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Resumen de ponencia
Trajetórias desiguais na Educação de Jovens e Adultos: A busca de um direito negado.

*Frederico Jardim



Este trabalho é fruto de pesquisas desenvolvidas ao longo de minha trajetória acadêmica, enquanto professor e pesquisador, sempre interessado em contribuir acerca da melhoria na qualidade da perspectiva de educação ao longo da vida, concebendo-a como um direito fundamental, que por vezes na realidade brasileira (também de grande parte dos países latino americanos) é vista com menos importância, estigmatizada e com políticas públicas que se mostram ainda escassas ou ineficientes. Na tentativa de compreender quem são esses sujeitos, que fazem parte dessa modalidade especifica, deve-se levar em consideração a pluralidade de pertencimentos envolvidos no tecido social dessa modalidade de ensino. Trabalhar com a EJA é trabalhar com a diversidade. A literatura sobre a EJA no Brasil menciona que, até os anos 1990, a maior parte das pesquisas sobre o tema tendeu a “homogeneizar os sujeitos de aprendizagem, abstraindo sua diversidade e diluindo suas identidades singulares – de classe, geracionais, de gênero, étnicas, culturais ou territoriais – sob a condição e o rótulo genérico de alunos” (DIPIERRO, 2005). Pensá-los como problema só escamoteia a real e perversa lógica envolvida no processo de escolarização dos jovens adultos envolvidos nessa modalidade e deixa de fora as dimensões da condição social desses sujeitos, algo imprescindível no processo educacional.
O lugar de não protagonismo nas ações de políticas públicas reservado à modalidade e ao estudante da EJA reflete sua condição socioeconômica e cultural, mas também revela traços de um discurso estereotipado que estigmatiza as pessoas em situação de pobreza, imprimindo marcas de fracasso e incapacidade de acompanhar o ritmo de desenvolvimento de um sistema que se diz agregador por não proibir, formalmente, a participação das pessoas das classes populares, mas, ao mesmo tempo nega os instrumentos indispensáveis de participação.
1 - Trajetórias marcadas pela desigualdade (uma busca pela escuta do aluno da EJA)
Estudar indivíduos em sua singularidade, para esta pesquisa, significa atentar para as questões que levaram esses sujeitos a superar uma visão inferiorizada por parte da sociedade pela via da aquisição de uma escolaridade formal e, consequentemente, da obtenção de um diploma. Superar os estigmas que esses alunos vivenciam diariamente, em diversos espaços (dentro da família, no trabalho, na própria escola, na Igreja…), por meio da escolarização, é uma interessante jornada nas vivências individuais dos alunos entrevistados, e observar isso permite traçar pontos de confluência e divergências nas diferentes histórias pessoais.
1.1 - Marlene
Segundo a própria entrevistada, “a mais experiente da turma”, é estudante do 1o ano do Ensino Médio na EJA. Negra, tem 50 anos e é mãe de três filhos. Vive em Niterói (cidade próxima ao Rio de Janeiro), no bairro de Pendotiba, e trabalha como doméstica desde a adolescência. Segundo a própria, sua vida nunca foi fácil. Nascida em Fortaleza, veio para o Rio de Janeiro ainda criança:
"Quando eu cheguei no Rio, achei tudo muito bom…na minha cabeça de menina, a cidade era bonita demais, cheia de gente e de oportunidades. Mas mesmo assim a gente cortava um dobrado, minha mãe começou a trabalhar de lavadeira, enquanto meu pai tentava arranjar outro emprego, e a gente, eu e meus irmão, ia sobrevivendo, às vezes comia só arroz, mas eu gostava daqui… minha irmã mais velha, que hoje já não tá mais aqui, era que cuidava da gente. Já era difícil, e quando meu pai morreu ficou pior […]quando meu marido tivemos o primeiro filho, aí eu comecei mesmo a trabalhar de doméstica."

Sua situação de pobreza extrema na infância trouxe a família para o Rio de Janeiro atrás de emprego e melhoria nas condições de vida. Marlene nunca teve acesso aos estudos na idade regular e somente a partir do ano 2001 começou a se interessar:
"Quando cheguei, nunca procurei escola, nem eu nem meus irmão fomos pra escola. Minha mãe até tentou, mas a gente tinha que ajudar ela e meu pai. Nossa, depois meu marido sempre me incentivou a estudar […] meus filhos sempre foi pra escola, se tem uma coisa que eu falo pra eles era vai levantar cedo e ir pra escola, pra depois você arranjar uma coisa boa pra trabalhar. Né? Ou vai ficar que nem eu e o pai dele, ganhando pouco e trabalhando muito, mas nunca deixamos faltar nada pra nenhum dos filhos […] quando comecei a trabalhar na casa que eu tô trabalhando até hoje foi que eu comecei a procurar a escola. Eu só sabia escrever meu nome e ler, isso porque eu buscava aprender sozinha. Agora eu leio tudo, aprendi muito na escola. No começo foi difícil."
Ainda sobre sua escolarização tardia: “Antigamente, a gente não achava o estudo tão importante… importante mesmo era tá trabalhando. ”
Marlene demonstra em suas falas grande importância da educação escolar. Nunca tendo frequentado a escola antes, diz que começou pela primeira vez em 2001, não se recorda de quantas vezes interrompeu os estudos, porém garante ter parado mais de três vezes. Marlene representa uma parcela importante da EJA. Aqueles que nunca tiveram acesso à escola e buscaram, mesmo que tardiamente, ingressar nos estudos.
1.2 - Lucas
Com 19 anos, Lucas diz que sempre foi “ruim” na escola, nunca conseguiu prestar muita atenção nas matérias. Aluno do 1o ano do Ensino Médio, não trabalha formalmente, segundo ele:
"Vou te falar às vezes a gente reclama muito… eu sou um cara tranquilo, gosto do meu futvôlei, gosto da minha cerveja, gosto dos meus amigos… enquanto eu tiver isso tá tudo ótimo […] Eu nasci em Nova Iguaçu, meus pais eram de lá, mas eu nem lembro de ter morado lá. Me dou bem com todo mundo desde sempre, tu sabe! Eu tenho uma vontade ainda se der de jogar futebol, mas se não der também eu tento outra coisa."
Lucas era aluno regular até 2014, tendo abandonado o ano letivo na metade. Segundo ele, a mudança para a EJA foi incentivada pela própria escola. Por ser jovem, relata que estudar na modalidade é um sinal de vergonha entre seus amigos de fora da escola. Questionado se sofre algum tipo de preconceito por ser aluno da EJA, diz:
"Eu nem falo pra ninguém que eu estou no Ensino Médio ainda… ainda mais na EJA, estudar à noite é coisa de gente velha e burra! [risos] Brincadeira, mas eu tenho vergonha, sim, e evito falar que sou do turno da noite… Meu coroa até brinca comigo falando que no tempo dele eu taria fazendo Mobral. Ele fica muito revoltado comigo por não querer estudar, não pensar em fazer uma faculdade, mas eu trabalho, às vezes, sei que tenho que trabalhar, meu pai tem um bar e eu ajudo ele às vezes, fico lá, ajudando, limpo o chão, sirvo cerveja, fecho o bar às vezes pra ele… eu tento ajudar ele porque ele é meu pai, né. E vai acabar que eu um dia vou trabalhar com ele."
Nota-se que o aluno considera a falta de diploma, ou estar cursando o Ensino Médio em idade superior, como um marcador de estigma, uma vez que tenta esconder seu pertencimento à modalidade EJA. É interessante atentar para a compreensão de que, mesmo não fazendo sentido, a escola é algo fundamental nos dias de hoje, uma vez que ele relaciona a não obtenção do diploma com o ser ninguém, “ser um nada, um lixo”. A organização tradicional do sistema escolar e a falta de sentido para os alunos mostram-se importantes ao se analisarem os casos de evasão escolar e o aumento do número de jovens nas salas de EJA.
1.3 - Júlia
Possui 27anos e está no 3o ano do Ensino Médio. Moradora do bairro de Ititioca (periferia da cidade de Niterói), trabalha desde cedo para ajudar em casa. Tem uma filha de 7 anos e relaciona a escola diretamente com uma melhora nas condições de trabalho e o alcance de melhores oportunidades:
"Depois que meu pai faleceu, ficou eu, minha mãe e meu irmão morando juntos. Eu tenho uma filha de 7 anos e todos em casa me ajudam a cuidar dela. O nome dela é Jennifer, ela, gosta de estudar, eu dou graças a Deus! A gente leva uma vida simples…, mas eu não reclamo, porque saúde a gente tem, e é isso que importa, né, pra estar sempre buscando melhorar de vida […]. Eu e meu irmão sempre ajudamos minha mãe em casa, desde criança, foi por isso que eu e ele não completamos a escola, e depois eu fiquei grávida, aí que não dava mesmo. Hoje eu vejo que é importante pra poder trabalhar e viver mais dignamente […]. Eu trabalho de auxiliar de loja aqui perto da escola, mas é cansativo, trabalhar, estudar, ir pra casa cuidar da filha. É uma rotina hoje em dia que eu vejo bem difícil."
A necessidade de ajudar em casa e a gravidez não planejada fizeram com que Júlia hoje esteja cursando a EJA. Mãe solteira, ela diz que tenta sempre mostrar para a filha a importância de estudar e diz que não abre mão dos estudos da criança.
Quando questionada acerca do preconceito sofrido por estudar na EJA, relatou diversas situações, como em seu trabalho anterior, onde seu chefe constantemente fazia brincadeiras com o fato de ela ainda estar cursando o Ensino Médio:
"Ah, tem que ser forte e não ligar pra esse tipo de coisa. Pra mim, é coisa de gente recalcada. Se eu não quisesse estudar ou coisa do tipo… ficasse de bobeira, mas não, eu corro atrás das minhas coisas, junto meu dinheirinho, compro brinquedo pra minha filha, caderno, estojo novo. Então eu vejo que se eu estudar e continuar nessa eu posso melhorar de vida, eu acho que, quanto mais eu estudar, mais eu vou ser valorizada, entende?"
Estar em idade superior é algo que incomoda porem não imobiliza a aluna de buscar via educação a superação das desigualdades impostas.
Conclusão
Marcado como espaço de acolhimento de sujeitos com distintas trajetórias de exclusão e marginalização do sistema regular de ensino, a EJA emerge como um espaço privilegiado para ações voltadas à reinserção escolar, e desse modo seu fortalecimento pode se constituir em política de ação afirmativa no combate a discriminações e na própria valorização do aluno como sujeito estigmatizado e da modalidade como espaço importante e válido dentro do sistema educacional.




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* Jardim
Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro UniRIO. Rio de Janeiro, Brasil