Este trabalho volta a atenção para os professores de escola pública, particularmente para as representações identitárias materializadas em seu discurso, pois, na trama discursiva que engendra o sujeito professor, composta pelo discurso social, da mídia, dos documentos oficiais, institucionais e pedagógicos – os enunciados produzidos pelo docente precisam ser compreendidos na singularidade de sua situação, bem como também em suas relações com um conjunto de possíveis acontecimentos discursivos (FOUCAULT, 2003b) aos quais esse sujeito foi exposto, visto que esses atravessamentos discursivos constituem esse profissional (MORGADO, 2015). Tendo isso em vista, propomos analisar as (auto)representações de professores de uma escola pública do Ensino Médio sobre a docência observando como as relações de poder/saber/verdade, mediante os modos de objetivação, permeiam esse processo e em que medida há possibilidades de resistência desses sujeitos. Para tanto, tem-se como alicerce os construtos identidade e representação, na perspectiva pós-estruturalista dos Estudos Culturais apresentados por Hall (2009, 2011), Tadeu da Silva ([1999]/2001, 2001, 2009) e Woodward (2009), uma vez que, nessa acepção, a representação é entendida como uma forma de atribuição de sentidos, produto dos discursos e sujeita às relações assimétricas de poder (FOUCAULT, 1995; TADEU DA SILVA, [1999]/2001), e a identidade seria, portanto, representacional (TADEU DA SILVA, 2009). Também tomamos as contribuições dadas por Foucault (1979, 1995, 1996, 2003a, 2003b, 2004a, 2004b, 2004c) referentes às noções de discurso, sujeito, relações de poder/saber/verdade, objetivação, subjetivação e resistência, bem como pautamo-nos nas considerações de Paniago (2005), Morgado (2015), Silva (2016) e Paraguassú (2017) sobre os processos discursivos de objetivação/subjetivação e as possibilidades de resistência do sujeito-professor. Além disso, consideram-se as elucidações das pesquisas nas áreas da Educação (ARROYO, 2000; TARDIF, 2000, 2014). Esta pesquisa se configura como um estudo de caso de cunho etnográfico (ANDRÉ, 2005; LÜDKE; ANDRÉ, 1986) e envolveu dezesseis professores de uma escola da rede pública estadual de Ensino Médio de uma cidade do interior de Goiás. No processo de geração de dados foram utilizados os seguintes instrumentos: questionários (perfil e reflexivo), narrativa, entrevista e diário de campo da pesquisadora. A partir das análises, foi possível perceber que a identidade é representacional e está em contínua (trans)formação, pois os docentes (re)constroem-na mediante as relações com o contexto de trabalho, com os discursos recorrentes socialmente, e, principalmente, devido a política educacional nacional, sendo que as relações de poder integram todo esse processo. Os enunciados dos professores revelam, sobretudo, um grito político contra o modo como o professor é colocado nas relações de poder/saber/verdade instituídas pelo sistema e o Estado. Os docentes mostraram-se descontentes com o poder que as políticas nacionais da educação, as ações da Secretaria de Estado da Educação, Cultura e Esporte de Goiás (Seduce), detêm para representar a profissão docente. Destacamos que foi recorrente a menção às objetivações que o sistema – entendido no nível macro representado pela Seduce, pela política nacional do Ideb (com as avaliações Saeb e Prova Brasil) – direcionam ao professor, conduzindo o processo de subjetivação dessa categoria. Logo, observamos que o discurso oficial (política educacional nacional) exerce o poder de produzir saberes e efeitos de sentido sobre a prática docente e, na mesma medida, produz representações sobre o professor. Nesse sentido, notamos que os sujeitos professores são um efeito do poder, um produto constituído a partir da produtiva relação poder/saber/verdade, mas também sujeitos que encontram micropráticas de resistência. Nossas análises evidenciam a produtividade do poder e a “luta perpétua e multiforme” entre poder/saber/resistência. Contudo, como o poder do professor é um micropoder, sua resistência, preponderantemente, está no negar as objetivações que lhe são impostas. Posto isso, esta pesquisa pode ser relevante por possibilitar condições para a reflexão sobre a profissão de professor da escola pública em Goiás na atual conjuntura político-social, abrindo espaço para que esses profissionais se (auto)representem.