A Ditadura militar no Brasil (1964-1985), se caracterizou de forma repressiva e violenta com aqueles que se mostravam contra o regime ou mesmo fossem suspeitos de subversão, além de estar presente na vida dos indivíduos, produzindo tortura, desaparecimento e morte dos cidadãos, utilizou a mesma lógica com relação à vida na universidade. A comunidade acadêmica foi um dos setores que mais sofreu com a violência repressiva da Ditadura Militar.
Uma das universidades atingida pelo uso desta força foi a Universidade de Brasília, inaugurada em abril de 1962, com o objetivo de construir uma universidade baseada no projeto de emancipação nacional. Portanto, a UNB se constituía como um modelo universitário novo, distante do esquema das universidades tradicionais brasileiras mas, com a perda de autonomia advinda do golpe militar, essa experiência foi bruscamente interrompida, praticamente toda a universidade parou de funcionar, vários professores foram demitidos e outros 225 demitiram-se em solidariedade aos colegas, gerando um esvaziamento na universidade
O presente trabalho propõe realizar uma reconstrução das invasões que ocorreram na Universidade de Brasília nos anos de 1964 e 1968, problematizando a questão da memória e do esquecimento. Essas duas datas foram selecionadas, pois em 1964 temos o início do regime militar, e o surgimento de um contexto de repressão e perseguição. Em 1968, observa-se um fechamento maior deste regime, com mais torturas e perseguições, culminando no AI-5 que além de decretar o recesso do Congresso Nacional dava poder de exceção aos governantes para punirem arbitrariamente aqueles que eram considerados inimigos.
A primeira invasão na Universidade de Brasília ocorre no dia 09/04/1964, apenas nove dias depois do golpe, foram 14 ônibus com soldados, 3 ambulâncias, eles procuravam armas, como não foram encontradas passaram a uma revista na reitoria e posteriormente na biblioteca que foi invadida para a apreensão de material subversivo. O resultado desta primeira invasão foi a prisão de doze professores, sem que soubessem o motivo da prisão, a demissão do reitor Anísio Teixeira e a do vice reitor Almir de Castro. Instalou-se um clima de insegurança com demissões motivadas por perseguições políticas, interferências totalmente arbitrárias na vida acadêmica, ataques à autonomia universitária, difamação da comunidade do campus por órgãos repressivos e meios de comunicação, cerco policial armado e prisões arbitrárias (SALMERON, 1999).
Em 1968, a repressão a focos de oposição ficava cada vez mais exacerbada e a leitura dos militares da UNB como foco de subversão mais acentuada. Em 29/08/1968 houve outra invasão no campus, com o objetivo de prender o líder estudantil Honestino Monteiro Guimarães. Esta foi considerada excessiva por parte da comunidade acadêmica, levando-os a elaborar um manifesto expressando que era impossível continuar os trabalhos universitários diante deste quadro de invasões ao campus, prejudicando totalmente a autonomia universitária. Os estudantes também denunciavam as violências da invasão por meio de panfletos, que foram apreendidos pelos órgãos de repressão.
A Ditadura Militar ficou por um longo período de tempo à margem dos estudos e das discussões na sociedade civil, qualquer ideia de retomar esta temática, buscando reparações para as suas vítimas era vista como desnecessária, já que a Lei de Anistia foi aplicada tanto aos presos políticos quanto aos militares que praticaram violações dos direitos humanos. Somente no final da década de 90 e inícios dos anos 2000 que os pesquisadores começaram a se debruçar mais fortemente sobre as questões que marcaram este momento da história do Brasil.
No governo da Presidenta Dilma Rousseff (2011-2016), ocorreu o desenvolvimento de políticas de memória, a mesma se mostrou preocupada com uma sociedade que ainda não havia encarado seu passado de forma comprometida. Nesta perspectiva, implantou-se a Comissão da Verdade, com o objetivo de esclarecer os casos de tortura e desaparecimento político de presos políticos; ocorreram discussões no Supremo Tribunal Federal para uma revisão da Lei de Anistia, pedido este que foi negado pelo Supremo. Neste sentido, nota-se que as memórias do período da Ditadura Militar no Brasil vêm se constituindo por meio de um embate, principalmente no plano político, alguns setores se mostraram contra a implantação de uma Comissão da Verdade por esta tratar de situações do passado, um momento histórico que já foi resolvido. Assim, a memória está ligada a um campo de disputas de poder, principalmente nas mídias, e com relação ao discurso da grande imprensa escrita, nota-se que ela se utiliza do passado para garantir inteligibilidade às suas narrativas.
No contexto atual em que vozes dissonantes pedem a volta da Ditadura Militar, para colocar fim à corrupção, este artigo se torna importante por problematizar a questão da memória e do esquecimento neste acontecimento tão emblemático na história da Universidade de Brasília, do ensino superior e do país.
Referências
SALMERON, R. A universidade interrompida. Brasília 1964-1965. Brasília: EdUNB,
1999