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Resumen de ponencia
RESISTÊNCIA E PODER: A FUNÇÃO-AUTOR NOS ROMANCES ABOLICIONISTAS ÚRSULA, DE MARIA FIRMINA DOS REIS E A ESCRAVA ISAURA, DE BERNARDO DE GUIMARÃES

*Ana Carla Carneiro Rio



O trabalho em questão busca na Análise do Discurso literário, um método capaz de perceber a regularidade dos discursos e a emergência dos enunciados, de forma a perceber como o sujeito que escreve se relaciona com o discurso, nos romances abolicionistas Úrsula, de Maria Firmina dos Reis, publicado em 1859 no Maranhão, fora do cânone literário, e A Escrava Isaura, de Bernardo Guimarães, publicado em 1875, no Rio de Janeiro em plena campanha abolicionista, considerado um clássico da literatura nacional romântica. A pesquisa verifica como as relações de poder do século XIX “interditou” dizeres de um romance de autoria feminina e considerou obras de autoria masculina com a mesma temática, como válidas dentro do cenário historiográfico literário nacional, pois não existe registro de escritoras na estética romântica brasileira, sobretudo canônica. Alguns conceitos propostos por Michel Foucault integrados ao campo disciplinar da AD serão discutidos na relação entre história e literatura, considerando os fatos da língua na constituição de materialidades discursivas. A forma como o filósofo discorre teoricamente sobre os enunciados, nos faz repensar sobre discursos que emergiram em objetos literários e não outros em seus lugares, refletindo sobre resistência e verdade a partir do lugar subalterno que mulher e o negro ocupavam na conjuntura oitocentista e na historiografia literária. O conceito de autoria será compreendido como uma função o sujeito que escreve exerce no discurso, e como o poder está relacionado à unidade autoral. A análise dos romances visa identificar funcionamentos, resistências e “verdades”, como procedimento de controle e delimitação do discurso, no qual o escritor determina o que pode ou não dizer. O método utilizado para a pesquisa será arquegenealógico, pois considera o arquivo literário a partir das práticas discursivas e das relações de poder que a afetam e por ela circulam. Esta pesquisa percebe o escritor a partir de uma função-autor e investiga através da resistência e verdade os enunciados que puderam e foram efetivamente ditos e/ou não ditos nos romances, refletindo a construção de saberes e poderes construídos através da figura autoral, que de certo modo controla o discurso, pois é o fio condutor da dispersão.
Ambos os romances retratam a forma cruel como os escravos eram tratados pelos feitores, porém sob perspectivas autorais diferentes, é nesse momento que a investigação percebe o autor dissociado do sujeito empírico e reflete na função-autor que ele desempenha, analisando os elementos discursivos dos romances, pois é pertinente ressaltar que Úrsula foi produzido sob a lente de uma escritora negra numa época em que o lugar literário não podia ser ocupado por uma mulher e, A Escrava Isaura, a partir da visão de um escritor branco, lugar privilegiado e legitimado pela sociedade.Outro ponto a ser investigado, surge da análise de discursos veiculados em jornais maranhenses do século XIX a respeito da escritora Maria Firmina dos Reis, dos estereótipos revelados e da condição subalterna da mulher em relação ao homem. Para isso, consideramos as notícias publicadas nas seguintes mídias: Jornal do Comércio, A Moderação, A Verdadeira Marmota, Jardim dos Maranhenses e A Imprensa. Nossa proposta busca na Análise do Discurso um diálogo com as teorias do jornalismo e comunicação, pensando os enunciados das notícias como um lugar em que os sujeitos são construídos, pois, ao analisar discursos, refletimos sobre sociedade, ideologia, verdades e relações de poder. Por entendermos que existe uma regularidade nas formações dos discursos dos cadernos literários analisados e que os mesmos passam pelo mesmo sistema de dispersão de qualquer discurso, nos filiamos ao filósofo Michel Foucault para pensar no plano discursivo que possibilita perceber, nos enunciados dos jornais, as práticas sociais da conjuntura oitocentista maranhense, e algumas causas do romance Úrsula não pertencer ao cânone literário. Com base na noção de enunciado de Michel Foucault, discutiremos elementos sobre a relação entre história e mídia a partir dos conceitos de poder problematizados pelo filósofo, com o intuito de observar as relações saber/poder/subjetividade, pois acreditamos que o cenário em que a escritora se encontrava, sobretudo porque marcado pela interdição da mulher na escrita literária, marca as relações de poder que determinam o que pode e deve ser dito.









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* Rio
Programa de Pos-Graduaçao em Sociologia. Faculdade de Ciências Sociais. Universidade Federal de Goiás - PPGS/UFG. Goiânia, Brasil