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Resumen de ponencia
Midiatização, instituições e interações na minissérie Black Mirror

*Renata Valentim Gomes



O presente artigo propõe analisar, a partir da semiótica do discurso, a representação da dinâmica entre as instituições e o processo de midiatização da vida contemporânea presente no enredo do episódio The Entire Story Of You da minissérie britânica Black Mirror, articulando à Teoria da Estruturação e da perspectiva sociológica relacional, que identifica a mídia como forma de interação situada em um quadro temporal, conferindo a devida ênfase às dimensões social e simbólica destes processos.

No presente trabalho, pretendemos centrar nossa atenção à análise da dinâmica das relações estabelecidas entre o processo de midiatização cotidiana e as instituições sociais, a partir da representação crítica da relação entre a mídia e a justiça encontrada no episódio intitulado The Entire Story Of You, objeto desta análise, sob o olhar da semiótica discursiva, articulada às perspectivas de Hjarvard (2014), Braga (2007) e Boltanski (2011).

The Entire Story Of You é o terceiro episódio da primeira temporada da série britânica Black Mirror (Reino Unido, 2011 – presente), criada pelo jornalista Charlie Brooker, cuja temática propõe uma abordagem crítica da midiatização da vida social e das relações humanas, transformada pelo desenvolvimento das tecnologias digitais. Trata-se de uma narrativa seriada ficcional distópica, que se vale da representação crítica de diversos fenômenos midiáticos encadeados, em uma narrativa menos centrada na representação da tecnologia em si, mas na problematização dos reflexos de seus vários usos e implicações no cotidiano. Adotando o entendimento de França (2012) sobre a TV como meio que reflete valores, problemas e tendências de uma sociedade em um dado momento, ao mesmo tempo em que exerce sobre ela um papel de constituição, influenciando comportamentos, temáticas e modismos, aproximaremos a sua capacidade de inserção reflexiva da vida social com a proposta narrativa da minissérie, sugerida já em seu título: um “espelho negro”, capaz de refletir o presente, a realidade.

A atração criada por Brooker emprega a ficção científica como artifício para tratar de problemas contemporâneos reais, derivados do papel ocupado pelos processos de midiatização em todas as esferas da vida social, política, econômica e cultural. Ainda que seu universo distópico retrate dispositivos tecnológicos não existentes, a série traz em sua diegese representações bastante próximas da realidade. É lançando mão deste recurso que o autor constrói sua representação e sua crítica.

A midiatização das práticas sociais contemporâneas, conforme destaca Hjarvard (2014) não se limita à formação da opinião pública, à medida que perpassa quase todas as instituições sociais e culturais. Também entendida como uma instituição, a mídia é incorporada por outras, por sua capacidade de oferecer a informação, construir relações sociais e despertar a atenção com ações comunicativas. E para analisar o papel ocupado pela mídia e sua função dinâmica neste contexto, o autor ancora-se na teoria da estruturação de Anthony Giddens (1984), para quem a midiatização é uma característica intrínseca da modernidade (1991), ordem social marcada pelo enfeixamento de diferentes dimensões institucionais a que deu origem, em destaque o poder administrativo e o militar, o capitalismo e a industrialização. No seio destas dinâmicas institucionais estão as descontinuidades, um rompimento sem precedentes com as formas de organização da vida tradicional; o desencaixe, deslocamento das relações sociais, modificadas pelas redefinições de espaço-tempo e, o mecanismo que mais nos importa nesta reflexão, a reflexividade, que “consiste no fato de que as práticas sociais são constantemente examinadas e reformadas à luz de informação renovada sobre estas próprias práticas” (1991, p. 45).
É justamente esta qualidade reflexiva das práticas sociais que produz a relação de interdependência entre a mídia, as demais instituições e os atores. Tal dinâmica se faz visível ao nos darmos conta de que as mídias participam da produção de representações mentais, ações e relações em uma variedade de contextos privados e semiprivados (Hjarvard, 2014, p. 23). José Luiz Braga (2007) sublinha a importância desta participação ao tratar da midiatização como processo interacional em avançado estágio para se tornar o processo “de referência”, lugar que já foi da oralidade e hoje é da escrita.

Seja na esfera profissional, familiar, religiosa ou política, observamos a crescente presença midiática em nosso cotidiano. A influência, antes exercida por meios hegemônicos como a TV, o rádio e o jornal, é agora potencializada pelas tecnologias digitais da comunicação e da informação e os mecanismos de transmidialidade, em que se apresentam a instantaneidade, a interatividade, a customização, a abrangência, entre outras características. A transformação no processo de midiatização a partir do desenvolvimento das redes telemáticas reforça sua presença nas mais diversas dimensões institucionais, dando origem a novas práticas e desdobramentos. A importância das instituições é destacada por Luc Boltanski (2011), situando-a em um quadro de destaque em suas reflexões acerca da atividade crítica como possibilidade de mudança social. Ao discutir sobre a relação entre o saber sociológico e a crítica social, ele faz um balanço dos “vícios” e das “virtudes” encontrados nas tradições da sociologia crítica, em que encontramos pensadores como Pierre Bourdieu, e na sociologia pragmática da crítica, perspectiva assumida de Louis Quéré. Para ele, quando a sociologia crítica dirigiu seu foco ao mostrar a relevância da temática da dominação e, a partir dela, elaborar uma crítica política das relações de poder na sociedade, acabou por reduzir os atores sociais à condição de seres alienados. A corrente pragmática, por sua vez, deu a devida atenção às ações cotidianas dos sujeitos e reconheceu a pluralidade de valores e modos de agir dos atores e do próprio mundo social, mas não soube superar assimetrias duráveis da realidade social. A tese de Boltanski é que, apesar da incompatibilidade de superfície entre as duas tradições, há uma solidariedade de fundo. Assim, ele propõe a conciliação dos aspectos positivos dos dois programas.

A compatibilização das duas perspectivas, para Boltanski, permite conferir às instituições um papel basilar e permanente, a partir de sua compreensão como meio de solidificar uma ordem social que, diante da heterogeneidade de aplicações e ações dos sujeitos a partir de valores presentes no mundo, confere à realidade uma estabilidade mínima. Assim, se a operação da crítica parte de um fundo tido por óbvio , é porque existe alguma “entidade virtual” – as instituições - que oferece suporte e torna possíveis as práticas reflexivas dos sujeitos e, por conseqüência, as mudanças sociais. O objeto de análise deste trabalho, o episódio The Entire Story Of You, traz em sua narrativa uma representação da relação entre a mídia, o estado e a família.


Referências:
Boltanski, Luc. The Power of Institutions. In: ______________. On Critique: a sociology of emancipation. Cambridge: Polity Press, 2011.

Braga, José Luiz. Mediatização como processo interacional de referência. In: Médola, A. S.; Araújo, D.; Bruno, F. (orgs). Imagem, visibilidade e cultura midiática. Porto Alegre: Sulina, 2007.

Charaudeau, Patrick. Discurso das mídias. 2.ed. São Paulo: Contexto, 2010.

França, Vera V. A TV e a dança dos valores: roteiro analítico para tratar da relação entre televisão e sociedade. In: França, V. V.; Corrêa, L. G. (orgs). Mídia, instituições e valores. Belo Horizonte: Autêntica, 2012.

Giddens, Anthony. A constituição da sociedade. São Paulo: Martins Fontes, 2003.


_______________. As conseqüências da modernidade. São Paulo: Unesp, 1991.


Hjarvard, Stig. Midiatização: conceituando a mudança social e cultural. Revista MATRIZes, São Paulo, v. 8, n. 1, p. 21-44, jan/jun. 2014.

Machado, Arlindo. A televisão levada a sério. 5.ed. São Paulo: Senac, 2000.







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* Valentim Gomes
Universidade Federal de Minas Gerais UFMG. Belo Horizonte, Brasil