A pesquisa está inserida na área de Linguística Aplicada (doravante, LA), tendo como
foco o estudo da linguagem do movimento queer no contexto sócio histórico e cultural
brasileiro. Entendendo a linguagem como uma arena de conflitos que encarnam as identidades
dos vários segmentos da sociedade e principalmente por compreendemos que a sexualidade é
uma questão discursiva que surge das formações linguísticas de diferentes grupos, nos
colocamos como objetivo discutir a (des)construção discursiva do sujeito pertencente a uma
comunidade não hegemônica que sofre no dia a dia a negação da sua identidade por meio de
uma lógica perversa de pertencimento apagado.
A LA, como um campo interdisciplinar de
forte ancoragem nas questões sociais, mostra-se como um suporte que desvela as posições dos
envolvidos nos embates do mundo contemporâneo. O suporte teórico articula dois eixos
principais: (a) a perspectiva dialógica da linguagem segundo BAKHTIN (2003) e
BAKHTIN/VOLOCHINOV (2006), e ainda, nesse eixo, as contribuições sobre verbo-
visualidade de BRAIT (2015) e (b) a teoria queer conforme discutida por ADAMS et al (2014),
TUHKANEN (2005), LOURO (2001), e MOITA LOPES (2013, 2008), que colocará em foco o
atravessamento de fronteiras e o lugar identitário e social dos sujeitos que pertencem sem
pertencer, ou seja, que vivem nas fronteiras.
Na 19ª edição da Parada Gay na cidade de São Paulo a imagem de uma travesti crucificada levantou polêmica quanto ao uso de um símbolo religioso (Cristo que morreu para salvar a humanidade) mas a intenção da protagonista, segundo seus relatos nas redes sociais, foi o de sensibilizar para o fato de que homossexuais são mortos todos os dias no Brasil por questão de intolerância de ordem social, política, religiosa e sexual.
O corpus de análise é constituído por uma notícia sobre a passeata LGBTs que ocorreu em São Paulo-BR e que apresenta a imagem de uma transexual crucificada e todas as manifestações que provocou em um website da mídia jornalística.
O estudo do conjunto verbo-visual dos dados revela aspectos identitários tanto individuais como
coletivos trazendo à tona a dimensão sagrada do embate entre o crucificado que sofre como e
pelos excluídos e os membros da cultura dominante. A transexual declara que representou a dor sentida pelos LGBTs que, diariamente sofrem ataques físicos oriundos da hegemonia hétero, da intolerância e da opressão religiosa evangélica.
Para a participante, a violência é o alto custo pago por si e por seus pares por serem "diferentes" do socialmente esperado pelo homem, pela mulher e seus papéis sociais socialmente determinados.
Noção de “defeito” para Vygotsky (1989):
Pode ser compreendida como aqueles que não se enquadram nos parâmetros da normalidade.
Dessa forma, a homossexualidade não é vista como normal numa sociedade em que o esperado socialmente para um homem é que constitua família na qual seja o chefe diante de esposa e filhos e para a mulher que seja mãe e dona casa fiel e dedicada às prendas do lar.
Na contramão do que esperado socialmente para homens e mulheres, aos LGBTT resta estar expostos diariamente às “consequências sociais e sua realização sócio-psicológica” (VIGOTSKI, 1989, p. 30).
Uma das consequências sociais vivida pelo público referido é a “a dor que surge da situação social de ser tratado como inferior, inútil, sem valor. Que revela a negação da possibilidade da maioria de apropriar-se da produção material, cultural e social de sua época. O sofrimento ético-político é considerado importante para analisar a dialética exclusão/inclusão social” . Xingamentos, agressões e assassinatos com requintes de crueldade mostram a consequência social de ser ‘diferente’.
A análise, sob uma perspectiva transgressiva que desafia as relações sociais e o território político e religioso tira o véu da tensão entre o reconhecimento da igualdade e o reconhecimento da diferença, conforme diz
BOAVENTURA SANTOS (2013, 2014).
Palavras-Chave: Teoria Queer; Perspectiva Dialógica; Verbo-visualidade. Eixos Temáticos:
Linguagem e Identidade/Linguagem e Discurso