O destacado sociólogo português Boaventura Sousa Santos (2006) compôs uma contraposição analítica para pensar a racionalidade política e social da modernidade no mundo ocidental com a ideia de que, “o mundo contemporâneo experencia uma crise contratualista”. Ao mostrar a evidente tensão entre emancipação social e regulação, bem comum e interesses individuais, vontade geral e vontade individual, exclusão e inclusão, o autor se propôs discutir essas dicotomias dialeticamente, e para tal, retoma, como ponto de reflexão, as teorias contratualistas de Hobbes (2003), Rousseau (1757) e Locke (1979), demonstrando que a lógica do contrato social ora pensando anteriormente, e sua legitimação permanecem, porém em diversos movimentos articulados na sociedade atual.
A maioria dos contratualistas partem da lógica que o Estado deveria existir para emancipar a sociedade e protege-la da característica malévola da natureza humana. Se, como pensava Hobbes, o homem é livre e mau, existe a necessidade de se limitar essa liberdade e domar a maldade. Portanto, o estado de natureza precisava ser talhado, e caminharia, inevitavelmente, para o estado societário de vivência social, amparado pelos olhos atentos do Estado recém-formado. Nesse caso, o homem perderia seu direito à liberdade individual, por um lado e ganharia o direito à liberdade política por outro lado. De acordo com Santos (2006, p.317)
O procedimento lógico que estabelece o carácter inovador da sociedade civil reside, como é sabido, na contraposição entre esta e o estado de natureza ou estado natural. Não surpreende, pois, que as diferenças bem conhecidas na concepção do contrato social entre Hobbes, Locke e Rousseau se espelhem em diferentes concepções do estado natural ou estado de natureza. Quanto mais violento e anárquico é o estado de natureza, maiores são os poderes investidos no Estado saído do contrato social. As diferenças a este respeito entre Hobbes (1946(, por um lado, e Locke (1952) e Rousseau, por outro, são enormes. Comum a todos eles, no entanto, são a ideia de que a opção de abandonar o estado natural para constituir a sociedade civil e o Estado moderno é uma opção radical e irreversível.Nesse sentido, o Estado seria o ‘pelego’ de regulação e regulamentação do desenvolvimento social devendo representar a todos os indivíduos, sem distinção de classe ou características específicas, como o que já se sabe acerca dos valores fundantes do, “liberdade, igualdade, fraternidade”. Nesse aspecto é que se encontra a discrepância valorativa do Estado em sua formação e no que se refere a acepção de grupos e pessoas, daí o problema central, a crise dos valores sociais, conforme já fora dito acima. Isto posto, pode-se apontar que então, a funcionalidade do contrato social está intimamente concatenada com: o bem comum e vontade geral, dinheiro e mercadoria como concretizações deste sistema, pois se compara e mensura por esses elementos, e os espaços e tempos geográficos de controle, define sobre a violência legítima e o bem-estar social. O autor privilegia o espaço-tempo estatal, nacional. Afirma o autor, se apropriando de ideias acerca das temporalidades como horizonte de experiência e horizonte de expectativa, (conforme já fora trabalhado por Reinhart Koselleck (2006) como a proposta do tempo em espiral, portanto o horizonte de experiência refere-se ao passado, posto que, o horizonte de expectativa refere-se ao futuro); afirma que o tempo no qual se desenvolve os movimentos contemporâneos distancia-se absolutamente da perspectiva temporal estatal-nacional, como se pode observar os tempos do ciberespaço, que tem como característica a instantaneidade e os espaços estranhos como a questão ecológica, como derrubada das florestas, questões indígenas ou biodiversidades pela sua extensão e complexidade.
Nesse sentido, os problemas da contratualização moderna se consiste numa crise, posto que, as questões relacionadas aos processos de exclusão sobre os de inclusão, na medida em que o Estado privilegia certos grupos e se coloca em oposição a outros. Eis a questão principal do contratualismo moderno, a exclusão de alguns grupos, que sem legitimidade, são lançados a própria sorte sem o devido respaldo do Estado que concomitantemente os lança para o estado de natureza pura. Para o Santos (2006, p.321)
Por via desta divergência e das antinomias inerentes ao contrato social entre autonomia individual e justiça social, entre liberdade e igualdade, as lutas pela prossecução do bem comum foram sempre lutas por definições alternativas do bem comum. Essas lutas foram-se cristalizando em contratualizações parcelares, mediante a institucionalização dos conflitos, a concertação social, a negociação coletiva.
Dentre os aspectos que corroboram a transformação/adaptação do processo contratual, resultaram em três grandes constelações institucionais, essas, imbricadas no espaço-tempo nacional estatal: a socialização da economia, a politização do Estado, a nacionalização da identidade cultural.
A socialização da economia, instrumento da luta de classes, estão intimamente ligadas as transformações do capitalismo e não da superação deste. A regulação do tempo de trabalho, a regularização de salários etc. são exemplos da socialização da economia - fase da transformação da economia que se observa não coexistindo apenas o elemento ‘capital’, evidente que fatores como regulações, fatores de produção e mercado são considerados, mas, o fenômeno é também composto por trabalhadores, pessoas e classes com necessidades básicas, interesses intrínsecos e legítimos, e, em suma, direitos da cidadania, as vezes negligenciado pelo Estado.
Sob a gerência do Estado como fator decisivo da politização e socialização deste. Isso só foi possível no estado democrático - conforme aponta Foucault in o governo de si e dos outros. O Estado moderno anda lado ao lado com o capitalismo. Isto ocorrera devido a própria expansão da capacidade reguladora do Estado, que acabou por produzir as máximas: “Estado-Providência no centro do sistema mundial e o Estado Desenvolvimentista na periferia e semiperiferia do sistema mundial” Santos (2006 p.322). O Estado aos poucos, foi se constituindo em campo de luta e força política e nesse sentido, ele próprio se politizou.