma cultura midiática a publicidade se apresenta como a “arte oficial do capitalismo” (HARVEY, 2005, p. 65). Ela é fruto do contexto histórico em que está inserida, não um fenômeno isolado. Observa-se que Os modelos de mulheres apresentados pela publicidade no século XXI em sua maioria ainda propagam o idadismo e a exclusão das marcas do tempo nos rostos midiáticos, tanto na mídia impressa como na mídia eletrônica. As experiências proporcionadas pela passagem do tempo, sucessos, alegrias, fracassos e realizações; amores vividos, filhos nascidos, perdas afetivas, produzem transformações que não ‘deveriam’ estar em seus rostos.
Novas articulações simbólicas são construídas, estereótipos associados ao envelhecimento e aos processos de perdas são incentivados pelos mass media a serem substituídos e guiados pela busca do prazer e satisfação pessoal: resignação ao envelhecimento, desde que o velho seja jovial e disposto a experimentar o que os novos tempos podem lhe oferecer.
Assim, pesquisas que versam sobre a analise deste grupo de mulheres subtraído das capas de revista, anúncios publicitários e da televisão. Portanto, acredito o enquadramento esteja entre Feminismo e Políticas de Gênero, assim como Representações Sociais do Corpo feminino e da Morte na Cultura Midiática” cujos estudos abordam o sujeito capitalista, sua busca paradoxal por congelar o tempo linear, são fundamentais nas discussões de gênero e feminismo.
O corpo na sociedade espetacular é mais exibido do que cuidado. Mais que um desejo, cria-se a necessidade de se mostrar. A cultura ocidental contemporânea, marcada pela perspectiva digital, pelo narcisismo e pelo fetichismo, é o contexto no qual se nota a acentuada erotização midiática do corpo feminino. O apagamento tecnológico do rosto com rugas e do amarrotado da vida reflete o culto da eternização da juventude, fortalece um viver sem expressividade facial e a proliferação do idadismo nas representações midiáticas de mulheres ‘sem’ idade.
Se enquanto ser social o homem só se realiza por sua relação com o outro, nos tempos correntes, em uma realidade pautada em discursos visuais e relações cada vez mais midiatizadas, o homem só se afirma enquanto ser social pelo olhar e pela aceitação do outro e sobretudo quando mediado pela tecnologia. Corpo é poder. Portanto, há uma tendência no sujeito contemporâneo de adotar o corpo como bem simbólico e a beleza física como moeda de troca.
Tendo como principal suporte o corpo feminino, a publicidade diariamente retroalimenta uma cultura digital narcísica. Seduzindo os sentidos do indivíduo com formações imagéticas e simulacros embebidos de Adobe Photoshop, ela comercializa modelos de beleza e corporeidade, desvinculados do olhar e ligados a distorções às vezes grotescas da anatomia humana. Há, portanto, uma espécie de idolatria e supervalorização de imagens comerciais de beleza.
A redundância do tema na mídia atesta a tendência do sujeito pós-moderno de atribuir à beleza física um grande valor social. Tal atitude pode ser considerada reflexo de uma sociedade de imediatismos e fugacidades, que preconiza o belo e “favorece vaidade convulsiva, e a adoração da imagem” (FREITAS, 1999, p. 127). Nela, a imposição do invólucro ressalta como a primeira e mais forte forma de identificação e diferenciação entre os indivíduos e os objetos. Como avalia Strozenberg (1986) a respeito do corpo e da aparência nas relações humanas, “[...] sua beleza é avaliada a partir de modelos coletivamente construídos e individualmente reconhecidos como legítimos” (p. 43).
Ao longo deste artigo verifica-se que o indivíduo contemporâneo busca uma corporeidade midiatizada e milimetricamente controlada. Tenta se enquadrar em ideais comportamentais e físicos propostos pela indústria cultural ADORNO; HORKHEIMER, 1985, p. 115) – diversas vezes contrários àqueles valorizados pelo senso comum e fisicamente irreais.
Segundo Rodrigues (2013), o texto entoado pela comunicação de massa é a negação e ocultação da morte e consequentemente a dissimulação da velhice e do envelhecimento. Propaga-se a ideia do corpo eternamente jovem.
Observamos assim que esta cultura das sensações é a base que sustenta a premissa de que felicidade e corpo são capitais sociais e objetos a serem adquiridos. No âmbito do consumo traça-se uma lógica pela qual, mais que necessários, investimentos pesados na produção da imagem corporal perfeita são deveres de todo ser humano e em especial das mulheres
Neste artigo elege-se uma visão global fundamentada nas teorias sobre sociedade e publicidade de G. Debord e J. Baudrillard, aos estudos da imagem na linha de R. Barthes, as análises tabus do corpo e da morte à luz de J. C. Rodrigues e a reinvenção da velhice e o idadismo de acordo com G. Debert (2012) e G. Castro (2015).
Como fruto da tese de doutorado apresentada ao Programa de Pós Graduação em Comunicação da Puc-Rio - TEU CORPO NÃO É ROSTO: Expressividade Facial e sua relação com o culto à juventude na cultura midiática (2018), o objetivo principal deste artigo é analisar a plausibilidade da seguinte hipótese: a proliferação das imagens sintéticas de mulheres antiidade, a alteração na percepção de beleza, a não aceitação do envelhecimento e o idadismo na publicidade são correlatos à vulgarização da manipulação de imagens por meio de programas de edição entre os anos 1990 e 2000.
“ROSTO E EXTERIORIDADE”
Anatomicamente, a face humana corresponde à parte anterior da cabeça, limitada pelos cabelos e orelhas, formada por músculos, pele, olhos, nariz e boca. Deleuze (1996) observa, entretanto, que o rosto humano não é apenas este invólucro exterior àquele que fala, pensa ou sente, mas uma forma significante de linguagem que guia o ouvinte. Ao falar de Winnicott (1975) comentando o artigo “O estádio do espelho”, de Lacan (1998), Nasio (2009) relembra que o rosto da mãe constitui o primeiro espelho em que a criança descobre sua imagem. Assim, o bebê sente-se existir através da fascinação do olhar e do rosto da mãe.
O que há de comum nas observações destes teóricos é a importância do rosto na construção da identidade e na comunicação com o mundo. Tal importância legitima o fascínio pela face humana, seja no campo da ciência ou da arte. Parafraseando Baudrillard (1991, p.42), em uma cultura não fetichista o corpo todo é rosto: corpo rico de expressão e dotado de olhar; não é obsceno, feito para ser visto nu.
Rosto é sentido, é exterioridade, é imediato independente de minha iniciativa e do meu poder, afirma Lévinas (2008). Uma história do rosto seria uma história da expressão como sinal de identidade individual. Esta identidade individual, estes sinais e expressões são deliberadamente construídos e utilizados por imagens midiáticas, tais como revistas e séries.
A imagem construída e escolhida por outra pessoa se tornou o principal elo entre o indivíduo e o mundo contemporâneo. A produção de imagens jamais é gratuita. “Desde sempre, as imagens foram fabricadas para determinados usos, individuais ou coletivos” (AUMONT, 1995, p.78). Há uma profunda curiosidade e insistência em analisar as significações por trás da produção da mensagem visual, especialmente no terreno da publicidade.
As idades e as, imagens da fases da idade, se tornam um instrumento cada vez mais poderoso para criação de mercados de consumo, na definição de direitos e deveres e na constituição de atores políticos, pois perderam qualquer relação com os estágios de maturidade física e mental, diz Debert (2012, p.58)
“ENVELHECIMENTO E GÊNERO”
A cultura ocidental contemporânea, marcada pela perspectiva digital, pelo narcisismo e pelo fetichismo, é o contexto no qual se nota um movimento de acentuada erotização midiática do corpo feminino. O apagamento tecnológico e estético dos rostos com rugas reflete o culto da eternização da juventude, fortalece um viver sem expressividade facial.
O aumento na expectativa de vida nos últimos 30 anos contribuiu para a instabilidade do sujeito em relação a seu papel social e sua aparência. Hoje, além de sua capacidade no terreno funcional, social e emocional, em uma coletividade que supervaloriza o moderno e o novo, o sujeito precisa usar de todos os artifícios para manter sua imagem pessoal intacta, evitando ser descartado. Não se planeja a vida eterna, em geral, mas eternizar a juventude.
Como Baudrillard observou (2008, p.189), o corpo se tornou um objeto ameaçador que para ser exibido deve ser constantemente vigiado e domesticado. Segundo Rodrigues (2013), o texto entoado pela comunicação de massa é a negação e ocultação da morte e consequentemente a dissimulação da velhice e do envelhecimento. Propaga-se a ideia do corpo eternamente jovem.




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* Vidal Oliveira
Pontificia Universidad Católica de Río de Janeiro - PUC-Rio. Rio de Janeiro, Brasil