Resumen de ponencia
A crise da violência no cenário urbano brasileiro
Grupo de Trabajo CLACSO: Violencia, seguridad y obstáculos a la ciudadanía
*César Barreira
O debate sobre violência, presente em vários cenários urbanos no Brasil, adquire especificidades na contemporaneidade, colocando em destaque a crise da violência, seja pelo incremento crescente das taxas de homicídios, agravados por casos classificados como de crueldade, ou pelo caráter difuso e inesperado de suas ocorrências.
O crescimento dos índices de homicídios, principalmente de jovens, negros e habitantes das áreas mais pobres das grandes cidades, se faz acompanhar de outras variáveis nas quais se incluem os temas do medo e da insegurança cujos efeitos sobre a ordem social são duradouros e de difícil resolução. Sentimentos de medo e insegurança diante dos crimes não estão desprovidos de lastro social. Fatos e dados mostram o crescimento no Brasil de todas as modalidades de crime e violência existentes desde fins dos anos 1970. A exclusão social, que é imposta a uma grande faixa da sociedade, é substituída pela exclusão física, promovendo uma inversão de valores que trazem por consequência a afirmação de que “os pobres não têm mais direito a vida”. Assim não é possível separar questões econômicas sociais e políticas subjacentes ao tema da violência com suas marcas simbólicas de exclusão. A formulação verdadeira para o Brasil pode também ser observada em outros países da América Latina (Colômbia, México, Venezuela etc)
Esta comunicação busca equacionar um conjunto de questões que se apresenta no cenário urbano contemporâneo, agora dialogando mais diretamente com os temas da insegurança, medo e crueldade que pontuam atualmente o cenário brasileiro. O ensaio, nesta perspectiva, tentará refletir sobre a questão tendo como norte alguns eixos analíticos: a violência difusa, ações intensas classificadas como “crueldade” e as novas práticas de sociabilidade, permeadas pelo sentimento de medo e a sensação de insegurança. As práticas de violência estão adestrando os comportamentos sociais, delimitando o que é o possível e o impossível, o permitido e o negado, o proibido e o aceito socialmente. Emerge o desafio para os especialistas de interpretar a nova configuração deste fenômeno da violência em sua manifestação de crise, ancorado em largas manifestações e práticas, classificadas e vividas como violentas.
A presente comunicação pretende também contribuir para uma reflexão sobre a problemática da “crueldade” no contexto brasileiro contemporâneo, registrando práticas delituosas evidenciadas como radicais, envolvendo o corpo de vítimas. Trata-se de práticas que não possuem explicações evidentes, condensando usos peculiares e radicais de violência física e simbólica. O tema encontra-se tratado em outros campos do conhecimento (arte, psicanálise) nos quais se apresentam várias formulações e reflexões, constituindo um enorme desafio para a reflexão sociológica. Com base em usos nativos do termo crueldade a exposição verifica o modo como ele é tratado nos meios de comunicação, no senso comum e no campo jurídico. É possível verificar na violência difusa que a “crueldade” parece exprimir práticas vindas de diferentes ordens explicativas nas quais se inscrevem tanto as marcas individuais de atores como a repetição de tragédias ou reações inesperadas que fazem parte da história da humanidade. Em síntese, a apresentação do texto articula “crueldade” e violência difusa, verificando algumas marcas simbólicas que caracterizam reações inesperadas de crimes que ocorrem fora de uma situação de equivalência social entre atores em questão. Mais que concluir sobre as causas da ocorrência do fenômeno da crueldade, o artigo abre a possibilidade de constituição de uma agenda de pesquisa. Pesquisa que pode ter um teor comparativo tanto do ponto de vista de contextos históricos como geográficos.
Assim, abordamos o debate sobre violência e suas modalidades no Brasil, mostrando suas particularidades na realidade do Brasil de hoje. O drama da crise da violência é claro, seja pelo incremento crescente das taxas de homicídios, agravados por casos classificados como de crueldade, ou pelo caráter difuso e inesperado de suas ocorrências.