O aspecto central desse artigo busca refletir sobre o discurso hegemônico presente no conteúdo noticioso dos meios de comunicação tradicionais no Brasil. A partir de um estudo de caso (a abordagem sobre as transexualidades) em jornal de grande circulação nacional (Folha de S.Paulo) pretendemos discutir o problema da naturalização de normas e práticas cotidianas que reforçam estereótipos de gênero, raça, sexualidades "desviantes" e desigualdades de classe. O objetivo é entender como construções discursivas características da narrativa jornalística colaboram para sustentar hierarquias e posições socialmente dominantes. A análise envolve a observação do tema "transexualidades" e como as práticas discursivas posicionadas na heterossexualidade compulsória contribuem para definir hierarquias na localização editorial e, também, estruturam enquadramentos que posicionam o relato noticioso em perspectivas de gênero, raça e classe social dominantes. O foco está em refletir sobre as dinâmicas desses discursos numa perspectiva interseccional e, assim, verificar como determinadas visões de mundo, ideologias, hierarquias de gênero, raça e classe atuam e dão forma para o texto jornalístico. Nesse artigo, pretende-se expor uma compreensão sobre os discursos enquanto uma relação ativa na construção da realidade social, no sentido da construção de significados e não uma prática passiva, como se a linguagem fosse uma referência neutra dos objetos, tidos como dados na realidade. Para essas análises o trabalho enfatiza estudos anteriores realizados ou acompanhados pela autora sobre agendamento e enquadramentos noticiosos inter-relacionados com as teorias feministas de gêneros, interseccioinalidades e sexualidades. Conclusões envolvendo estudos empíricos sobre a cobertura do Bolsa Família nas eleições de 2006, o aborto nas eleições de 2010 e a regulamentação do trabalho doméstico serão contribuições que visam ampliar as reflexões encontradas na análise sobre a abordagem do tema "transexualidades" nas edições impressas do jornal Folha de S.Paulo durante o ano de 2017. Como premissa inicial parte-se do entendimento de que a notícia é um registro seletivamente construído dos acontecimentos sociais articulado no interior de um campo simbólico estruturado (a esfera jornalística ou campo jornalístico), com saberes, procedimentos, habitus, regras e normas reconhecidas socialmente como legítimas. Esses registros não são neutros e a seleção dos elementos que comporão o conteúdo discursivo contribui para ordenar e sustentar a ordem social e política vigentes. Por conta desse entendimento, a análise sustenta que os meios de comunicação atuam na esfera da superestrutura com a função de delimitar a controvérsia. Dessa forma, disputam o controle sobre a definição dos termos do debate público. Com os estudos de caso enfatizados, pretendemos refletir sobre como os estereótipos ou rótulos que costumam ser utilizados para sintetizar ou definir contextos e interpretações dos acontecimentos atuam na narrativa jornalística de forma a naturalizar posições dominantes e hierárquicas, neutralizar conflitos, universalizar particularidades, valorizar visões de mundo que organizam e sustentam a ordem social e política vigentes. Aqui, os meios de comunicação serão observados como parte estruturante de um universo simbólico que orienta compreensões da realidade cotidiana definida a partir de conflitos, tensões e acomodações em torno de práticas discursivas que se tornam dominantes dentre as perspectivas sociais em disputa. Dito de outro modo significa considerar o discurso jornalístico como uma prática política. Ou seja, uma prática discursiva constitutiva de valor, de poder, de tensão e de interação com grupos e representações sociais em conflito (de classe, de grupos sociais racializados, generificados, sexualizados). Significa compreender a dinâmica da luta dos diversos interesses (econômicos, políticos, de poder e sociais) como parte integrante da narrativa jornalística e, consequentemente, na definição da vida em sociedade, no presença ou não da diversidade, de questões envolvendo equidade, distribuição e reconhecimento.
O artigo será dividido em três partes: a primeira apresenta aspectos teóricos sobre as relações entre mídia, poder, discurso dominante e a construção de posições discursivas hegemônicas. Em seguida aprofundamos a reflexão sobre a dinâmica da produção e reprodução de estereótipos no discurso jornalístico. A terceira etapa é uma análise de estudos empíricos em que tais mecanismos podem ser observados tendo como ênfase o tema das transexualidades. A conclusão aborda o impacto dos mecanismos da linguagem e da prática discursiva como forma de naturalizar realidades sociais que colaboram para a manutenção de desigualdades e desvantagens para grupos sociais sub-representados, com impacto importante para a pluralidade política nas democracias contemporâneas.